ESPANHA

O racismo é um vírus: emergência antirracista diante do coronavírus

Na Espanha, os imigrantes mais precarizados, sem documentos e as pessoas sem teto sofrem mais profundamente as consequências da crise sanitária e econômica desatada pela pandemia, assim como as consequências do Estado de Emergência imposto pela governo. Mas muitos têm começado a se organizar.

Clara Mallo

Madrid

sábado 28 de março| Edição do dia

Impedidos de trabalhar, demitidos ou sem renda, grupos de imigrantes estão sendo especialmente atingidos pelas consequências dessa crise. Muitos não têm casa para ficar e são mais afetados pelo aumento da presença policial nas ruas, como aqueles sem documentos para os quais o regime de exceção é constante, que sempre se arriscam na identificação policial e sua subsequente prisão, encarceramento em um CIE (Centro de Internação de Estrangeiros) e deportação.

Diante dessa situação, tem começado a aparecer um grande número de denúncias e iniciativas por parte de coletivos de imigrantes, pessoas racializadas e sem documentos.

Coletivos de todo o estado tem se coordenado no primeiro Comitê de Emergência Antirracista, criado para “identificar, dar visibilidade e buscar responder à situação de vulnerabilidade e discriminação racistas contra os grupos mais vulneráveis (imigrantes, asiáticos, ciganos, afrodescendentes, muçulmanos…)”. Entre os coletivos participantes existem associações de vendedores ambulantes, trabalhadoras do lar, plataformas pelo fechamento dos CIEs, jornalistas, pessoas sem documentos, imigrantes com trabalhos mais precários etc.

Esse Comitê, além de denunciar a perseguição policial, também escancara e denuncia uma série de situações que se agravam sob o estado de emergência, e a necessidade de uma resposta social. Entre as medidas propostas está a garantia de suprimento básico (água, luz e gás) e que não haja cortes no fornecimento devido ao não pagamento; moratórias sobre pagamentos de aluguel e hipoteca, paralisação dos despejos, liberação das pessoas presas e fechamento imediato dos CIEs, a fim de garantir proteção efetiva a todas as pessoas, entre outras medidas.

O Sindicato dos Vendedores Ambulantes de Madrid também denunciou em suas redes sociais como “diante da crise sanitária do coronavírus, pouco se fala sobre a crise que esse estado de emergência implicará para as pessoas precarizadas.” Para eles, essa situação é um duplo confinamento, que implica em não poder sair na rua pela questão de saúde e ter que ficar em casa sem recursos. Por isso iniciaram a campanha “Em tempo de Coronavírus, apoie os vendedores ambulantes”. Com o que eles coletaram, querem fornecer bens essenciais para os companheiros que não podem sair e estão ficando sem recursos.

A partir do Sindicato dos Vendedores Ambulantes de Madrid, pedimos que nos apoiem.
Diante da crise sanitária do coronavírus, pouco se fala sobre a crise que esse estado de emergência implicará para as pessoas precarizadas.
Nosso grupo é especialmente vulnerável nessa situação.
Cartaz: Em tempo de coronavírus, apoie os vendedores ambulantes

Nas últimas semanas, também conhecemos a situação de centenas de trabalhadores sazonais das plantações de morangos, laranjas e mirtilos, que foram forçados a trabalhar em condições que de forma alguma garantiam a proteção de sua saúde. Muitas delas relataram estar doentes e sendo obrigadas a trabalhar. Lembremos que muitas dessas trabalhadoras estão sob condições “especiais” de contratação na fonte, o que permite total impunidade para os patrões, que pouco se preocupam com a saúde de suas trabalhadoras. Se elas controlassem a produção nas grandes fazendas, poderiam estabelecer as medidas necessárias para evitar arriscar sua saúde, além de permitir licença para as trabalhadoras doentes enquanto controlam a produção, garantindo o suprimento de alimentos. É apenas um exemplo.

ATENÇÃO HUELVA!
O QUE ESTÁ ACONTECENDO AGORA MESMO com a colheita de morangos, mirtilos e laranjas em Huelva é brutal.
Estão nos chamando desesperados, muitas trabalhadoras estão indo trabalhar obrigadas e algumas delas ESTÃO DOENTES.

Também nas últimas semanas, vimos como os internos do CIE de Aluche, em Madri, iniciaram uma revolta exigindo sua liberdade e denunciando as condições nas quais se encontram. A Plataforma pelo fechamento dos CIE e inúmeras organizações vieram exigindo, desde o estourar dessa pandemia, a liberdade imediata de todas as pessoas presas nos Centros de Internação de Estrangeiros, verdadeiras prisões racistas para estrangeiros que não garantem a proteção de seus internos, assim como o fechamento definitivo desses centros.

Essas são as conseqüências da Lei de Estrangeiros que impõe um estado permanente de exceção para pessoas sem documentos e que hoje é agravada. Quando o período de confinamento terminar e as conseqüências da crise econômica que os capitalistas estão gerando recaírem sobre os setores populares e os trabalhadores, leis como a Lei de Estrangeiros servirão ao Estado para continuar criminalizando, perseguindo e reprimindo os imigrantes. Tudo isso junto com a militarização das ruas. Para começar a organizar uma resistência diante da crise que eles vão nos fazer pagar, temos que começar exigindo a revogação da Lei de Estrangeiros, o fim das deportações, a liberdade imediata para todos os internos nos CIEs, a suspensão de todos os efeitos da Lei de Estrangeiros, que podem implicar sanções para pessoas sem documentos e a cobertura de todas as necessidades básicas dos sem-teto, refugiados ou imigrantes.




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