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OPINIÃO | Lula se prepara para aceitar a tutela militar?

Nas últimas semanas, as cúpulas militares elevaram a retórica golpista em um nível sem precedentes desde o fim da ditadura militar. O perigo imediato, no entanto, não é de autogolpe bolsonarista ou intervenção militar e tanques na rua. Os generais falam grosso e chantageiam para conseguir extrair o máximo na mesa de negociação. E encontram muitos atores dispostos a pactuar, inclusive Lula.

Thiago FlaméSão Paulo

quinta-feira 29 de julho | Edição do dia

É como se a política brasileira estivesse correndo por dois canais. Em um deles, águas caudalosas se chocam com obstáculos pesados, provocando turbulências e ondas. Às vezes parece que o canal vai transbordar. Os comandos militares ameaçam implicitamente o uso do artigo 142 contra a CPI, que responde fortalecendo a retórica contra os militares, enquanto o Congresso acelera as discussões sobre o semi-parlamentarismo para... 2026. As recorrentes crises institucionais e políticas, a retórica cada vez mais exacerbada, os gestos ridículos e os acontecimentos inexplicáveis (como o recente ataque contra a deputada de direita) são expressões do nível de tensão social que vai se acumulando em todos os poros da sociedade brasileira. Mas as coisas não explodem?

Existe um ponto de fuga, uma válvula de escape, que permite que as coisas não cheguem ao ponto de transbordar. Um canal onde as águas correm bem mais tranquilas. Por um lado, se olharmos para os enfrentamentos verbais entre a CPI, Bolsonaro e os militares, a situação parece fora de controle. Mas, por outro, se olharmos as votações no Congresso, o avanço das privatizações, a aprovação do orçamento do governo, entre outros ataques, as instituições parecem funcionar na sua plenitude para atender aos interesses do grande capital e do mercado financeiro. Nos gabinetes dos sindicatos também reina a tranquilidade. Não vemos os dirigentes sindicais subindo o tom, convocando assembleias e manifestações ou sequer organizando paralisações ao seu modo burocrático.

Lula, por sua vez, que retomou a pleno vapor as atividades políticas e opina sobre tudo, guardou um prudente silêncio sobre todas as últimas declarações dos comandos militares. E na sequência da nota do ministério da defesa ameaçando o presidente da CPI, Lula falou dos militares mas para dizer que são cidadãos comuns como os evangélicos e não tem nenhum problema em conversar com eles. Essas palavras não são sinalizações somente para soldados e devotos, digamos que também alcançam os ouvidos de pastores e de um Mourão em visita à África para advogar pelos interesses da Universal. Lembremos que Lula tratou muito bem os comandos militares nos seus governos, com verbas enormes e com um ministro da defesa com melhores relações com os comandos desde a criação desse ministério em 1999. Esse ministro foi Nelson Jobin, que voltou à cena junto com Lula para retomar esses canais de negociação.

Todas as tensões entre as instituições vão cada vez mais se concentrando nas eleições de 2022, mas os cenários ainda estão todos em aberto. Bolsonaro chegará em outubro com a popularidade na lona ou terá forças para chegar ao segundo turno e fazer frente a Lula? A direita tradicional, o bonapartismo institucional, as forças da lava jato aliadas do governo, vão conseguir levantar um nome competitivo? Se não, estarão tentados a usar de medidas jurídicas e parlamentares para tirar ou Lula ou Bolsonaro da eleição? Como vai se posicionar ao final o governo Biden? Seríamos ingênuos em acreditar que as forças armadas vão até o final com Bolsonaro se verem que está fadado a perder as eleições, ou que se engajariam em uma aventura militar para sustentar um presidente impopular contra a vontade dos EUA. E Lula não é ingênuo...

Os brigadeiros, almirantes e sobretudo os generais, estão envolvidos até o pescoço com o governo Bolsonaro e todas as suas podridões. Mas não podem correr o risco de um descalabro do governo que os leve junto. Dessa forma, sustentam Bolsonaro mas mantém os canais abertos para trocar de barco se verem o bolsonarismo afundando, visando manter o máximo possível as posições que alcançaram na máquina estatal, inclusive como medida de autodefesa. O PT, sob o comando de Lula, participa das manifestações contra Bolsonaro com bem pouco empenho e com bastante cuidado em limitá-las a defender o impeachment. Pois, para garantir a possibilidade de atrair setores do centrão, empresários e banqueiros, não podem correr o risco de um movimento que fuja do seu controle, tampouco liderar uma luta contra as privatizações e as reformas.

E como foi feito durante os governos petistas, não querem também um enfrentamento aberto com os militares, para o qual seria necessário recorrer às forças populares. Nunca, em treze anos de governo, o PT ou Lula recorreram à mobilização popular, deixando militares e golpistas de todo tipo se fortalecerem. O preço desses pactos de governabilidade foi um ciclo de governos petistas que não tocaram em nenhum dos problemas estruturais do país e no futuro esses preços serão ainda mais caros, vão demandar a manutenção de todos os ataques e privatizações aplicadas por Temer e Bolsonaro e uma maior tutela militar sobre o governo.

A luta contra o governo Bolsonaro e Mourão e contra todos os ataques tem que ser levada para cada local de trabalho e para assembleias de base, pois ou classe trabalhadora unifica a luta contra o governo com a luta contra as privatizações e ataques ou, senão, mudará o governo, mas não as condições de vida. Quem apostar hoje em Lula para derrotar Bolsonaro em 2022, que não se surpreenda depois se tiver um governo Lula com um general na defesa, um banqueiro na fazenda, um latifundiário na agricultura e um amigo de Lira e Fernando Collor na casa civil, ou quando a força nacional for chamada para reprimir uma greve operária – como aliás já aconteceu.




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