Sociedade

AVANÕ AUTORITÁRIO

Professores e estudantes da UECE são intimados a depôr na PF com acusação de antifascismo

Quatro professores e cinco estudantes do curso de filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE) foram intimados a fazer depoimentos na Polícia Federal (PF) por organizarem atividades sobre antifascismo, em 2018.

quinta-feira 10 de junho| Edição do dia

(Foto: Divulgação/UECE)

As intimações foram entregues na quarta (09/06) e quinta (10/06) e os depoimentos deverão ocorrer na semana que vem na delegacia da PF de Fortaleza.

A absurda acusação se refere a palestras e aulas públicas antifascistas realizadas em 2018, e foi feita por alunos e ex-alunos bolsonaristas da universidade, que alegam que seriam perseguidos por votar em Bolsonaro e por serem cristãos, em um momento onde os opositores de Bolsonaro estão sendo perseguidos constantemente através de indiciamentos da PF e através da LSN, e onde igrejas evangélicas que apoiam o presidente perseguem religiões de matriz africana. A acusação diz que os intimados seriam uma "polícia ideológica antifascista".

Se configura assim mais um caso que faz parte do avanço autoritário do governo Bolsonaro, que recentemente perseguiu diversas figuras de oposição como Guilherme Boulos e até mesmo Felipe Neto, entre outros. É fundamental a luta contra o autoritarismo, e pelo fim das investigações, indiciamentos e perseguições aos opositores de Bolsonaro.

Está reproduzida abaixo a íntegra da nota divulgada pelos professores que receberam a intimação:

"Professores e estudantes da UECE receberam ontem (09/06/2021) e hoje (10/06/2021) intimações para comparecimento à delegacia da polícia federal em Fortaleza entre os dias 14 e 17 do corrente. Perguntando aos agentes que entregaram as intimações quais as razões do inquérito, todos obtiveram como resposta verbal que ele se referia à investigação de atos antifascistas na UECE durante as eleições de 2018.

Os advogados dos professores e alunos receberam, na tarde de hoje, os autos. A acusação, feita aos docentes e discentes por ex-alunos do curso, é a de integrarem uma “Organização antifa” que faria ações de “polícia ideológica antifascista” que supostamente teria o intuito de perseguir, através de aulas e palestras, os simpatizantes de Bolsonaro e cristãos do curso de Filosofia.

Na verdade, se trata, como temos tristemente nos habituado a ver, de inversão completa, aos moldes do “escola sem partido”, da situação de fato experimentada no colegiado de Filosofia da UECE, caracterizada historicamente pelo pluralismo de visões que estruturam a atividade acadêmica, pois ato de polícia ideológica é precisamente o que realizam os denunciantes ao atentar à liberdade de cátedra, de pensamento, de expressão e mais radicalmente, ao caluniar (acusando-os de perseguição) professores que em seus currículos têm compromissos claros e precisos com o antifascismo como indissociável da liberdade de pensamento, liberdade que orienta a própria noção de Universidade.

Consideramos particularmente grave que tais denúncias, já apresentadas em 2018 e na ocasião declinadas pelos MP estadual e federal quanto à competência, retornem agora, num contexto em que claramente se apresentam como intimidação e tentativa de silenciamento aos professores e estudantes antifascistas da UECE bem como a todos os antifascistas deste país.

É absurdo que tenham que prestar esclarecimentos nas dependências da polícia federal sobre aulas públicas e palestras sobre antifascismo e democracia. O silêncio e a conivência com esse ataque serão cúmplices da destruição completa dos espaços de pluralidade essenciais às atividades de ensino, pesquisa e extensão em particular e à convivência plural na vida social, em geral. O contexto de ataques os mais vários às universidades, do estrangulamento dos financiamentos à difamação generalizada sobre as universidades como “ambientes de balbúrdia” exige de todxs nós uma posição clara, que diga alto e bom som que as Universidades brasileiras e todxs xs antifascistas não nos calaremos!"




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