Gênero e sexualidade

TRANSFEMINICÍDIO

Rosinha do Beco: um assassinato que retrata a negação da velhice a população trans

Na última sexta-feira (31), um crime escandaloso chocou a comunidade LGBT, mas não estampou os jornais. Uma tragédia que denuncia toda a miséria da nossa sociedade patriarcal, transfóbica e capitalista: o assassinado a pauladas, seguido de incêndio, de uma mulher trans idosa na Chapada da Diamantina (BA) revelaram a negação da velhice a população trans.

Virgínia Guitzel

Travesti, trabalhadora da saúde pública e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas

terça-feira 4 de junho| Edição do dia

Nem mesmo tendo superado os ínfimos 35 anos que correspondem a perspectiva de vida da população trans, Rosinha pode escapar do mesmo destino de muitas mulheres trans brasileiras: o do transfeminicídio. Legitimado pela bancada evangélica e Bolsonaro com seu discurso de ódio reverberado por seus filhos, deputados e seguidores.

O assassinato de uma pessoa por sua identidade de gênero não cisgênera é o último elo de uma longa cadeia de violências que se iniciam desde o nosso nascimento a negação da nossa auto-determinação, passam por violências nas instituições de ensino, a exclusão do mercado de trabalho formal, impõem-se muitas vezes pela prostituição compulsória e são marcadas por violências físicas e psicológicas. Todas estas violências são sustentadas por diferentes instituições, algumas seculares como a igreja católica, a família, outras dignas da democracia burguesa como o Congresso Nacional - que até 2019 ignora a existência de LGBTfobia - as instituições de ensino - que reforçam a hétero e cisnormatividade - a policia - que desde se demonstrou inimiga de qualquer liberdade sexual desde a primeira grande rebelião conhecido por StoneWall.

Encontrada com o corpo carbonizado dentro da sua própria casa, como tentativa de ocultar o assassinado executado, mas duas câmeras instaladas na região flagraram, às 5h47, o momento em que um adolescente caminha próximo à casa da vítima. Para a polícia, não resta dúvida da participação dele no assassinato, e os investigadores descartam a possibilidade de que outras pessoas tenham ajudado no homicídio.

“Ele estava vestindo um capuz e olhando toda hora para trás, bastante nervoso. Não temos dúvida de que foi ele. Encontramos um porrete na casa, na verdade, parece mais um cabo de machado, sujo de sangue que acreditamos ser a arma do crime. Ele foi mandado para a perícia”, contou o delegado.

“A população está chocada com a crueldade e também porque Rosinha era muito conhecida e querida na região toda. Já não sofria o estigma e o preconceito por ser travesti, sendo vista mais como uma mulher idosa, bem humorada, brincalhona e trabalhadora. Sua morte num local onde não é comum acontecer crimes desse tipo, onde normalmente não se ouve falar de crimes lgbtfóbicos, para além da ‘questão pontual’ pode ser lida como um reflexo da cultura de preconceito que ganha força no Brasil”, diz a Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (Renosp LGBTI+).

Nós do Esquerda Diário e do MRT nos solidarizamos com Rosinha e todos e todas LGBT que sofrem com esta perda e sentem-se como parte desta violência. Enquanto seguem crescendo os transfeminicidios em nosso país, sob um discurso violente e repugnante do Presidente da República e de pastores comprometidos apenas com as reformas que buscam atacar o conjunto da classe trabalhadora e os setores mais oprimidos, precisamos organizar conscientemente nossa luta. Senão lutamos juntos a classe trabalhadora contra todo o reacionarismo e obscurantismo que representam o governo nesta fase decadente de crise capitalista, vão seguir nos assassinando, roubando nossas identidades e deixando milhares de nós em extrema condição de miséria. É pela perspectiva de uma ruptura com o capitalismo, através de uma verdadeira revolução que resgate a combatividade de StoneWall nestes seus 50 anos, que nós apostamos nossas fichas em mobilizações independentes que questionem estruturalmente o patriarcado, a transfobia e o capitalismo: a tríade que sustenta nossos corações arrancados e substituídos por santas.




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