Política

CRISE TUCANA

Matarazzo deixa o PSDB e escancara crise interna do partido

Vereador que disputava previas para ser o candidato tucano a prefeitura de São Paulo sai fazendo duras criticas a Alckmin e a João Dória; saída pode ser o prenúncio de rachas mais profundos no ninho tucano.

sábado 19 de março de 2016| Edição do dia

O vereador Andrea Matarazzo anunciou na manhã dessa sexta-feira, 18, sua desfiliação do PSDB, alegando não concordar com a forma que foi organizada a disputa prévia pela candidatura tucana a prefeitura de São Paulo. A mesma disputa já foi palco de diversas polêmicas, como as cenas de pancadaria vistas no 1° turno das prévias.

Sua saída deve causar impacto, uma vez que trata-se do vereador mais votado do PSDB nas últimas eleições municipais, líder do governo na câmara municipal, e de um antigo aliado de José Serra, expondo mais uma vez o racha no tucanato paulista.

Por trás desse racha aparentemente local, esconde-se a disputa entre Serra e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin pela candidatura do PSDB à presidência em 2018. Há anos que esses dois caudilhos disputam a hegemonia no PSDB paulista, sabendo que esse é um excelente um trampolim para disputa nacional.

Suas rusgas já vem desde 2006, quando José Serra foi convencido a deixar de lado sua ambição pessoal de tornar-se presidente em prol do, na época, ascendente governador de SP, numa crise que se arrastou por meses, mas as prévias paulistanas e saída de Matarazzo significa um novo marco na temperatura interna das disputas.

Geraldo Alckmin apoia João Dória Jr., que não tem qualquer tradição entre os tucanos mas possui popularidade graças ao seus programas de televisão (como a versão brasileira do odioso "O aprendiz" criado por Donald Trump nos EUA), como parte de seu projeto de ser o candidato em 2018, apostando que uma vitória do "autêntico" Dória Jr. possa pavimentar esse caminho.

Já José Serra e boa parte dos caciques mais tradicionais do PSDB, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e senador Aloysio Nunes Ferreira, apoiavam Andrea Matarazzo, que além de referendado pelas urnas também é um militante antigo do PSDB, desde 1993.

Rachas mais profundos a vista?

Na entrevista em que comunicou sua saída, Matarazzo foi contundente em suas críticas e deixou bem claro a quem culpava: "Infelizmente, a ala liderada por Geraldo Alckmin não me deixa outra alternativa. Não tem espaço para mim no partido que coaduna com a compra de votos, com o abuso do poder econômico e com o tipo de manobras que fizeram."

Apesar de afirmar que sua decisão foi "solitária", "A Folha de São Paulo" afirma que ele consultou seus principais padrinhos políticos antes de tomar a decisão, como FHC e Serra. É importante ter em mente que José Serra vem articulando em torno do impeachment de Dilma Rousseff uma espécie de "governo de unidade nacional" junto com o Vice-presidente Michel Temer no caso de renúncia ou mesmo implementação direta do impedimento.

Seria essa saída de Andrea Matarazzo uma espécie de preparação para a saída de Serra e outros caciques tucanos rumo a um governo de coalizão em torno de Temer? Matarazzo também tem grande proximidade com o ex-prefeito Gilberto Kassab, do PSD, partido da base aliada que já declarou que pode sim ser o destino do vereador. Seria possível a migração de um setor tucano para um partido da base aliada apenas para facilitar as tratativas de um novo governo pós-Dilma?

Serra também é um dos entusiastas da ideia do semi-presidencialismo proposto pelo presidente do Senado Renan Calheiros, defendida também por FHC em artigo no "O Estado de São Paulo" no início do mês. Serra, FHC e os tucanos mais antigos também foram expoentes da defesa do parlamentarismo no plebiscito de 1993. Poderia esse setor estar tramando pela mudança da constituição em prol de um governo que esvazie os poderes da presidência e garanta maior poder para os parlamentares, especialmente os tucanos?

São hipóteses que somente o tempo vai poder confirmar, mas que mostram que o PSDB, o partido no qual boa parte dos manifestantes anti-PT que manifestaram-se nos últimos dias depositam suas esperanças, chega nesse momento decisivo da situação nacional bastante debilitado, dilacerado por suas disputas internas e pela ambição de seus caciques. Com o aprofundamento dessa crise interna, diminui também a possibilidade desse partido poder servir como base de um novo pacto social entre a burguesia que permita estabilizar a situação e aplicar integralmente os ajustes, aumentando as chances de que atual situação nacional desemboque em um cenário de crise generalizada do regime.




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