ESPECIAL LEON TROTSKI

Trotski e a educação: nossa herança histórica e a “velha” cultura burguesa

Sabemos que Leon Trotski (1879-1940) não foi um teórico da educação nem muito menos da escola. Entretanto, algumas formulações desse grande revolucionário russo podem ajudar a iluminar a questão de como pensar a educação vinculada à tomada do poder pela classe trabalhadora e à construção do socialismo. Nesse pequeno texto exploraremos a posição que Trotski defendeu em relação à cultura burguesa e sua apropriação pela classe trabalhadora na construção da nova sociedade.

Mauro Sala

Campinas

quinta-feira 20 de agosto de 2015| Edição do dia

Em 1922, numa palestra intitulada “As tarefas da educação comunista”, Trotski combatia a ideia de que a educação comunista consistiria “na educação do novo homem”. Para o revolucionário russo, “essas palavras são demasiadamente genéricas, demasiadamente patéticas” e diz que devemos ser “particularmente cuidadosos para não permitirmos qualquer interpretação humanitária amorfa da noção de “novo homem” ou das tarefas da educação comunista”. Trotski buscava romper com a visão utópica de que “o homem novo deve primeiro ser formado e que depois, então, ele criará as novas condições [de vida]”; para ele, “nossa tarefa presente, infelizmente, não pode repousar na educação do ser humano do futuro”, pois se trata “não de criarmos abstratamente os cidadãos harmoniosos e perfeitos da comuna, mas [de] formarmos os homens concretos de nossa época, que ainda têm de lutar pela criação das condições a partir das quais esse harmonioso cidadão da comuna possa emergir”.

Para Trotski, ainda estaríamos “longe de termos que educar o harmonioso cidadão da comuna, formando-o por um minucioso trabalho de laboratório, em um estágio transitório extremamente desarmonioso da sociedade. Esta empreitada seria uma Utopia miseravelmente infantil. O que queremos fazer são campeões [champions], revolucionários, que herdarão e completarão nossas tradições históricas, que ainda não conduzimos a um desfecho”.

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No seu livro Literatura e Revolução (1924), Trotski faz uma interessante discussão sobre a cultura e a arte no momento da transição socialista. Para ele, esse momento ainda não representa a época de uma nova cultura, mas no máximo o seu limiar. E para abrir caminho para a construção dessa nova cultura, devemos, em primeiro lugar, “nos apossar oficialmente dos elementos mais importantes da velha cultura”.

Ao proletariado, como classe não possuidora, também foi restringido a possibilidade de se iniciar nos elementos da cultura burguesa, que foi – como diz Trotski - “integrada para sempre no patrimônio da humanidade”. O proletariado precisa derrubar a sociedade burguesa pela violência revolucionária também porque essa sociedade lhe barra o acesso à cultura. Assim, o proletariado chega ao poder com a “necessidade aguda de conquistar a cultura – indústrias, escolas, editoras, imprensa, teatro etc. - e abrir seu próprio caminho”. E para isso ele deve transformar o aparelho do Estado sob seu domínio “numa poderosa bomba para satisfazer a sede cultural das massas”.

Assim, Trotski coloca o domínio da cultura realmente existente pelo conjunto da classe trabalhadora como uma “tarefa de imensa importância histórica” da revolução.

Assim como não podemos “educar o ser humano do futuro”, também não podemos ensinar – socializar por assim dizer – nenhum conhecimento que não o já existente. Esperar a criação de uma “cultura proletária”, livre das alienações da cultura burguesa, para que pudéssemos, então, ensiná-la às novas gerações seria também incorrer em idealismo. Assim como temos que formar “os homens concretos de nossa época”, só o podemos fazer a partir da cultura concreta de nossa época, que, para todos os efeitos é aquela formada e constituída sob o domínio da burguesia.

Embora o proletariado deva, durante o período de seu domínio como classe, marcar a cultura com o seu selo, há uma grande distância de se conceber isso como um “cultura proletária” - como um sistema coerente de conhecimento e informação em todos os domínios da criação material e espiritual. Para o ele a tarefa consiste em socializar a cultura existente: “Só o fato de pela primeira vez na história, dezenas de milhões saberão ler, escrever e fazer as quatro operações constituirá um acontecimento cultural da mais alta importância".

Para Trotski, essa socialização da cultura existente é já o germe de uma nova cultura que não será mais patrimônio apenas das minorias privilegiadas, mas que se tornará “uma cultura de massa universal e popular”. Haverá então um movimento em que a quantidade se transformará em qualidade: “o crescimento do caráter de massa da cultura elevará o seu nível e modificará os seus aspectos”. E isso é fundamental para o proletariado e para a construção do socialismo, que só pode constituir sua economia, sua política e sua cultura com base na iniciativa criadora das massas.

Não se trata de nenhuma forma de ingenuidade quanto à cultura burguesa em geral e mesmo quanto à ciência burguesa em particular. Trotski sabe muito bem que a própria ciência reflete mais ou menos as tendências das classes dominantes. Mas, diz o líder bolchevique, “seria ingênuo pensar, todavia, que o proletariado, antes de aplicar à edificação socialista à ciência herdada da burguesia, deve submetê-la inteiramente a uma revisão crítica”.

O que se coloca é que não se pode adiar as tarefas de construção do socialismo até que os novos sábios verifiquem todos os instrumentos e todas as formas de conhecimento. O proletariado, rejeitando o que é inútil, falso e reacionário, terá que utilizar, nos diversos domínios de sua obra, os métodos e resultados da ciência atual, “tomando-os necessariamente com a percentagem de elementos de classe e reacionários que contêm”. Para Trotski é apenas na prática do poder operário, e nas tarefas concretas da construção da nova sociedade submetida ao controle dos objetivos socialistas, que se realizará “aos poucos a verificação e seleção de métodos e conclusões da teoria”.

No domínio da arte se dá o mesmo. Para Trotski seria um erro achar que os operários não necessitam dominar as técnicas da arte burguesa. Trotski combate a visão populista de que basta uma obra ser feita no seio da classe trabalhadora para ela ter valor artístico para a classe. Isso é falso. “A arte malfeita não é arte e, em consequência, os trabalhadores não precisam dela”. Assim, ele combate a visão dos demagogos populistas como uma simplificação pseudoproletária. A arte destinada à classe trabalhadora não pode ser de baixa qualidade. É preciso que os artistas também dominem as técnicas da arte burguesa para que possam desenvolvê-la num sentido próprio.

E aqui também não há ingenuidade. “É preciso aprender, embora esses estudos – que necessariamente se fazem no inimigo – comportem certo perigo”. Nesse domínio, segue Trotski, a importância das organizações culturais do proletariado não se mede pela rapidez que se cria uma nova arte, mas pelo que contribuem para a elevação do nível artístico da classe trabalhadora. A atividade cultural do proletariado deve ser a luta encarniçada para elevar o nível cultural das massas trabalhadoras.

Assim, Trotski diz que “a tarefa principal da intelligentsia proletária para o futuro imediato não está, entretanto, na abstração de uma nova cultura – cuja base ainda falta -, e sim no trabalho cultural mais concreto: ajudar de forma sistemática, planificada e crítica as massas atrasadas a assimilar os elementos da cultura já existente”.




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