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ESQUERDA E LUTA DE CLASSES | Qual esquerda queremos construir?

Reflexões a partir da luta da MABE e a resposta da esquerda frente a crise no Brasil

Danilo ParisProfessor de sociologia

quarta-feira 24 de fevereiro de 2016 | 13:23

Ontem a grande imprensa não conseguiu esconder o que havia acontecido na rodovia Santos Dumont, uma das principais de Campinas, que da acesso ao aeroporto Viracopos. Quebrando a rotina, mais de 100 estudantes, professores e trabalhadores fizeram um bloqueio da rodovia desde as 7:00 da manhã, durante 1:30, com uma faixa de 5 metros que dizia "Nenhuma família na rua e todo apoio à ocupação dos operários da MABE". A ação foi muito bem sucedida, não somente pela enorme repercussão na imprensa, o que contribui para que a luta não caia no isolamento, mas também pelo papel de fortalecer concretamente a luta neste momento.

Desde que a fábrica foi ocupada pelos operários, e já durante o acampamento que ocorria antes da ocupação, nós do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, junto com a Juventude Às Ruas e a partir de todas as entidades estudantis e sindicatos que compomos, buscamos girar todas nossas forças pra construir a mais ampla campanha de solidariedade. A resistência e disposição da luta dos trabalhadores da MABE é uma fonte de inspiração para generalizarmos em cada demissão, falência ou retirada de direitos dos trabalhadores. Nossa avaliação é que frente ao cenário de crise econômica e crise política é fundamental construir um movimento nacional contra os ajustes e as demissões que também avance para dar respostas para os grandes problemas políticos do país.

Frente a esse cenário, nós acreditamos que as organizações e sindicatos da esquerda não podem mais deixar de se articular para dar uma resposta firme ao ajuste em curso. É por isso que desde agosto do ano passado insistimos em todas as reuniões da CSP-Conlutas e da ANEL na necessidade de construir uma forte campanha contra as demissões na General Motors de São José dos Campos, proposta que foi ignorada pela direção do PSTU. A ocupação da MABE neste momento mostra a disposição de luta dos operários e se conseguimos colocar todas as forças para que esta batalha triunfe ela pode se converter em um exemplo nacional para os operários do país inteiro que estão sendo demitidos. A vitória não está garantida, mas travar uma importante luta é dar um sinal para os empresários de que a crise não será descarregada sobre nossas costas.

A partir dos centros acadêmicos que compomos, como o CAELL do curso de Letras da USP, o CAPPF do curso de Pedagogia da USP e uma ala do CACH das Ciências Humanas da Unicamp soltamos um chamado em meio às calouradas para todas as entidades estudantis e as correntes de juventude, porém não obtivemos nenhuma resposta. Nosso chamado era para construir esta ação desta terça-feira, em que bloqueamos a rodovia. Também na reunião da Coordenação Nacional da CSP-Conlutas, nossos diretores do Sindicato de Trabalhadores da USP apresentaram esta ideia, mas a proposta foi combatida e negada pelos dirigentes do PSTU.

É um fato concreto: nós estamos batalhando para construir uma esquerda totalmente distinta do "script", aquela esquerda de calendários e onde "tudo é muito difícil de fazer da noite pro dia". A ocupação está acontecendo agora, a luta está acontecendo agora, não há o que esperar. Os trabalhadores estão sem seus salários desde dezembro, e cada dia perdido é precioso para os rumos e resultados do conflito. Nós nos espelhamos, por exemplo, na luta dos operários da multinacional LEAR da Argentina, que sofreu dezenas de demissões e lutaram por mais de 9 meses, foram 29 bloqueios de avenidas e dezenas de cortes de rua, ações jurídicas, uma juventude incansável acordando de madrugada todos os dias, uma busca incessante por apoio popular, estes eram os indomáveis da LEAR, e o partido que estava ali todos os dias era o PTS, organização irmã do MRT na Argentina.

Tanto aqui como lá nosso objetivo é contribuir para o avanço das lutas operárias, pra que triunfem nas suas reivindicações mais imediatas e possam em meio a luta avançar pra defender um programa mais de fundo pra situação de crise e demissões no país, como por exemplo exigir a estatização imediata de todas as fábricas que demitem e que sejam controladas pelos trabalhadores. Nosso objetivo é ser uma esquerda que não se limita as discursos nos carros de som ou em reuniões estéreis, mas de corpo na luta, não à toa nossos deputados federais na Argentina vão nos piquetes e tomam tiro com balas de borrachas, muito distinto dos parlamentares do PSOL por exemplo, que nunca vemos quando a realidade mais exige.

Nosso objetivo com tudo isso é construir portanto uma esquerda de combate, pra luta de classes. Estamos debatendo com a Juventude Às Ruas e centenas de novos companheiros das escolas e universidade construir uma nova juventude que responda ao enorme processo que se abriu a partir das jornadas de junho de 2013 e mudou o país, que voltou a se expressar com os secundaristas, e que tende a se aprofundar no próximo período antecipando também novos processos operários. Uma juventude que "faça como os secundaristas" só que agora a nível nacional pra enfrentar os ajustes e todos os problemas políticos do país, se aliando à classe operária, como buscamos fazer agora com os operários da MABE.

Ainda mais que uma juventude que se funda e contribua com enorme disposição para que cada luta operária vença, a nova juventude que buscamos é rebelde contra todas as verdades baratas, que são frutos de um regime e sistema capitalista que já não vai mais, já não ilude mais e está apodrecido com seus governos e governantes conservadores, com seus Bolsonaros, Cunhas, Kátias Abreu que existem em função dos próprios privilégios e para uma democracia dos ricos. Uma juventude para a transformação do mundo de exploração, das misérias e das barbáries sociais, onde impera o 1% rico enquanto a produção do conhecimento, a arte, a cultura, a sexualidade e a identidade são castradas. Queremos dançar, gritar, registrar nos muros que a mudança é o nosso sentido de existência, mudar a vida e com centenas e centenas de jovens fazer história, construindo uma fração revolucionária que desafie a miséria do possível.

Por tudo isso colocamos de pé o Esquerda Diário, que completa no próximo mês 1 ano de existência, o principal portal da esquerda anti-governista, com dezenas de notícias, análises, opiniões sobre a política nacional e internacional diariamente, dedicando esforços para divulgar as lutas operárias e contribuir para sua vitória, inclusive estudando a situação financeira das empresas e outros estudos para ajudar os operários, como fizemos sobre a GM e agora com a MABE. Esta ferramenta, que também tem sua versão impressa, busca chegar a centenas de milhares em todo o país pra amplificar a voz dos setores de trabalhadores e jovens que resistem e querem buscar uma alternativa independente do PT e do PSDB.

Como viemos fazendo na MABE, colocamos todas nossas energias para que a luta dos trabalhadores e juventude triunfem. Junto a isso, construir uma organização revolucionária no calor das lutas, rompendo o "script" da esquerda tradicional, o burocratismo e a falta de decisão e vontade de combater e lutar, esse é nosso objetivo. Uma esquerda que é "arco-íris" como os seguidores de Bolsonaro nos chamaram, pela alta composição de jovens LGBT em nossa juventude e por nosso decidido combate a todas opressões. Uma organização revolucionária que combate todas as alternativas e saídas de direita que surgiram nos últimos tempos, mas que também enfrenta o governo Dilma e o PT que cada vez mais aprofundam o plano de ajustes contra os trabalhadores, a juventude, as mulheres e os negros. Queremos construir uma esquerda que contribua para que os trabalhadores se constituam como um sujeito político, e que construa as condições para passar da defensiva à ofensiva na luta contra os ajustes e para questionar profundamente essa democracia dos ricos desde uma perspectiva revolucionária.

Este é o Movimento Revolucionário de Trabalhadores e as agrupações que impulsionamos com independentes como a Juventude Às Ruas, o Movimento Nossa Classe e o grupo de mulheres Pão e Rosas.




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