Cultura

Paulo Leminski, O bandido que sabia latim e y otras cositas más

Fragmentos da vida-obra do poeta Paulo Leminski.

sábado 10 de outubro de 2015| Edição do dia

O poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) conquistou seu lugar ao sol no meio editorial e artístico durante os anos 1970 e 1980. Um lugar pequeno, sempre com sombras e se possível com água de coco fresca. Foi saudado pela revista Veja e pelos jornais Folha e O Estado de São Paulo. O poeta maldito publicitário trabalhou na TV Bandeirantes, escreveu nos principais jornais de Curitiba e fez parceria musical com Caetano Veloso, Morais Moreira e Guilherme Arantes. Entre o escondido e o holofote, Leminski morreu com alguma fama no Brasil.

O cachorrolouco saiu de cena logo após a sua morte, literalmente e literariamente, sua obra passou os anos 1990 fora dos catálogos, vendida a preço de ouro nos sebos de livros. O eletrônico virou artesanal, ficou de canto, por fora das grandes mídias. Mas, de uns tempos para cá, a besta dos pinheirais volta com força no mercado editorial e no cenário artístico brasileiro. Leminski na livraria, na internet e na TV. Inúmeros eventos culturais e ruas pelas cidades do Brasil são batizadas com o seu nome. Secretarias de Cultura do Estado prestam homenagens.

A biografia Paulo Leminski, O bandido que sabia latim (2001), escrita pelo jornalista Toninho Vaz, já teve três edições, o lançamento de Toda Poesia (Companhia das Letras, 2012), reunião de toda a produção do poeta curitibano foi sucesso no mercado editorial brasileiro, a exposição itinerante Múltiplo Leminski, maior exposição já feita sobre o escritor, atrai milhares de pessoas em diversos estados do País. O bigode do polaco negro virou ícone pop? De novo, sucesso de venda e agora também de bilheteria. Leminski, evitado pelas secretarias de cultura e grandes editoras no começo da carreira, reconhecido e odiado nos anos 1970 e 1980, hoje, aparece feito estátua quase inofensiva no salão nobre da Prefeitura.

Mas ele sempre foi uma espécie de Hebe Camargo dos trocadilhos, diz alguns críticos mais ferrenhos. As posições se dividem, Leminski é chamado de gênio por alguns e de charlatão por outros, ralo e profundo, apocalíptico e integrado, Arthur Rimbaud de Curitiba e Paulo Coelho da poesia. Para contribuir com o debate e lançar mais lenha na fogueira, selecionei uma série de fragmentos da vida-obra do Samurai Eletrônico, alguns bastante conhecidos, e outros, conscientemente desprezados ou quase nunca citados pelas publicações e exposições oficiais.

Estilhaços Pop-concreto-tropical.

Paulo Leminski Filho nasceu no dia 24 de agosto de 1944, em Curitiba. Filho de um sargento do Exército, teve uma infância tranquila. Em 1958 foi para o Colégio São Bento em São Paulo, instituição secular mantida pelos monges beneditinos. Aluno disciplinado, estudou latim, grego, francês e as obras de Homero, Dante Alighiere e Virgílio. Os monges identificaram em sua personalidade pontos visíveis de soberba, inquietação, vaidade e sensualidade. A direção do mosteiro achou mais prudente mandar o garoto de volta para Curitiba.

1960. Leminski, então com 16 anos, se aproximou do movimento estudantil de Curitiba e participou de algumas reuniões clandestinas.

Passava horas e horas na Biblioteca Pública do Paraná.

Inverno de 1963. O jovem curitibano lê num jornal a notícia sobre a Semana de Poesia de Vanguarda, que prometia reunir em Belo Horizonte alguns nomes importantes da intelectualidade brasileira. O jovem poeta decidiu ir para conhecer Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos, núcleo histórico da poesia concreta paulista e editores da revista Noigandres.

Segundo o poeta Haroldo de Campos, Paulo Leminski foi convidado por Augusto de Campos à participar da revista Invenção, importante publicação da vanguarda artística nos anos 1960, na qual apresentou quatro poemas. Poesia e pensamento concreto na cabeça. Leminski almoça e janta a obra de Marcel Duchamp, Oswald de Andrade, Vladimir Maiakovski, Stéphane Mallarmé, Guimarães Rosa e Sousandrade.

Primeiro de Abril de 1964, a burguesia brasileira, patrocinada pelo os EUA, destituiu o presidente eleito João Goulart e instaurou uma ditadura militar no Brasil que afogou em sangue as lutas operárias, camponesas e estudantis para garantir a manutenção dos interesses imperialistas no país e na América Latina. E enquanto corria a barca Paulo Leminski abandona a universidade, aceita o convite para dar aulas de história e literatura num cursinho pré-vestibular e causa furor entre os alunos ao usar de forma pioneira músicas de Bob Dylan em sala de aula.

1965. O cachorrolouco vive a promessa da estabilidade no emprego. Alugou um amplo apartamento, a sala foi decorada e num dos quartos ficava a biblioteca e o escritório de trabalho. Leminski comprou um aparelho de som e discos de música medieval, canto gregoriano, Elvis Presley e The Mamas and The Papas.

Conquistou a faixa preta de judô. Artes Marciais. Poesia oriental. Hai-kai. Zen budismo. Poeta-judoca e meia garrafa de rum por dia.

1967 - Festival Internacional de Música Pop de Monterey, Califórnia, EUA. O Festival reuniu nomes importantes da música como The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, The Jimi Hendrix Experience e se tornou um marco no movimento hippie dos anos 1960 e um modelo para a organização de grandes festivais de rock como o Woodstock. Leminski ficou impressionado ao saber que Jimi Hendrix queimou a guitarra no palco. O caldeirão ferve. Zen-hippie-pop-concreto. Roda o baseado no apartamento do Edifício São Bernardo em Curitiba.

1968. Ato Institucional n 5 ou AI-5, o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar que dava poderes extraordinários aos generais e suspendia diversos direitos constitucionais. Os anos de chumbo. Terrorismo de Estado. Exílio. Prisão. Choque. Afogamento. Pau-de-Arara. Assassinato. A repressão caça trabalhadores, estudantes, artistas, militantes de esquerda e LGBT. Nas delegacias o grito é abafado pelas canções de Roberto Carlos. Paulo Leminski se casou com a poeta Alice Ruiz, com quem viveu durante vinte anos e teve três filhos: Miguel Ângelo (morto aos 10 anos de idade, vítima de câncer), Áurea Leminski e Estrela Ruiz Leminski.

Leminski se dizia trotskista, mas nunca militou numa organização ou partido. Em 1968 lia o poeta norte-americano Allen Ginsberg.

Anfetamina destilada na veia. Durante um semestre inteiro Leminski deu aulas usando um suéter, mesmo em dias de calor, a manga comprida era para esconder as marcas de agulhas no braço.

Noites cariocas no Solar da Fossa. Sem lenço e sem documento. Leminski consegue trabalho como copydesk no jornal O Globo, redator da revista Geográfica, da editora Bloch e tradutor da agência de notícia Reuters. Conheceu o filólogo Antônio Houaiss e o crítico e escritor Otto Maria Carpeaux. Leminski escreve regularmente para as revistas da editora Bloch e no jornal Correio da Manhã cobria crimes e problemas de bairro.

LSD e garrafão de vinho Sangue de Boi. 1971. De volta à Curitiba. O Labirinto do Minotauro: cachorro-quente, quarto de pensão, violão e conhaque. Após uma dessas madrugadas boêmias, Leminski chega em casa cantarolando a música Luzes, que acabara de compor:

Acenda a lâmpada às seis horas da tarde
Acenda a luz dos lampiões
Inflame a chama dos salões
Fogos de línguas de dragões
Vagalumes
Numa nuvem de poeira de néon
Tudo claro, tudo claro
A noite assim que é bom.

1972. Redator numa agência publicitária, tornando-se mais tarde um dos principais nomes da publicidade em Curitiba. Entre o escondido e o holofote.

Conhece Caetano Veloso e Gal Costa.

1975. De forma independente, publica 2000 exemplares do seu romance ideia intitulado Catatau, que narra uma suposta viagem do filósofo René Descartes para o Brasil junto com a armada de Maurício de Nassau durante as Invasões Holandesas. Numa sequência sem pontuação e parágrafos Leminski transplanta Descarte para as florestas tropicais num fluxo de consciência sem bússola. A razão ocidental, debaixo do sol fuma maconha e rodopia num delírio barrocodélico, conforme expressão de Haroldo de Campos.

Não há compatibilidade de horários entre Leminski e a agência publicitária. Problemas financeiros. As secretarias de Cultura evitavam Paulo Leminski. Curitiba é uma cidade de caretas. Jamais vou virar estátua aqui porque tenho uma bagana no bolso. A minha missão é outra.

Quer viver de poesia: Ministro-Sem-Pasta da Marginália.

Junho de 1976. Durante a passagem do grupo Doces Bárbaros por Curitiba, teve um novo encontro com Caetano Veloso e conhece Gilberto Gil e Maria Bethânia. Álcool & Maconha. Leminski e Caetano conversaram sobre o artista plástico carioca Hélio Oiticica, o jornalista e poeta Torquato Neto e a escritora comunista Patrícia Galvão.

1977. Entre outros trabalhos, Leminski publica na Revista Muda, editada em São Paulo pelo poeta Augusto de Campos, o poema que, no futuro se transformou em sua marca:

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

Em 1981 Caetano Veloso grava a música Verdura de Leminski.

O poeta curitibano se aproxima da Libelu (Liberdade e Luta), tendência trotskista do movimento estudantil ligada ao jornal O Trabalho, editado pela Organização Socialista Internacional (OSI). Leminski escreveu o poema Para Liberdade e Luta:

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

A música Promessa Demais, em parceria com Moraes Moreira, na voz de Ney Matogrosso, foi tema de abertura da novela Paraíso, da Rede Globo. Leminski no Plin! Plin! Trégua nas dificuldades financeiras. Ganha um bom dinheiro com direitos autorais e com trabalhos esporádicos em publicidade.

Em janeiro de 1982 a revista Veja pública uma ampla reportagem com o título Um brilhante maldito. Leminski invade as rádios com canções de sucesso.

1983. A editora Brasiliense convidou Leminski para participar da coleção Encanto Radical. O projeto era uma coleção de biografias curtas de personagens de impacto na política e na cultura. Leminski escreve quatro biografias: Cruz e Souza, o negro branco; Bashô, a lágrima do peixe; Jesus A.C e Trotsky, a paixão segundo a revolução.

O livro de León Trotsky mais significativo para Leminski foi Literatura e Revolução, escrito nos verões de 1922 e 1923, depois de um período de guerra civil na Rússia para estabelecer o poder operário. Segundo o poeta, o revolucionário russo é um agudíssimo crítico literário, leia-se, por exemplo, o voo utópico do final do ensaio Arte Revolucionária e Arte Socialista, capítulo oitavo do seu livro Literatura e Revolução, o mais extraordinário livro sobre literatura que um político jamais escreveu.

Além de escrever estas biografias, Leminski traduziu para a Brasiliense as Folhas das folhas da relva, de Walt Whitman; Pergunte ao Pó, de John Fante; O Supermacho, de Alfred Jarry; Satirycon, de Petrônio; Sol e Aço de Yokio Mishima; Um atrapalho no trabalho, de John Lennon; Giacomo Joyce, de James Joyce; Malone Morre, de Samuel Beckett; Vida sem Fim, de Lawrence Ferlinghetti e escreveu o prefácio de Cartas na Rua, de Charles Bukowski.

Publicação da coletânea de poemas Caprichos e Relaxos com distribuição nacional. Apresentada por Haroldo de Campos e Caetano Veloso, a obra trás uma sequência de poemas sintéticos e inspirados que fortaleceram a imagem de Leminski como um personagem singular no panorama literário brasileiro. Um barato que instiga o maravilhoso. Sucesso de crítica e de vendas. Concretismo, Beat Generation, Tropicalismo e Marginalidade.

1984. Com Guilherme Arantes desenvolve a trilha sonora do musical infantil Pirlimpimpim 2, da Rede Globo. Foram sete músicas em parceria. Xixi nas Estrelas foi a mais tocada nas rádios. Agora eu saio na Globo assim: Paulo Leminsk - e, embaixo - poeta. Exatamente como eu queria.

1985. Escritor na Biblioteca. Um bate-papo informal com estudantes no auditório. Segundo Leminski, a poesia não tem que estar a serviço de nenhuma causa, de nenhum pressuposto. A poesia é um exercício de liberdade. O poeta reflete sobre a produção artística e combate as imposições do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que, orientado pelo realismo-socialista, arte oficial do stalinismo, determinava o tema e o conteúdo das obras.

Vodca no almoço. As marcas do físico debilitado são visíveis. O samurai tropicalista sente o baque.

1987. Distraídos Venceremos.

1988. Recebe o convite para trabalhar num telejornal da TV Bandeirantes - o Jornal de Vanguarda - com uma coluna semanal de cultura. O Jornal de Vanguarda é um projeto audacioso e Leminski procurou os limites da TV com seus chamados clip-poemas. Macunaíma Eletrônico com salário mensal. A saúde do poeta se deteriora a cada dose de conhaque.

um homem com uma dor
é muito mais d elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios edens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

O jardim está descuidado. A cirrose vai derrubando o poeta por dentro e por fora. O corpo, pequena mala de couro com um estilingue dentro está surrada. Mas sem dramalhão. Embarca para São Paulo. Reencontra velhos amigos como Haroldo de Campos e o músico Itamar Assumpção. Vodca no café da manhã. Passa os dias escrevendo e ouvindo Frank Zappa. O dinheiro é curto e um terço do fígado está necrosado. Cospe sangue e não consegue se alimentar. Reverenciado pelo caderno cultural da Folha de São Paulo, fraco e desnutrido, volta para Curitiba. Com a ajuda dos amigos se hospeda num quarto de hotel

1989. Edita A Lua no cinema e trabalha como colunista no suplemento cultural da Folha de Londrina. Organiza Gozo Fabuloso, um conjunto de contos e a coleção de poemas O ex-estranho. Com a saúde cada vez mais debilitada vive uma rotina de Sopinhas e Conhaques. Leminski passa mal e explode em vômitos de sangue. A barra pesou e foi internado em estado grave. Amigos e admiradores vão ao hospital prestar solidariedade. A Secretaria de Cultura do Paraná desejou boa sorte e assumiu as despesas hospitalares. Paulo Leminski Filho morreu no dia 07 de junho de 1989, vítima de cirrose hepática.




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