Gênero e sexualidade

AS MULHERES E O MUNDO ÀRABE E MUÇULMANO

O Feminismo frente à Islamofobia Ocidental

Cynthia Lub

Barcelona | @LubCynthia

sexta-feira 10 de abril de 2015| Edição do dia

Após o ataque ao Charlie Hebdo em Paris, o crescimento do racismo e da xenofobia expresso na incitação à islamofobia, coloca a mulher como símbolo de “atraso e barbárie” de todo o mundo árabe e muçulmano.

Os postulados do “choque de civilização” também têm sua expressão no feminismo. Não são novos os preconceitos raciais em relação à “mulher oriental” e a exotização das mulheres árabes. Isso se manifesta sob mecanismos que ignoram as lutas dessas mulheres, para ensinar “valores ocidentais superiores” que possam arrancar da opressão estas “passivas e submissas mulheres”. Para isso, se utiliza do que muitas feministas chamam de “uniformização” das mulheres dos países coloniais ou semicoloniais, através do qual se criam assuntos de grande impacto que generalizam comportamentos das “outras” desde uma visão eurocentrista.

Cria-se assim, um falso ideal de superioridade e progresso relacionado ao Ocidente. Como se a maioria das mulheres árabes, muçulmanas, africanas ou latinas, pobres e trabalhadoras, que vivem na Europa ou nos Estados Unidos, não sofressem opressão de gênero, desigualdade salarial, precariedade, feminicídio, apesar de viver e nascer em sociedades “cristãs e ocidentais”.

Longe da submissão passiva, as mulheres árabes e muçulmanas souberam reconhecer as particularidades de seu próprio horizonte histórico-social em que se localizam as relações de opressão, dentro de uma universalidade de problemas identificáveis como os de todas suas irmãs de classe: duras condições de trabalho, desamparo nos direitos sociais e políticos, violência e assédio sexual, feminicídio, entre outros.

As múltiplas estratégias de luta das “mulheres do harén”

A história das mulheres árabes muçulmanas demonstra que souberam romper os limites das “mulheres do harém”, identificando o caráter de sua opressão assim como as estratégias para sua libertação das duplas correntes: a opressão exercida pelos poderes locais e a exercida pelo poder colonial ocidental dos países imperialistas.
O movimento feminista e de mulheres árabes e muçulmanas lutou por direitos como o sufrágio feminino, participação política, igualdade nas condições de trabalho e educação, diversas demandas em relação à problemática da poligamia – que é exclusiva para os homens e desprotege as mulheres -, a redução do direito absoluto dos homens ao divórcio ou o aumento da idade de matrimonio das meninas.

A feminista marxista egípcia, Nawal al Saadawi [1], psiquiatra e escritora, narra como as mulheres que se integraram ao trabalho industrial no Egito durante as primeiras décadas do século XX foram as primeiras a protagonizar greves e ocupar fábricas exigindo a redução da jornada de trabalho e a regulamentação de licença por gravidez e maternidade. Muitas mulheres tinham que ocultar sua gravidez para evitar demissão e inclusive provocavam abortos; nada muito diferente da situação, por exemplo, das mulheres espanholas sob a ditadura de Franco.

Foi muito importante também o surgimento de literatas que tornavam visível a situação de opressão das mulheres e suas primeiras ideias de emancipação, como o caso da egípcia Hafni Nassif, que lutou pelo acesso à educação de meninas e escrevia na imprensa sobre o divórcio, o matrimonio ou a reclusão das mulheres. Outra mulher de destaque foi May Ziada, uma das primeiras escritoras egípcias que formou um salão literário no Cairo entre 1915 e 1916, onde se debatiam as demandas das mulheres junto aos homens. Foi repudiada pela sua família e internada por supostos problemas mentais nunca comprovados [3].

A historiadora feminista Mary Nash explica como “as mulheres implementaram muitos recursos e estratégias para conquistar tanto seus direitos próprios como a emancipação nacional, antes, durante e depois dos processos de descolonização” [4]. No Egito, Túnez, Marrocos e Argélia cumpriram um papel protagonista nesses processos. Nawal al Saadawi narra as mobilizações das mulheres do Egito, cortando linhas telegráficas e sabotando os trens para bloquear a passagem das tropas britânicas durante os protestos de 1919. Algumas assaltando quarteis e as prisões em que se encontravam os líderes dos levantes. Centenas destas mulheres foram assassinadas [5].

Uma reconhecida feminista marroquina, Fátima Mernissi [6], questiona tanto os poderes locais quanto um setor do feminismo ocidental que subestima o poder de atuação das mulheres árabes:

Quando me encontro com uma feminista ocidental que acredita que tenho que agradecer pela minha própria evolução no feminismo, não me preocupa tanto o futuro da solidariedade internacional entre mulheres como a capacidade do feminismo ocidental em criar movimentos sociais populares para alcançar uma transformação estrutural nas capitais mundiais de seu próprio império industrial. Uma mulher que se considera feminista, ao invés de se vangloriar de sua superioridade sobre as mulheres de outras culturas e por ter consciência de sua situação, deveria se perguntar se é capaz de compartilhar isso com as mulheres de outras classes sociais de sua cultura[7].

Esta autora explica o feminismo árabe a partir de sua própria experiência, percebendo que “a resistência das mulheres é um fenômeno local”. Portanto, a oposição e crítica aos líderes religiosos conservadores árabes e seus postulados do islã patriarcal, vem das próprias mulheres árabes. Elas foram uma ameaça ao sistema patriarcal, acusadas pelos líderes religiosos mais conservadores de introduzir ideias destrutivas importadas do Ocidente. Uma crítica bastante acentuada se conhecemos a história da penetração imperialista e colonização europeia.

Mary Nash fala de uma “dupla colonização” das mulheres destas sociedades, colocando que a opressão colonial ligada à opressão da mulher pelos poderes locais, como vimos, resultou em formas simultâneas da opressão de classe e suas consequências estratégicas de luta e resistência[8].

Os usos do véu e sua simbologia

As feministas árabes questionam o chamado “feminismo ocidental” que insiste na existência de uma forçada conexão entre cultura e opressão às mulheres. Dessa conexão se desprende a estratégia de “abandono da cultura nativa” como via de emancipação. A proibição do véu, hijab, se localiza então nessa premissa.
O debate sobre o hijab é introduzido no século XIX em um Egito submetido à colonização britânica, quando alguns líderes do mundo árabe-muçulmano que lutavam por reformas nos direitos das mulheres, como a educação, e influenciados pelo discurso colonial europeu, consideravam o uso do véu como “símbolo de atraso cultural”.

As novas correntes feministas árabes do século XX questionaram estes reformadores e suas considerações como condutores de um “primeiro feminismo”. E foi se formando um feminismo anticolonial que rechaçava a ocidentalização das políticas de gênero expressas na proibição do véu - que tinha começado a ser implementado em diversos países -, enquanto se avançava pouco nos direitos das mulheres. Assim, o debate sobre o hijab se dividia entre os que o consideravam como símbolo do “atraso cultural” ou, ao contrário, como identificação da cultura árabe e muçulmana contra as ameaças do poder colonizador.

Existem muitos debates históricos e atuais sobre o véu, seu significado e sua simbologia. Por isso, é necessário contextualizar as políticas a favor ou contra o hijab e entender o significado transformador que tem o seu uso. A partir do século XX houve uma transformação importante após o desenvolvimento dos processos anticoloniais, quando as mulheres nacionalistas ou islâmicas árabes converteram o hijab em um “símbolo de resistência anticolonial”. Assim o descreve Franz Fanon sobre a luta anticolonial na Argélia na década de 1950 quando, frente à proibição francesa do véu, mais de 10 mil mulheres saíram às ruas com o hijab, assim como mostra o filme “A batalha de Argélia”.

Por sua vez, surgiram movimentos de mulheres e feministas que, em determinados contextos, lutaram contra a imposição do hijab ou também o caracterizavam como “véu integral”, burca e niqab, sem abandonar a luta contra o poder colonial e se enfrentando ao mesmo tempo com os poderes locais. Foi o caso da Federação de Mulheres da década de 1920, composta em sua maioria por mulheres de classe alta, cujas manifestações se centravam na abolição do véu, um problema que, segundo Saadawi, não era o centro das atenções das mulheres trabalhadoras e camponesas que não costumavam usá-lo nas fábricas nem no campo[9].

Na Europa este debate tem se atualizado nos últimos após a proibição da burca e do niqab em países como França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, em municípios da Catalunha (Espanha), na Alemanha – onde a metade dos estados proíbe o véu -, e na Itália, onde a lei antiterrorista de 1970 proíbe acessórios que cubram o rosto.
Contudo, esta proibição “em nome da liberdade”, para estas mulheres é apenas o acobertamento da perseguição cotidiana à população imigrante, perpetuada pela xenofobia e o racismo.

Tendências do feminismo no mundo árabe

No calor das grandes experiências de luta e organização, surgiram vários debates entre o “feminismo árabe e muçulmano” e o “feminismo islâmico” que surge na década de 1990. Dentre suas grandes diferenças, existe um ponto de acordo que é a denúncia do que identificam como “feminismo ocidental”, um feminismo que ecoa o chamado “imperialismo cultural” que teve suas consequências para o movimento feminista. Por um lado, o rechaço aos movimentos feministas no interior das sociedades islâmicas, árabes e muçulmanas, aproveitado por forças políticas e religiosas conservadoras que acusam o feminismo de “inimigo que desafia a cultura tradicional ou religiosa”. Por outro lado, a emergência de um movimento feminista de amplo espectro, desde o laicismo ao islamismo, que por momentos convergem e em outros divergem [10].

Um livro novo, “La emergência del feminismo islâmico”[11] (O surgimento do feminismo islâmico), explica o aparecimento dessa corrente [12], que se caracteriza pelo rechaço ao “feminismo colonial” ou “ocidentalização entendida como o abandono do islã” como o único caminho para alcançar a libertação da mulher muçulmana. Frente a isso, reivindicam a emancipação da mulher “no marco do islã religioso” e denunciam uma degradação da tradição islâmica e uma deturpação dos textos sagrados, para o qual colocam uma releitura dos mesmos através da “hermenêutica do Alcorão” que revele um “islã genuíno” contido em um “Alcorão libertador da mulher”. As feministas mais referentes são Amina Wadud, Asma Barlas, Margot Badran (EUA), Shaheen Sardas Ali (Paquistão), Ndeye Andújar (Espanha).

No entanto, ainda que o “feminismo islâmico” se diferencie dos líderes religiosos conservadores árabes – que com o argumento do “rechaço à penetração ocidental” acabam fazendo coro com as práticas patriarcais mais reacionárias –, existe uma grande contradição entre buscar dentro da religião traços emancipatórios para as mulheres, por suas estreitas relações com os Estados e as diferentes instituições do sistema patriarcal, caro sócio das sociedades capitalistas.

Neste sentido, as feministas árabes e muçulmanas contrárias ao “feminismo islâmico” argumentam que, inclusive adentrando em uma “releitura libertadora do Alcorão”, tanto o islã como qualquer religião comporta uma estreita colaboração com o Estado, o poder político e o sistema patriarcal que este perpetua. O “feminismo árabe e muçulmano” reivindica a libertação da mulher desde um paradigma “cultural árabe e muçulmano”, mas rechaça o islã religioso e sua irreversível característica patriarcal. Embora algumas acreditem que o islã propôs melhorias nos direitos das mulheres em determinados momentos históricos, colocam que toda religião monoteísta é patriarcal e que não se pode alcançar a emancipação da mulher dentro de um âmbito estritamente religioso. Entre as referências se encontram Nayereh Tohidi (Irã) e Valentine Moghadam (Irã), quem questiona como cada vez mais avança no movimento feminista a separação entre religião e Estado.

Foi Nawal al Saadawi quem mais enfatizou essa questão. Em seu interessante livro “La cara desnuda de la mujer árabe” (publicado no Brasil como "A face oculta de Eva: as mulheres do mundo árabe") apresenta os pontos de contato entre as sociedades árabes e ocidentais, cuja raiz está no sistema patriarcal que todas as religiões tem perpetuado historicamente: “A história colocou em evidência o estreito vínculo existente entre a economia e religião, entre as necessidades econômicas e os valores morais e sexuais que regem determinada sociedade” [13]. Sob uma detalhada narração do tratamento em relação à mulher do judaísmo, do cristianismo e do islã, fundamenta sua tese de que: “As religiões monoteístas, ao ditar princípios que iriam regular o papel e a posição da mulher, se inspiraram, como vimos, em valores que imperavam nas sociedades patriarcais e de classe” [14].

Apesar dessa sintética classificação, é muito difícil fazer uma divisão rigorosa entre estas correntes. Muitas feministas compartilham nuances entre o feminismo islâmico e o feminismo árabe e muçulmano. Fátima Mernissi poderia ser uma referência da complexa intersecção destas duas correntes.

Os mil e um problemas das mulheres das mil e uma noites

É imprescindível romper com a visão de vitimização das mulheres árabes e muçulmanas, tão arraigada no mundo ocidental, e evidenciar a subjetividade histórica, as lutas e as ideias pela transformação de suas próprias sociedades.
Muitas intelectuais e feministas muçulmanas tem se esforçado para romper a distorcida visão ocidental da mulher árabe, que se baseia na antiga obra literária “As mil e uma noites”. A mulher que se contorce como uma serpente dançando com a barriga descoberta, seduzindo os homens, também sedentos de sexo, com promessas de paixões sombrias, jogos secretos e intrigas entre tapetes voadores mágicos. Nada melhor que invejar as histórias de princesas que a cultura ocidental soube fabricar. Em relação a isso, Al Sadawi nos diz:

Seria mais científico e verdadeiro realizar um estudo comparativo sobre o modo de vida dos árabes e europeus (...) na Idade Média, por exemplo, quando o clero, que era a classe dirigente composta somente por homens, incentivava as mulheres acusadas de bruxaria a dizer as piores obscenidades sob a pressão de torturas insuportáveis [15].

Além disso, a luta histórica e atual das mulheres árabes e muçulmanas nas ruas e a formação de um movimento de mulheres e feminista próprio com uma ampla agenda de reivindicações demonstrou que a questão do hijab ou da “dança do ventre” está longe de ser a principal preocupação. Nada rompe mais com a imagem da mulher de As mil e uma noites que as mulheres da primavera árabe, protagonistas de destaque deste processo. Só no ano de 2010 foram mais de 300 greves em que as mulheres emergiram fartas de carregar sob suas costas a maioria dos problemas sociais que afetavam as famílias ante a inflação dos produtos básicos. E as imagens das mulheres egípcias ou marroquinas com bandeiras e megafones se enfrentando com as forças repressivas varreram o mundo.

O ocultamento, desconhecimento de seu protagonismo e sua consequente vitimização, é um mecanismo que sustenta o fomento do racismo e islamofobia que recae como um fardo pesado sobre a vida cotidiana das mulheres que vivem em países da Europa ou nos Estados Unidos. Se a opressão às mulheres é dupla, como mulheres e trabalhadoras, nos países explorados e oprimidos pelas potências imperialistas, a opressão de classe é tripla para essas mulheres.

Tradução: Ana Carolina Fulfaro

Original: http://clasecontraclase.org/generos-sexualidades/2015/03/el-feminismo-frente-a-la-islamofobia-occidental/

[1] NAWAL AL-SAADAWI (1931), é uma figura decisiva cuja trajetória começa na segunda onda do movimento feminista egípcio nas décadas de 1970-1980. No ano de 1972 publicou o livro “Mulheres e sexo” cujos pressupostos perturbadores sobre a sexualidade das mulheres egípcias e suas consequências para a saúde, trouxeram à tona o debate sobre a prática de mutilação genital de meninas. Assim se desenvolveu sua militância feminista contra a mutilação e questionamento à religião muçulmana, o que lhe custou a prisão e o exílio. Em outro livro “O rosto nu da mulher árabe” (2001) narra sua própria experiência quando sofreu mutilação quando criança. Outro de seus livros mais famosos escrito na prisão em um rolo de papel higiênico é “Memórias da mulher na prisão”.
[2] N. al Saadawi, La cara desnuda de la mujer árabe, Madrid, Horas y Horas, 1991. p.234.
[3] Idem, p. 231-232.
[4] M. Nash, “Trayectorias anticoloniales, postcoloniales y antirracistas. El rechazo de la subalternidad”, Mujeres en el Mundo. Historia, retos y movimientos, Madrid, Alianza Editorial, 2004, p. 255.
[5] N. al Saadawi, ob. cit., p. 235.
[6] Fátima Mernissi nasceu em Fez (Marrocos) em 1940. Sua intensa carreira acadêmica começou após se formar em Ciências Políticas no Marrocos, deu continuidade em Paris, na Universidade de Sorbone, para finalizar seu doutorado nos Estados Unidos. Voltou ao Marrocos nos anos 70 e exerceu a profissão de professora na Universidade de Mohamed V de Rabat. Toda sua vida acadêmica possui um grande mérito sendo filha e neta de mulheres analfabetas. Escreveu várias obras, traduzidas a uma grande quantidade de idiomas, como: Sexo, ideologia e islã (1975), Sultanas esquecidas (1990), Marrocos através das mulheres (1991), Sonhos proibidos – Memórias de um harén em Fez (1994), O medo da modernidade: islã e democracia (2007).
[7] Fatima Mernissi, El poder olvidado. Las mujeres ante un Islam en cambio, Barcelona, Icaria, 1995, p. 47.
[8] M. Nash, ob. cit., pp. 231-232.
[9] N. al Saadawi, ob. cit., p. 235.
[10] M. Nash, ob. cit. p 238.
[11] La emergencia del feminismo islámico. Selección de ponencias del Primer y Segundo Congreso Internacional de Feminismo Islámico, Barcelona, Ed. Oozebap, 2008.
[12] O surgimento do “feminismo islâmico” durante a década de 90 poderia estar localizado no que vários pesquisadores ocidentais do mundo muçulmano chamaram “reislamização” da esfera política após as décadas de hegemonia do nacionalismo laico. Sobre esse assunto, é interessante o artigo de Claudia Cinatti, “Islam político, antiimperialismo y marxismo”, mesmo que escrito em 2007, ainda conserva grande validade para analisar o surgimento do islamismo político. Disponível em www.ft-ci.org.
[13] N. al Saadawi, ob. cit. p. 140.
[14] Ibidem, p. 161.
[15] Ibidem, p. 186.




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