Sociedade

GRAFFITI

“Uma arte pública e acessível.”: entrevista com o grafiteiro Felipe Iskor

Como parte da campanha “em defesa da arte de rua” da juventude faísca e impulsionada pelo Esquerda Diário entrevistamos o grafiteiro Felipe Iskor.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

terça-feira 7 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Veja mais sobre a campanha aqui

Gabriela - Felipe, nos conte um pouco como começou seu envolvimento com o graffiti e sobre seu trabalho.

Felipe Iskor: Eu tive um primeiro contato com o graffiti em meados dos anos 2000, junto com alguns amigos. A coisa começou descobrindo uns tags (tipo de letra do pixo) ali, umas letras aqui, e quando vi, já estava treinando freneticamente no papel, e posteriormente nos muros. Eu nem desenhava antes disso. Foi a porta de entrada para o desenho, pintura e artes de maneira geral.

G - Por que fazer arte?

FI- A arte, no meu ponto de vista é uma das maneiras de elaborar nossa condição humana e a relação com tudo que nos rodeia e, dessa forma, tentar ler a atualidade. Quanto ao recorte do graffiti, acredito que também traga consigo a discussão sobre ocupação do espaço público e, principalmente, ajuda a elaborar o conceito de uma arte pública e acessível.

G - O que você vem achando da repressão por parte de Dória que vem prendendo pixadores e grafiteiros, querendo enquadrá-los por formação de quadrilha, afirmando que pixo e graffiti não são arte e que se são arte, deveriam estar então em galerias?

FI - Mesmo ele tendo estraçalhado o corredor da 23 de maio, que foi um baita projeto legal e acredito que tivesse o apoio da população, eu acho que nós grafiteiros estamos até em posição privilegiada nesse assunto, a grande questão é o que ele está querendo fazer com os pixadores.
Suas declarações em relação à pixação na mídia beiram o discurso de ódio, isso pode encorajar uma série de excessos por parte da população, como linchamentos e atos violentos em geral. Dória também não se dispôs a tentar entender a questão da pixação como um fenômeno social, simplesmente foi pela saída mais fácil: o recrudescimento dos aparelhos repressivos, tais como utilizar o efetivo de taxistas para monitoramento e denúncias de atos e vandalismo, aumentar o valor das multas e, por fim, prender mais pixadores. E já estamos cansados de saber que tais mecanismos atacam o sintoma e não sua causa. Acredito que seja possível que o número de pixadores até aumente em sua gestão.
Além disso, parece que existe uma tentativa de domesticar alguns fluxos livres e importantes da cidades: retirar moradores de rua de circulação, colocar graffitis em grafitódromos, tirar a virada cultural do centro, entre outros. Medidas que vejo como verticais, higienistas e de quem não se dispôs a escutar o que a cidade tem a dizer (talvez esteja escutando apenas a parcela que interessa).

FI - Mais algumas colocações:

Com o passar dos anos, o que é tido como graffiti, muralismo e arte urbana para a população em geral extrapolou a condição de ser movimento de contracultura e passou a ganhar status de arte. Em consequência disso, vemos com alguma frequência a publicidade utilizar-se do mesmo, afim de agregar algum valor para determinada marca/produto. O mesmo acontece em comércios, instituições e estabelecimentos de toda a sorte, inclusive para evitar que tais lugares sejam pixados, o que é bem perverso.

Isso, por um lado, proporcionou que mais pessoas pudessem passar a viver de arte urbana, profissionalizado a atividade, uma vez que, tendo como atividade principal o graffiti, o artista tem mais tempo para se dedicar à sua atividade e melhorar seu trabalho.

Porém incluiu o debate em termos éticos ao contexto: ao fazer um trabalho pra determinado contratante, o artista, de uma certa maneira, endossa as atividades do mesmo, estabelecendo (mais) um novo paradigma da arte urbana: o graffiti enquanto ferramenta publicitária.

Nosso atual secretário da cultura, André Sturm, anunciou algumas ações relacionadas ao graffiti em Sampa, tais como o Museu de Arte de Rua (MAR), a central do graffiti e alguns investimentos pontuais na cena.

A pixação e graffiti são atividades análogas e muito amigas. Nós dividimos o espaço público e o respeito mútuo, e estamos, junto a muitos outros grupos, tentando quebrar a austeridade e frieza malucas que São Paulo carrega a muito tempo.
Acredito que participar de tais projetos tenha de passar pela reflexão desse atual paradigma do graffiti. Ao fazer um trabalho pra prefeitura, nós podemos nos pegar sendo agentes da publicidade de uma gestão questionável. Apesar da boa intenção do secretário, enquanto essa gestão não se mostrar, de maneira global, mais aberta a diálogos, eu não pinto 1 cm quadrado pra prefeitura.




Tópicos relacionados

Arte de Rua   /    arte urbana   /    pixo   /    Grafite   /    João Doria   /    Sociedade   /    Cultura

Comentários

Comentar