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CORONAVÍRUS DF

Fechamento de escolas no DF: licença remunerada aos trabalhadores no cuidado das crianças já

Longe de ser uma medida séria para contenção da transmissão do coronavirus, o fechamento das escolas decretado pelo governador Ibaneis Rocha na noite de ontem explicita o total descaso do Estado com a vida das massas trabalhadoras.

quinta-feira 12 de março| Edição do dia

O caráter amador de um decreto assinado às 21h

O decreto só foi assinado às 21h, e nas escolas e locais de trabalho reinou a confusão. O que fazer com as crianças fora da escola? Sem nenhum tempo hábil para organizar os avisos aos pais e os trâmites familiares, xs trabalhadorxs com filhxs entraram em desespero.

Além do óbvio, que era como reorganizar a vida depois de uma mudança como essa, o fato de o decreto ter vindo assim do supetão lançou desespero sobre todas e todos, crentes de que o DF agora vive uma enorme crise em torno da doença. De fato, um novo vírus não é algo com o que se brinca, e seria preciso que o próprio Estado falasse e agisse com seriedade, com medidas mais organizadas e cabíveis de planificação.

O horário e a forma de uso de uma medida séria como essa explicitam o caráter capitalista do Estado, que em lugar de conscientizar e respeitar a população, espalha medo e pânico que depois serão transformados em lucro farmacêutico.

Os professores não dão aula, mas correm risco de desconto salarial enquanto terceirizadxs vão a escola normalmente

Os capitalistas espalham pânico e são eles próprios os que saem ganhando com tudo isso, enquanto quem paga o preço das mortes e do caos social são os mais pobres e a classe trabalhadora.

O cancelamento das aulas no DF será feito reforçando essa lógica. Professores de escolas públicas e privadas poderão sofrer desconto salarial este mês caso se neguem a repor aulas em julho, o que para muitos significará perder férias, cancelar viagens, entre outros custos do prolongamento do semestre.

As terceirizadas e terceirizados da escola tiveram que trabalhar independente do decreto, mesmo sem ter qualquer função a realizar nas escolas, que estão completamente vazias. A decisão de que trabalhem é apenas a permanência de uma lógica de servidão, onde mesmo sob o risco do contágio, os mais pobres são forçados a seguir trabalhando.

Se é para evitar contágio, porque não são todos dispensados? Se a responsabilidade do desenvolvimento dessa crise é do Estado, porque são as professoras e professores que devem perder suas férias com reposição de aulas? Porque efetivos e terceirizados são tratados de forma diferente nas escolas?

As decisões sobre os rumos das escolas frente a essa crise deveria ser colocada na mão de todxs xs educadorxs, sejam eles professorxs, trabalhadorxs da limpeza ou da merenda. Se todxs somos responsáveis pela estrutura escolar, cabe a nós, não a Ibaneis, decidir o que fazer com nossa rotina escolar.

A UnB decidiu manter suas aulas, sob alegação de que não vê risco para a comunidade acadêmica, mas à comunidade também não foi permitido decidir o que fazer com sua jornada de trabalho e como se proteger do vírus. A reitora Márcia Abraão Moura, queridinha do DCE por ser do mesmo partido da maioria da gestão, ignora a preocupação e a capacidade de decisão da comunidade acadêmica e toma a decisão de manter a UnB aberta por pura política de oposição a Ibaneis. Opor Ibaneis é fundamental, mas através de uma grande assembleia universitária que decida não apenas como organizar as medidas de emergência para proteger a comunidade universitária mas também como se ligar à população mais pobre com conhecimento, pesquisa e ações que possam colocar de pé um verdadeiro sentido de universidade a serviço da classe trabalhadora.

As crianças não vão às escolas, mas seus pais e mães vão ao trabalho: tudo para proteger o lucro capitalista

Em meio a tudo isso, são milhares as crianças cujos pais tiveram que ir ao trabalho e deixá-las sozinhas em casa, já que apenas as escolas foram fechadas. Para proteger seus lucros, os capitalistas querem que a classe trabalhadora do DF se vire para cuidar de seus filhos.

Uma medida estatal emergencial fundamental é que o Estado remunere um membro da família para permanecer em casa com as crianças, um custo com o qual as famílias trabalhadoras estão tendo que arcar sozinhas. Mais uma vez, o cuidado com as crianças foi lançado sobre as costas da própria família – em especial as mulheres, principais sobrecarregadas com a jornada dupla. A medida de Ibaneis reforça a estrutura do patriarcado e permite que, mais uma vez, sejamos nós a pagar o custo dessa crise.

A não ida a escola não muda o terreno favorável a doenças: o que comem as crianças alimentadas pela secretaria de educação do DF?

Conversava ontem com uma colega de trabalho terceirizada, que hoje está trabalhando e deixou as três filhas de 3, 5 e 7 anos em casa sozinhas. Ela me contava que a merenda da escola em geral se resume em bolachas e sucos de caixinha, cujo valor nutricional além de perto de zero, tem o poder paradoxal de tornar as crianças mais doentes com a quantidade incalculável de danos advindos de agrotóxicos e conservantes presentes nesses alimentos ultra processados.

Se Ibaneis está preocupado com a saúde das crianças, porque serve essa merenda nas escolas? Ou pior ainda: será que em casa essas crianças terão o que comer?

Independente do debate pró ou contra vacinas, um dado é concreto: a melhor defesa do corpo humano é um terreno favorável a vitória de nossas defesas naturais. As crianças alimentadas pela secretaria de educação do DF certamente não contaram, até agora, com uma alimentação capaz de protegê-las nem do coronavirus nem de doenças ainda mais conhecidas e agressivas, como a dengue que contaminou mais de 1200 pessoas apenas na Ceilândia em 2019, tendo matado mais de 60 pessoas em todo o DF no mesmo ano. Com dados ocultos e precários não é possível identificar quantas vítimas são crianças, mas o que se sabe é que as escolas, mal-conservadas por política de Estado, de corte de recursos, são um dos principais locais de contaminação.

O Brasil é o país com o maior número de mortes de crianças no mundo, e isso não parece ser uma preocupação para um governo que tira mais ainda das massas trabalhadoras. Com a reforma trabalhista, por exemplo, mulheres poderão trabalhar em locais insalubres mesmo à beira do parto, uma forma um tanto explícita de demonstrar que os políticos “antiaborto” não são em nada “pró vida”. Aceitam que morramos de dengue, de malária, de fome, de acidentes de trabalho, de seca, tudo isso sem cancelar aulas ou garantir as condições essenciais de contorno de cada uma dessas questões que, em diversos momentos do ano, se tornam críticas no Distrito Federal.




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