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Tribuna aberta | A educação, a Sociologia e a luta política educacional: reflexões

Publicamos na seção de tribuna aberta contribuição de professor da rede estadual de educação de Minas Gerais.

Ródinei Páscoa AmélioProfessor de Sociologia da SEE/MG

terça-feira 19 de outubro | Edição do dia

Este texto objetiva refletir acerca de alguns pontos que considerei equivocados na atuação política dentro do campo educacional, já comuns, que venho acompanhando juntamente com outros colegas de profissão e coloca-se a favor da ciência e da liberdade de cátedra. Para melhor apresentar os argumentos, dividi o texto em quatro partes, seguidas de um ANEXO e as referências. Então, inicio o texto com uma APRESENTAÇÃO PESSOAL onde tento localizar-me enquanto ator social no contexto de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Consecutivamente, na PRIMEIRA PARTE procurei apresentar os argumentos do Sind-UTE/MG contrários aos ataques que recebeu do atual governo. Na SEGUNDA PARTE apresento meus argumentos contrários aos do Sind-UTE/MG, não como defesa do atual governo estadual de Minas Gerais, jamais, mas, sim, em defesa da Sociologia como ciência autônoma. Por último, a TERCEIRA PARTE, procura sintetizar alguns pontos sob o título “lições aprendidas" neste debate.

1. APRESENTAÇÃO PESSOAL

Antes de iniciar a discussão deste texto, a exemplo da antropóloga indiana, feminista e marxista, Gayatri Spivak (1994), considero ser de extrema importância identificar-me, pois não falo de qualquer lugar, mas sim como: um homem; cisgênero; pardo; bissexual; periférico; sociólogo; professor de Sociologia; produtor cultural; músico; escritor; de esquerda; agnóstico e candomblecista; praticante de yoga; filiado ao PSOL-BH; aliado da luta feminista; diretor do Sindicato dos Sociólogos de Minas Gerais (SINDS-MG); comprometido com lutas diversas, políticas e sociais na cidade de Belo Horizonte – luta pela Educação Pública de Qualidade para todes; pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tal como foi consolidado na Constituição Federal Brasileira de 1988, especialmente, comprometido com a luta antimanicomial da Saúde Mental; pelos Direitos Humanos das pessoas LGBTIQAP+, especialmente, das bissexuais, negras, indígenas e periféricas; por respeito ao meio-ambiente; e, pelo direito à Cultura (ao delírio).

2. PRIMEIRA PARTE

A seguir, apresentarei uma interpretação de fatos que também pode ser vista como uma análise hermenêutica. Embora eu possa parecer polêmico ao longo do texto, minha intenção aqui não é o de criar animosidades entre nós, militantes de esquerda da educação. Por um lado, questionar a atuação política do Sind-UTE/MG, sim, e, esclarecer algumas situações equivocadas, além de tentar defender a Sociologia de falsas acusações. Por outro lado, espero sinceramente que este debate ajude a fortalecer a educação, movimentando as ideias, sem com isso, deixar de dizer a verdade. Então, vamos lá?

O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), através dos seus meios de comunicação, no dia 24 de agosto de 2021, informou que “veio a público responder a questão apresentada pela Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG) no Plano de Estudo Tutorado (PET) de Sociologia para estudantes do ensino médio, a qual demonstra uma explícita tentativa de desqualificar a importância do Sindicato e movimentos sociais para a educação pública”. Destaco aqui, neste trecho, apenas dois pontos que me pareceram relevantes: (1) o Sind-UTE compreendeu que, quem produziu o PET de Sociologia foi o atual governo, a Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, ou seja, uma instituição ideológica, total, genérica e abstrata. Provavelmente, o próprio governador juntamente com a sua secretária de educação. (2) Para o Sind-UTE, o texto do PET de Sociologia teve a “explícita tentativa de desqualificar a importância do Sindicato e movimentos sociais para a educação pública”.

Pois bem, vamos seguir o pronunciamento do Sind-UTE/MG:

“O questionamento ideológico feito pela SEE/MG aos estudantes, no Plano de Estudos Tutorados (PET), na página 190, foi o seguinte (citação do texto do PET de Sociologia): ’Aprendemos que os sindicatos e os movimentos sociais são organizações que reivindicam melhores condições de vida e de trabalho para a população. Ao mesmo tempo aprendemos que, como qualquer instituição social, são passíveis de críticas. As críticas não são como um exercício de difamação, mas como um exercício que contribui para a melhoria do grupo. Assim, vamos analisar um sindicato a partir da nossa realidade de Educação no estado de Minas Gerais: o Sind-UTE/MG. O Sind-UTE/MG é considerado o segundo maior sindicato brasileiro, pois ele representa todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores da educação no estado de Minas Gerais. Pesquise as ações do Sind-UTE/MG no contexto de pandemia da Covid 19. O que esse sindicato tem feito como ação para as trabalhadoras e os trabalhadores? Qual o impacto dessas ações para os estudantes? O que você faria como alternativa nesse momento?’”. (3) Como é possível ver acima, não há qualquer palavra pejorativa, de crítica ou ofensa contra o Sind-UTE/MG. Além do mais, o próprio texto didático propõe uma simples pesquisa sobre um dos importantes Sindicatos do estado de Minas Gerais apenas para melhor conhecer este tipo de organização da sociedade civil.

3. SEGUNDA PARTE

Com esta reação do Sind-UTE/MG, do dia 24/08/2021, professoras e professores de Sociologia de todo o estado de Minas Gerais demonstraram grande preocupação, perplexidade, confusão e estarrecimento através dos diversos grupos de whatsapp de profas e profs de Sociologia do estado, neste momento de pandemia de COVID-19. Os grupos ficaram intensamente movimentados, exclusivamente, devido a este assunto. O debate foi aquecido, nestes grupos que agora alcançaram alta importância diante do distanciamento social imposto pela pandemia da COVID-19. O corpo docente se dividiu entre defensorus dos argumentos do Sind-UTE/MG de um lado, e professorus que não viram problema no material didático, por outro.

Diante do ocorrido, um colega, Lucas, me perguntou, dentro de um desses grupos de whatsapp, como eu via a questão. (Vale esclarecer que no ano de 2020 participei da escrita coletiva dos PETs de Sociologia juntamente com Lucas entre outras/os colegas). A seguir, apresentarei o texto que escrevi e repliquei dentro destes grupos de whatsapp:

“Basicamente,

Não vi problemas no texto [didático do PET 3 de Sociologia de 2021].

E, penso forte, que as pessoas que participaram e que ainda participam da escrita dos PETs de Sociologia tem importância ímpar na desmistificação dos materiais porque são elaborados não pelo governo [como julga o Sind-UTE/MG], mas, sim, por professores da [própria] rede.

Quando criticamos os PETs de Sociologia (e, eu me incluo nisso), às vezes, deixamos de ser Socióloges para nos tornar [aquela imagem negativa de] "militantes-ortodoxos-e-radicais" [no pior sentido da palavra, sinônima de pessoas de mentes fechadas, limitadas, tacanhas e obsoletas] e/ou ideólogos/as simplistas, apaixonados/as.

[Por um lado, concordo que,] o contexto político e educacional não deve ser analisado como se fossem uma partida de futebol. Ou, como [se fôssemos] juízes desse jogo. As coisas não são bem assim. Claro que eu tbm não acredito em ciência neutra, nem em papai Noel, mas acredito nas pessoas que elaboram os PETs porque eu as conheço. Porque trabalhamos juntas em algum momento e conheço o comprometimento destes autores com a educação e com a Sociologia além de ter provado os desafios de escrever os PETs até chegar ao resultado final, o PET pronto [para todes es estudantes secundaristas da rede pública de ensino de todo o estado de Minas Gerais].

Uma outra coisa que eu sempre falo também é que não há problema algum criticar o material didático. Aquilo não é uma doutrina. Não é a bíblia. Ninguém vai pro inferno se discordar dos textos. E, é até enriquecedor sustentar uma visão diferente do material em mãos e conversar abertamente sobre o conteúdo proposto [com estudantes e professorus]. Seus pontos fortes e fracos, etc...

Basicamente isso. Outro grande problema: muita gente não conhece a estrutura da Secretaria Estadual de Educação, né? Como ela funciona. Isso também é bem problemático, viu? [Hoje em dia existem setores, instâncias e uma hierarquia às vezes rígida demais, às vezes interdependente que envolve aos PETs de Sociologia, certa complexidade]. Existe [ainda] a organização interna da Secretaria de Estado da Educação de MG: (1) uma burocracia; (2) os demais Conteúdos Curriculares; (3) o Regime Especial de Atividades não Presenciais (REANP) com o Se liga na Educação, PETs e Site Conexão Escola que são coordenados dentro da Escola de Formação da SEE-MG, um setor exclusivo da SEE-MG; (4) professorus voluntários que produzem os materiais didáticos (eu mesmo já fiz parte desta equipe de redatorus); (5) professorus voluntáries que apresentam as aulas no programa de TV da Rede Minas; (6) o setor jurídico (e ideológico) dentro da SEE-MG; dentre outros.

Portanto, dizer que O GOVERNO escreveu o PET de Sociologia é ilógico. Uma dedução rápida demais para corroborar uma visão simplista e viciada sobre a realidade social e política da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Uma operação que dispensa o “notório saber”, muito genérica, homogeneizadora, pasteurizadora, inespecífica, que atesta desconhecimento de como a SEE-MG realmente funciona na prática a fim de identificar o problema; desrespeita funcionários públicos de carreira que se dedicam à burocracia do estado, inclusive profissionais aliadas na luta da educação de qualidade; prejudica a equipe de redatorus dos PETs de Sociologia; além de difamar a Sociologia como uma disciplina curricular alienadora quando, na verdade, os seus objetivos educacionais são, de fato, opostos a tudo isso.

Há muita coisa para falar ainda, mas é muita mesmo.

Só mais uma coisa que acho muitíssimo importante. Quem me conhece já sabe. Sempre falo que o Sind-UTE tem importância fundamental na educação de Minas, sem dúvida alguma. Sempre falo também que não concordo com o estilo de fazer política do Sind-UTE. Porque suas pautas são muito gerais. As especificidades da Sociologia mesmo o UTE nunca quis ouvir. [Fato que culminou, por exemplo, no Seminário de Sociologia & Educação promovido pelo Sindicato dos Sociólogos de Minas Gerais (SINDS-MG) em novembro de 2019. Penso que é importante destacar que eu mesmo fui o principal organizador deste evento juntamente com Zaine do SINDS-MG, professoras das universidades UFJF, PUC-Minas, UFMG; ABECS-Minas; Sind-Rede (que nos cedeu o espaço); Sind-UTE Subsede Centro-sul de BH, na pessoa de Maria Cecília; e, SINPRO Minas].

Porém, o texto didático do PET 3 de Sociologia de 2021 não tem menor caráter de difamar o Sind-UTE. Na própria postagem do Instagram do Sind-UTE já é possível ver isso.”

Preciso deixar explicitamente nítido que sem dúvida alguma, defendo o valioso legado do pensamento de Karl Marx, profundo demais. Talvez, a mente mais brilhante de todo o século XIX. Um autor e militante que extrapolou áreas do saber, foi além, reconhecidamente economista, historiador, filósofo, sociólogo e muito mais.

Preciso ressaltar, para esclarecimento, que pessoalmente, muitas vezes em que posiciono-me, sou visto como um sujeito radical porque entendo, auxiliado pela etimologia da palavra radical, oriunda de outra latina, radíx, que, ser radical significa alcançar ou buscar alcançar a origem das coisas. Isto é, ir à raiz. Dessa forma, acredito que sou bastante radical mesmo.

Não decorre desta radicalidade a problemática acima que fiz da esquerda interpretada como esquerda-radical-ortodoxa, mas, sim, a sua imagem negativa projetada de fora para dentro, às vezes sustentada internamente. E, sei que ela incomoda-nos, militantes e intelectuais de esquerda. O que realmente preocupa-me é, de fato, análogo à análise do antropólogo palestino Edward Said (1990), tornarmo-nos exatamente a imagem daquilo que um dia jurávamos combater: visões errôneas, superficialidade, além de certo exotismo comportamental projetado de fora para dentro das esquerdas significando pessoas incapazes, superficiais; e, ortodoxas devido ao aprisionamento de certo automatismo decorrente de um conjunto de práticas, condutas e pensares (rígidos, fechados em si mesmos), o que atesta, geralmente, saturação, dificuldade de reinvenção, de contextualização e de recolocar questões clássicas mediante exemplos históricos concretos.

4. TERCEIRA PARTE

Lições apreendidas:

(1) Sustento que a luta política contra um governo incompetente não se faz somente com acusações ideológicas, gerais, totais, genéricas e abstratas. Peço licença às minhas companheiras e companheiros de luta da educação para abrir para vocês uma crítica polêmica que pode até mesmo me prejudicar, mas, que penso ser extremamente relevante. Quando o Sind-UTE/MG faz um pronunciamento contra o governo neoliberal do governador Romeu Zema pode parecer heróico, combativo, mas, também é, ao mesmo tempo, inespecífico. Desculpe-me, mais uma vez, pessoa que me lê. Não quero ser indelicado, mas ao mesmo tempo, preciso ser bem sincero. Respeito o Sind-UTE demais. Estamos juntes na luta, podem acreditar. Mesmo assim, eu, Ródinei, não gosto do estilo genérico de luta política-ideológica do Sind-UTE “contra o governo neoliberal”.

(2) Criticar os materiais didáticos dos PETs de Sociologia de 2021 disponibilizados pela SEE-MG é extremamente importante, necessário e preciso. Eles não são uma doutrina. Não é a bíblia. Ninguém vai para o inferno se discordar dos textos. E, é até enriquecedor sustentar uma visão diferente do material em mãos, e conversar abertamente sobre o seu conteúdo com estudantes além de envolver outras/os professoras/es. Situar seus pontos fortes e fracos, etc... Porém, penso que para criticar um material didático de Sociologia é preciso mais do que ser "militantes apaixonadas/os/es”. Acredito que eu e meus colegas de trabalho, professoras e professores de Sociologia, que escreveram ou que ainda escrevem os PETs de Sociologia, desde o ano de 2020 temos a importância fundamental de desmistificar os materiais didáticos propostos naquele papel timbrado da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, intitulados PETs de Sociologia.

(3) Insisto que a vida não é como um jogo de futebol. Não é a luta do Diabo contra Deus. Ninguém vai para o inferno se discordar dos textos. O material didático não deve ser visto como uma doutrina rígida ou como uma camisa de força. O contexto político e educacional precisa ser analisado com uma visão mais ampla, pormenorizada, concreta e específica.

(4) Penso que para uma crítica política contundente de esquerda e consequente precisamos ir além. O que parece-me ser uma postura incômoda, desconfortável porque necessita de sair do “lugar comum”, dos jargões, dos chavões, dos juízos de valor e da pressa na análise. Defendo, ao contrário dos pragmatismos institucionais já sedimentados, uma postura constantemente criativa, conhecimento real e específico de causa e coragem.

5. ANEXO

***

Referências:
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Sind-UTE/MG – Editorial – Sind-UTE/MG responde a questão do PET da Secretaria de Estado de Educação, que tenta desqualificar a importância do Sindicato e movimentos sociais para a educação pública, acessado no dia 22/09/2021 às 11 horas.

SPIVAK, Gayatri. Quem reivindica a alteridade? In, BUARQUE DE HOLLANDA, Heloisa (Org). Tendências e impasses: o feminismo como uma crítica da cultura. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1994. pp 187-205.




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