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DECLARAÇÃO DA FRAÇÃO TROTSKISTA

Assassinato de George Floyd, novo crime racista da polícia nos EUA: toda solidariedade à imponente revolta social!

Publicamos a declaração da Fração Trotskista - Quarta Internacional, grupo internacional da qual o MRT faz parte e que impulsiona a rede de jornais La Izquierda Diario, sobre o brutal assassinado de George Floyd, que despertou a ira social no coração do imperialismo.

sábado 30 de maio| Edição do dia

Em meio à pandemia da COVID-19 e às portas de uma depressão econômica global, o Estado capitalista mostra a letalidade racista de seu aparato repressivo. O mundo ficou chocado assistindo ao vídeo que retrata o repugnante assassinato de George Floyd, homem negro de 46 anos, por agentes de polícia da cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos. O vídeo mostra Derek Chauvin, um policial branco, pressionando seu joelho no pescoço de Floyd, enquanto este implorava por oxigênio, dizendo repetidamente que não conseguia respirar e que sentia dores por todo corpo. No vídeo, o parceiro de Chauvin, Tou Thao, aguarda enquanto Floyd luta para respirar até ficar inconsciente, ao mesmo tempo em que os presentes gritam para Chauvin erguer o seu joelho. No total, foram quatro policiais os presentes no crime. Na cena macabra, Chauvin mantém seu joelho no pescoço de Floyd por cerca de 10 minutos, até mesmo depois de Floyd desmaiar.

Floyd morreu momentos depois no hospital. A raiva se espalhou pelas redes sociais e deixou um rastro de indignação no mundo inteiro, colocando a hashtag #BlackLivesMatter em primeiro lugar nos trending topics, e protestos massivos não apenas nas ruas de Minneapolis, mas em diversas metrópoles como Nova York, Los Angeles, Atlanta, Dallas, Washington, numa tendência à nacionalização dos protestos que miram os símbolos do poder financeiro (como o edifício do Tesouro norte-americano) e midiático (como a sede da rede CNN em Atlanta).

George Floyd foi sentenciado à morte, e seu “crime” foi ser negro diante do racismo estrutural do estado imperialista norte-americano. Suas frases, que escapavam sufocadas, I can’t breathe (“eu não consigo respirar”) nos remetem inevitavelmente às últimas palavras de Eric Garner, asfixiado pela polícia de Nova York em 2014. Os assassinatos de Trayvon Martin em 2013 (Sanford, na Florida), de Mike Brown (em Ferguson, Missouri) e Eric Garner em 2014, deram origem ao movimento Black Lives Matter (“As Vidas Negras Importam”) nos Estados Unidos, uma onda de protestos contra a violência racista do Estado, ainda durante a administração de Barack Obama, em que se registraram recordes de assassinatos à população negra.

Esse assassinato sancionado pelo Estado ocorre em um contexto de incessantes mortes de negros pelas mãos do Estado e seus policiais. O assassinato de Floyd é adicionado a uma crescente lista de casos destacados nos últimos meses: Ahmaud Arbery, Sean Reed e Breonna Taylor, todos tiveram suas vidas ceifadas pelo ódio aos trabalhadores e jovens negros.

Repudiamos esses crimes atrozes do racismo imperialista. Têm como objetivo aprofundar a submissão da população negra a um regime de coerção permanente, que contenha possíveis eclosões da luta de classes contra as mazelas que estão desenhadas no horizonte capitalista em crise. Como dissemos em nossa declaração de 27/4, as grandes patronais e seus governos estão aproveitando a crise sanitária da COVID-19 para multiplicar demissões, fechamento de empresas, suspensões com cortes salariais, maior precarização e mudanças nas condições de trabalho. Uma realidade de miséria diante da qual uma “primeira linha” de trabalhadores (muitas vezes negros, imigrantes, etc.) e lutas populares está surgindo em vários países, antecipando o que virá quando os picos da pandemia passarem e suas consequências sociais, políticas e econômicas emergirem.

A presidência Trump, fator agravante no racismo estrutural nos Estados Unidos

Trump é um notório agitador do racismo em sua base de extrema direita, e é o principal responsável ideológico por mais essa barbárie. Seu chamado a que as forças repressivas “atirem” nos manifestantes que atacam supermercados, delegacias e outros edifícios, em repúdio ao assassinato de Floyd, foi feita utilizando a frase do racista chefe de polícia de Miami, Walter Headley, em 1967, “se o saque começa, começa também o tiroteio”. É testemunha do desprezo que nutre pela vida da população trabalhadora negra (desprezo que atinge a população imigrante e latina). O histórico racista de Trump é bastante longo: havia chamado supremacistas brancos que marcharam em Charlottesville, em 2017, defendendo as bandeiras da Ku Klux Klan, de “boa gente”. Também classificou o Haiti e as nações da África como “países de merda”. Em suas constantes disputas com políticos negros, declarou que um deles, da cidade de Baltimore, deveria retornar a esse distrito, uma “bagunça nojenta e infestada de ratos” e “o mais mal administrado e o mais perigoso distrito nos Estados Unidos”.

Essa verdadeira retórica de criminalização das comunidades negras é típica do caráter escravocrata da burguesia norte-americana, que sujeitou o povo negro aos piores suplícios em seu território, e que os oprime na África, na Ásia e em todo o globo. Trump, assim, alenta as manifestações da extrema direita (uma postura semelhante a de seu lambe-botas, Jair Bolsonaro, presidente racista de extrema direita no Brasil), como as que vimos em Michigan, com paramilitares brancos armados ameaçando os trabalhadores da saúde e exigindo o fim do isolamento social.

As expressões de ódio aos negros são inúmeras durante a administração Trump, e se inserem dramaticamente no contexto do coronavírus: a maioria das vítimas são negras e pobres. Em Chicago, em que os negros compõem um terço da população, representam 73% das mortes pela pandemia. Em Milwaukee, no norte do país, os negros são 26% da população e representam 81% dos mortos. No estado de Michigan, onde os negros são 14% apenas da população, contabilizam 40% dos mortos. A proporção não é diferente em Nova York, epicentro da pandemia nos EUA, o que mostra que não apenas nos estados Republicanos, mas também naqueles governados por Democratas, os políticos da burguesia não tem nenhum apreço pelas vidas negras. A segregação se expressa nas condições de vida: enquanto 14% da população nos EUA é negra, os negros desabrigados são 40%, enquanto 21% dos negros vivem abaixo da linha da pobreza, uma taxa 2.5 vezes maior que a dos brancos, tornando-se essas comunidades vítimas fáceis da pandemia. Economicamente, são os negros que arriscam suas vidas nos serviços essenciais (além de latinos), em trabalhos precários sem qualquer tipo de direito trabalhista ou proteção sanitária (como mostram as greves nos galpões da Amazon), assim como são parte expressiva dentre os 40 milhões de trabalhadores que ficaram desempregados pela sanha de lucro dos capitalistas.

Mas esse crime atroz do Estado imperialista contra George Floyd foi respondido com uma explosão de indignação social nas ruas. Dezenas de milhares de pessoas se manifestam desde então em Minneapolis em repúdio à polícia e ao Estado, enfrentando-se contra a polícia, quebrando viaturas e delegacias, e inclusive incendiando edifícios governamentais. Não apenas na capital do estado de Minnesota, mas em Los Angeles, Nova York, entre outras cidades, viram manifestações de repúdio ao assassinato. O movimento Black Lives Matter ressurgiu como uma grande força social que pode recolocar cenários mais explosivos da luta de classes em primeiro plano, num ano eleitoral atravessado pela catástrofe sanitária e econômica organizada pelos capitalistas.

A luta do povo negro pode ultrapassar as fronteiras permitidas pela legalidade burguesa, e se enfrentar contra o regime político estadunidense, o que daria novo fôlego à luta dos trabalhadores que vinha atravessando os quatro cantos do país.

O Partido Democrata busca conter e desativar a explosão social

Joe Biden, candidato presidencial do Partido Democrata, pronunciou-se nas redes sobre o tema, “agradecendo” o prefeito Jacob Frey por ter apenas afastado os policiais envolvidos, pedindo abertura de investigações. Os fatos são claros, não há o que investigar. O cinismo de Biden oculta que ele mesmo foi o autor da “Crime Bill”, que expandiu a criminalização dos negros, e que defendia a segregação negra no transporte escolar. A política de contenção foi a conduta geral das figuras Democratas. Nancy Pelosi achou oportuno aguardar dias antes de se pronunciar, satisfazendo-se com a vaga mensagem de que “o Congresso se compromete em encontrar soluções para evitar esses crimes”. Notórias agentes de polícia dos Democratas, Kamala Harris e Amy Klobuchar, limitaram-se a criticar o assassinato. Mesmo Ilhan Omar, uma das deputadas progressistas do partido, reduziu sua exigência à “investigação” do caso. O próprio Bernie Sanders, ex-candidato e agora apoiador de Biden, pediu uma “reforma” da polícia e que o próprio Estado racista, que absolve seus agentes repressivos criminosos, investigue todos os crimes.

Mais ainda, o assassinato de Floyd ocorreu num estado (Minnesota) dirigido pelo Partido Democrata, em que esse partido tem hegemonia há décadas. Até agora, dias após o crime, o governo Democrata se havia negado a prender Derek Chauvin e os outros três policiais, pelo incrível argumento de que “não havia evidências suficientes”. Apenas após dias inteiros de protestos e a escalada da pressão popular o Partido Democrata em Minnesota decidiu prender Chauvin, para tentar acalmar as ruas, ainda assim deixando seus cúmplices livres. Os que deram ordem para que a Guarda Nacional de Trump entrasse em Minneapolis foram o prefeito, Jacob Frey, e o governador Tim Walz, ambos Democratas. Um verdadeiro escândalo.

O Partido Democrata, enquanto organiza a repressão dos protestos em Minneapolis, trata assim de esconder a necessidade de punição de todos os responsáveis, acalmar as ruas, conter a explosão de ódio contra o racismo estatal estrutural nos Estados Unidos, e canalizar a ira social para as instituições desse mesmo Estado. Busca dessa forma preservar a estabilidade desse regime político que protege os crimes racistas de seu aparato repressivo. Assim fizeram nos últimos anos, mesmo depois do surgimento do Black Lives Matter, tratando de neutralizá-lo. Não é alternativa a Trump.

Uma política independente para enfrentar o racismo capitalista e conseguir justiça por Floyd

O assassinato de George Floyd acende novamente a chama da luta contra o racismo estatal, organizado de maneira exímia pelo regime bipartidário imperialista entre Republicanos e Democratas. É fundamental construir um massivo movimento nas ruas e nos locais de trabalho para golpear de maneira unificada contra a brutalidade do racismo estatal. Isso significa unificar o movimento por justiça a George Floyd com a luta dos trabalhadores na linha de frente da pandemia, que exigem direitos básicos de proteção sanitária. Implica também exigir dos sindicatos que liderem a luta contra a violência racista da polícia.

Esse esforço coordenado – a frente única dos trabalhadores, da juventude e das comunidades negras, dirigidas pelos sindicatos em greves e protestos nas ruas – poderia se tornar uma força imparável, como mostra a fúria de Minneapolis, atingindo o racismo do sistema capitalista onde mais dói, opondo uma força unificada contra o aparato repressivo do Estado.

A auto-organização pela base (unidade da luta entre brancos e negros, nativos e imigrantes) é fundamental, para que a própria população trabalhadora se enfrente com esse regime que protege os assassinos do Estado e impor que dessa vez não saiam impunes. Sem nenhuma confiança na odiosa instituição policial, guardiã da propriedade privada capitalista, cabe ao movimento operário, às organizações do movimento negro e ao conjunto da esquerda defender que todos os policiais envolvidos nos assassinatos de negras e negros sejam condenados e presos, tanto nos casos de George Floyd, Breonna Taylor e Sean Reed. É fundamental que se crie uma comissão de investigação e que esta seja independente, sem controle dos órgãos aliados dessa mesma polícia assassina. Devemos impor ao Departamento de Justiça que a evidência para o julgamento tem de emanar dessa investigação independente, e não da polícia e dos órgãos de inteligência que são abertamente inimigos das comunidades negras. A regularização das condições de todos os migrantes e o fechamento dos centros de detenção são urgentes, em meio à crise da COVID-19.

No marco dessa batalha comum, surge uma oportunidade especial de batalhar pela unificação das bandeiras absolutamente legítimas do povo negro com um programa de independência política da classe trabalhadora, que se dirija contra os capitalistas. Durante a pandemia, nos últimos meses, vimos focos de luta dos trabalhadores em todo o país, contra a precarização do trabalho e o sacrifício de suas vidas sem os insumos sanitários básicos para proteger suas vidas. Amazon, Whole Foods, Target, Walmart, Instacart, General Electric, e outras multinacionais viram-se sacudidas por protestos trabalhistas. Os trabalhadores da saúde também se mobilizaram contra a violência racista. Existe uma crescente sensação de que se está iniciando um novo período de luta operária, precipitado pelo catastrófico cenário causado pela pandemia e pelo desemprego.

Isso pode se transformar em uma abertura única para que os socialistas se organizem nos seus locais de trabalho, construam correntes militantes nos sindicatos, e, o que é o mais importante, politizem os trabalhadores que dirigem essas lutas. Os socialistas revolucionários devem, ao contrário do que pede o Partido Democrata, alentar essa raiva social e ajudar a transformá-la em ódio de classe, politicamente organizado.

Solidarizando-se com a dor de setores de massas, é preciso difundir uma ideia poderosa: que nossa sociedade está fraturada por interesses de classe, e que para enfrentar o racismo estatal é necessário construir um partido dos trabalhadores, socialista e revolucionário, que tome para si as bandeiras dos negros, dos latinos, das mulheres, dos homossexuais e do conjunto dos oprimidos. Um partido de trabalhadores independente, para lutar contra o sistema capitalista, e que não caia na sedução do “cemitério dos movimento sociais”, o Partido Democrata.

O desenvolvimento de uma política independente e com esse programa, nos Estados Unidos, poderia alentar respostas operárias no mundo inteiro. Ao mesmo tempo, o renascimento dos protestos nos EUA contra os crimes racistas da polícia poderiam dar um novo impulso aos movimentos de repúdio às violências e aos crimes policiais, muitas vezes agravados por motivações racistas, em outros países do mundo, como Brasil e França, que conheceram um incremento da repressão policial nos últimos tempos.

A crise coloca ataques sobre a classe trabalhadora e os setores populares em todo o planeta, o que vai revelando que cada conquista de condições e postos de trabalho ou salários, por sistemas universais de saúde de qualidade, contra a destruição do meio ambiente que suscitam as mudanças climáticas, e também pelos direitos da população negra, deverão ser arrancadas por meio da luta, em uma perspectiva anticapitalista e socialista.

Só vamos poder destruir o racismo destruindo também o capitalismo, que se alimenta da opressão ao povo negro (e as minorias raciais nos EUA, como em muitos outros países imperialistas) para enfraquecer nossa classe e nossos aliados. Por isso nossa organização precisa transcender as fronteiras nacionais, atingindo os grandes centros do capitalismo mundial com um programa internacionalista.

Nós da Fração Trotskista nos pronunciamos contundentemente em repúdio ao crime, nos solidarizamos ativamente com a luta da juventude e dos trabalhadores norte-americanos contra o racismo estatal, e colocamos a energia de nossa organização internacional, que edita a rede internacional La izquierda Diario (14 países, 8 idiomas), em primeiro lugar com os companheiros do Left Voice nos Estados Unidos, na campanha por justiça a George Floyd e a toda população negra assassinada pelo estado capitalista.




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