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Obama chega a Cuba

Uma viagem histórica e impregnada de simbolismos. Na quarta-feira, os EUA anunciaram novas flexibilizações ao bloqueio, e Cuba respondeu com a eliminação do imposto ao dólar.

segunda-feira 21 de março de 2016| Edição do dia

Há alguns dias tornou-se pública a agenda do presidente, que chegou neste domingo e estará na capital cubana até terça-feira. O primeiro compromisso é uma visita à Catedral e entrevista com a máxima autoridade da Igreja Católica cubana, o cardeal Jaime Ortega. Um reconhecimento da instituição-chave que facilitou as novas relações bilaterais e que Washington considera como sua principal aliada na ilha.

Na segunda-feira, verá o presidente cubano Raúl Castro com ato de protocolo no memorial ao herói nacional José Martí e uma entrevista fechada para imprensa no Palácio da Revolução, da qual se espera que saiam os principais anúncios sobre um maior aprofundamento das relações.

Mais tarde, ainda na segunda, Obama verá representantes do emergente setor privado na ilha, que faz pouco mais de 5 anos não chegava a 100 mil e hoje já soma meio milhão de autônomos (setor denomidado "cuentapropistas"), pequenos empresários e cooperativas. Um gesto para endossar as reformas econômicas de Castro (com as quais tratou de amenizar as consequências de centenas de milhares de despedidos nas empresas estatais, entre outros ajustes) e uma das vias, ainda que não a principal, pelas quais podem começar a fazer negócios empresários norteamericanos nos mais variados setores.

Encontro com dirigentes opositores

Na terça-feira, haverá um importante encontro na Embaixada norteamericana, com líderes dos grupos opositores de direita ao governo de Castro e conhecidos como a "dissidência". Já está confirmado que Obama será entrevistado pessoalmente por Berta Soler, cabeça das famosas Damas de Branco, e com José Daniel Ferrer, que dirige a principal organização opositora, a União Patriótica de Cuba (UNPACU). O governo norteamericano também convidou outras importantes referências da oposição de direita, como a blogueira Yoani Zánchez e Guillermo Fariñas, famoso por suas greves de fome que quase lhe custam a vida. Ferrer acaba de denunciar a detenção de uns 200 opositores nos últimos dias e outras várias dezenas que foram impedidas de sair de suas casas para manifestar-se pela liberdade de presos políticos.

Esses encontros são outro importante gesto político de Obama que marca a principal luta que mantém com Castro, a exigência de que as reformas econômicas sejam acompanhadas por um processo de abertura política que permita "o livre jogo democrático". As mencionadas organizações e referências políticas não têm influência significativa na população cubana, porém para o imperialismo poderiam ser a porta de entrada para disputar no futuro o controle político do Estado. Além de ser necessário mencionar que desde o primeiro momento esteve descartado qualquer encontro de Obama com Fidel Castro, retirado da política oficial desde sua enfermidade em 2006, mas figura protocolar chave para as visitas de governos aliados.

Ainda na terça-feira, Obama dará um discurso frente a 1500 pessoas e será televisionado pela rede nacional, no Grande Teatro de Havana. Segundo informou o principal assessor na política cubana da Casa Branca, Ben Rhodes, "o presidente falará sobre a complicada história entre nossos dois países", assim como sobre "sua visão para o futuro das relações" e "o futuro que queremos para o povo cubano", ainda que tomou o cuidado de esclarecer que "esse futuro é uma decisão do povo cubano".

Mais investimentos e eliminação do imposto sobre o dólar

A histórica visita começa da melhor maneira para os dois governos. Da reabertura das relações diplomáticas em Dezembro de 2014 (após um ano e meio de negociações secretas com o Vaticano), agora se soma de forma cada vez mais acelerada o estabelecimento de novas relações comerciais e financeiras. Já no início de 2015, aumentaram as viagens de familiares cubanos residentes nos EUA e em Cuba (embora o turismo siga proibido pelo bloqueio) e os envios de dólares. Nos meses seguintes, a administração de Obama implementou medidas que suavizaram certas normas do bloqueio econômico à ilha, como permitir contratos entre empresas cubanas e norteamericanas. Na segunda-feira, 14/03, firmou-se o contrato com a multinacional das comunicações Verizon para o serviço de Roaming.

Agora, a dias de sua visita histórica, foi anunciada a quarta rodada de flexibilizações. A mais importante faz com que os bancos cubanos possam fazer transações em dólares com entidades norteamericanas e sejam permitidas as exportações cubanas produzidas pelo setor privado. Também torna possível abrir oficinas comerciais em Cuba, particularmente nas empresas de transporte de carga. Os bancos estadunidenses poderão ter contas de cidadãos cubanos e realizar transferências de fundos, uma vez que os cubanos residentes nos EUA poderão abrir contas em Cuba. É restabelecido o correio oficial entre ambos os países para cartas e encomendas. Os norteamericanos poderão comprar produtos de Cuba em outros países e será possível a concessão de bolsas de estudo a cubanos, entre outras medidas.

Presente de boas vindas?

As medidas de flexibilização tiveram rápida resposta. O chanceler cubano Bruno Rodríguez anunciou na quinta-feira a eliminação do imposto sobre o dólar. Esse imposto de 10% é aplicado desde 2004, quando foi implementado o CUC (Peso Cubano Convertível) para eliminar a circulação da moeda norteamericana e captar um maior volume de divisas para o estado. Agora, a mão de obra cubana, medida em dólares, torna-se 10% mais barata. Por sua vez, qualquer investimento em dólares que façam empresários aumenta seu valor na ilha na mesma porcentagem.

É um bom negócio para as empresas ianques e para os profissionais autônomos com acesso a dólar. As remessas familiares nos EUA também ganham 10% e é um impulso direto ao investimento estrangeiro. Contudo, além disso, é uma medida necessária para a futura eliminação da moeda dupla (além do CUC existe o peso cubano nacional que vale 24 vezes menos e com o qual são pagos os salários estatais), uma árdua tarefa que impulsiona o governo como parte das reformas estruturais.

Entretanto, Obama encerrará sua visita com a ida a uma partida amistosa de baseball entre a seleção nacional cubana e os Rays de Tampa. Talvez até lance a primeira bola.Todo um símbolo dos tempos que se passam na maior das ilhas das Antilhas.




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