Sociedade

JOGOS INDÍGENAS

Os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas: Contradições e Demandas

Os Jogos expressaram duas situações: a primeira, a de que o movimento indígena está mais vivo do que nunca, e dá passos importantes, e a segunda, a de que o Brasil necessita avançar muito no que se refere à valorização e reconhecimento da matriz indígena em sua própria história.

terça-feira 3 de novembro de 2015| Edição do dia

Os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI), encerrado no último sábado, 31/10/2015, sediados na cidade de Palmas, Tocantins, expressaram duas situações: a primeira, a de que o movimento indígena está mais vivo do que nunca, e dá passos importantes, e a segunda, a de que o Brasil necessita avançar muito no que se refere à valorização e reconhecimento da matriz indígena em sua própria história.

Durante os nove dias de jogos foram recebidos etnias de 24 países do mundo, o que seria fantástico se questões relacionadas à organização do evento não tivessem feito com que muitas etnias brasileiras optassem por não participar do mesmo.

Em um momento crucial para todos os povos indígenas brasileiros, com a votação da PEC 215, a realização dos jogos mundiais serviu para dividir etnias e expressou as contradições de um país que quer vender uma imagem de respeito à diversidade e sustentabilidade que não existe – o que alguns setores denunciaram durante os jogos, ainda que sem o aval das lideranças indígenas Carlos e Marcos Terena, responsáveis pela organização do evento.

A realização dos jogos mundiais na mesma data de votação da PEC 215, que pretende alterar os procedimentos para demarcação das terras indígenas e quilombolas, deixando-as a cargo do Congresso Nacional, foi a demonstração de que os representantes do governo brasileiro tem como objetivo acabar com o movimento indígena para construir um país desenvolvido para latifundiários e patrões às custas de sangue indígena, prolongamento de antigas práticas coloniais, ainda utilizadas.

Em linhas gerais, a PEC 215 ataca diretamente a população indígena e quilombola porque dificulta, se não inviabiliza a demarcação de novas terras, além de indenizar grandes proprietários por terras compradas em áreas demarcadas.

Durante todo o evento, indígenas e não indígenas se pronunciaram contra a PEC 215 nos fóruns de discussão, em manifestações na Avenida Teotônio Segurado e na Arena dos Jogos, assim como nas apresentações culturais, pinturas corporais e outras instâncias. Membros de delegações estrangeiras também questionaram a realização de um evento que pretende celebrar as culturas de povos nativos num momento em que o governo ataca diretamente as populações indígenas brasileiras, o que foi cobrado da presidente Dilma Roussef no evento de abertura, por uma liderança xavante.

Entretanto, esta aparente contradição pode ser melhor compreendida se analisarmos as origens dos financiamentos e patrocínios que possibilitaram a realização desse mundial. De acordo com a própria organização do evento, aproximadamente R$35 milhões foram recebidos por parte de empresas privadas como a Odebrecht, OI, Energisa e EHL. Houve um investimento de cerca de R$4milhões da prefeitura de Palmas, e R$56 milhões do Ministério do Esporte e PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). É importante lembrar também que parte fundamental da organização dos jogos teve sua origem em parlamentares que sempre adotaram posturas claramente anti-indigenistas, como a Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu (PMDB), suporte da bancada ruralista do congresso.

Todo esse investimento se reverteu num evento indígena de estrutura totalmente antiecológica e sem o menor respeito às tradições indígenas do Brasil. Como exemplo podem ser citadas as Feiras da Agricultura e de Artesanato, que eram espaços que mais pareciam contêineres , com uso irrestrito de ar-condicionado, onde muitas pessoas ficaram doentes devido às constantes oscilações de temperatura com o meio externo. Se o evento tivesse contado com a experiência das etnias ali presentes certamente teriam sido feitas construções mais sustentáveis com produtos de origem natural, e capazes de manter os locais frescos sem causar danos à saúde de ninguém. No entanto, infelizmente não era esse o objetivo da organização.

Na alimentação oferecida na área em que ocorreram os jogos tampouco houve uma preocupação em ofertar comidas regionais ou mais nutritivas a um preço popular; pelo contrário: lanches repletos de gordura saturada, açúcar e sal eram a maior parte das opções de alimentação a preços altos.

Ainda assim, e apesar de todos os questionamentos, esses jogos serviram, em muito, para possibilitar trocas culturais de dimensões nunca antes vistas entre os povos nativos. Em contrapartida aos jogos tradicionais ocidentais, como as olimpíadas, onde imperam a competição e o individualismo, a população indígena demonstrou nesses dias que o esporte também é um meio de estabelecer convivência, aprendizado e solidariedade. Pela primeira vez o mundo assistiu a demonstrações esportivas tradicionais que sequer contavam com a presença de um juiz, por exemplo.

Para a população mundial, de modo geral, o que se presenciou em todos os dias de jogos foram pessoas encantadas com a diversidade e a riqueza mantida entre diferentes povos nativos. Para os brasileiros não indígenas, entrar em contato com muitas das etnias que compõem a população indígena, foi, em certa medida, uma oportunidade para promover e valorizar a cultura ancestral de um país que ainda caminha para reconhecer uma parte de sua identidade, que foi sistematicamente destruída e inferiorizada desde a invasão europeia de 1500.

Entretanto, a partir de agora é necessário superar a “espetacularização”, que em certa medida esteve presente nos jogos, e avançar na luta pelas conquistas de direitos e manutenção da cultura tradicional de povos que vivem resistindo há séculos. O problema não está em realizar jogos mundiais, mas fazê-lo sem dar autonomia para que as próprias etnias possam se organizar e definir a maneira como fazer está equivocado e não corresponde às necessidades que cada comunidade possui.

Os próprios fóruns de discussão, que permearam debates importantes sobre educação, cultura e sociedade, contemplavam alguns indígenas expondo pontos de vista, mas não contaram com a participação da juventude indígena que estava ali presente, foram organizados para que a imprensa e pesquisadores pudessem participar e divulgar, em grande parte.

A realização de jogos mundiais indígenas somente ocorrerá de forma verdadeira quando a voz for dada às populações indígenas, para que elas falem por si mesmas e apontem aquilo que de fato é necessário ou não. Na atual conjuntura, um evento mundial tem que ter a função de unificar e fortalecer a luta contra direitos que são atacados cotidianamente. É preciso avançar na percepção de que as culturas nativas precisam de instrumentos e recursos para se manterem vivas. Não é possível achar bonito utilizar um adorno indígena, ou tirar fotos e filmar um povo enquanto seu sangue é derramado dia a dia, como é o caso atual dos Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, que tem perdido seus jovens e suas lideranças para uma política de um governo genocida aliado a grandes proprietários de terra.

O movimento indígena impõe demandas e aponta para um caminho de desenvolvimento mais sustentável, de respeito às diferenças entre os povos. Durante toda a realização dos jogos, apesar das contradições aqui expostas, presenciamos um clima de solidariedade e troca, respeito às diferenças culturais de maneira nunca antes vista. Que o mundo, então, volte os seus olhos aos povos nativos, para reaprender o que o capitalismo, com a dinâmica de ganância e ambição insiste em nos fazer esquecer.

A bancada ruralista junto às empresas privadas e latifundiários nada mais propõe do que um país voltado aos seus interesses, e nesse projeto a população indígena não está inclusa, não pode existir. Por isso o genocídio que acontece no Brasil há tantos anos é tornado invisível pelos canais de comunicação e pela grande mídia. Ainda assim, a resistência indígena persiste e demonstra que, mesmo em um evento como esse, organizado em parte por setores do governo que nada mais pretendiam do que um “espetáculo para os brancos”, não se calaram, e apontaram, em todos os dias de jogos as suas demandas.

Lutar pelos direitos indígenas é lutar pela vida! Demarcação de terras JÁ!!! Abaixo a PEB 215!!!!




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