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Elza Soares está de volta com seu Planeta Fome

Foi lançado neste ultimo mês o disco político "Planeta Fome", de Elza Soares.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quinta-feira 26 de setembro| Edição do dia

Em 1953 ao subir no palco do programa Calouros em Desfile para se apresentar pela
primeira vez na televisão Elza respondeu a pergunta de Ary Barroso “De que planeta você vem?” com a icônica frase que marcaria para sempre quem era aquela ainda desconhecida Elza. Antes de cantar naquele programa Elza trabalhava em um hospício depois de perder seu emprego em uma fábrica de sabão, e seu marido com quem viveu um relacionamento permeado de agressões físicas e psicológicas. A resposta a pergunta: “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do planeta fome.” entrou para a história da música brasileira e agora entra novamente como o título de seu mais recente disco, que já nasce uma obra prima e necessária.

Planeta fome segue a sonoridade que se inaugurou com seu disco “A mulher do fim
do mundo”, que fez Elza Soares renascer aos 60 anos, e sobre o qual escrevi com brilho nos olhos aqui em 2016.

O disco abre com a característica guitarra baiana da banda Baiana System que
acompanha Virginia Rodrigues e Elza Soares na canção “Libertação”. Após a guitarra baiana a voz de Elza surge para declarar “eu não vou sucumbir”. Usando frases que já povoam o imaginário como “segura a minha mão” e “a minha jangada foi pro mar” essa é uma canção que chama a resistência, a não sucumbir, e a resistir, pois se largaram a nossa mão não tem solução, agora é a hora da libertação.

“Menino” se dirige aos pobres, aos que não tem casa e não tem pão e ainda assim
representam o futuro da nação, uma canção que é uma espécie de prólogo a próxima canção “Brasis” que se dirige a uma tentativa de retrato do país, que denuncia a diferença social entre os dois brasis “Tem um brasil que soca/ um brasil que apanha”. Mas essa canção é sobretudo um desejo do que quer para o Brasil: “quero ver seu povo se cabeça em pé”!

“Blá blá blá” com BNegão - que recentemente sofreu uma censura - e Pedro Loureiro é uma das músicas mais políticas do disco que apesar de apresentar o desejo de não ser política não pode se eximir na atual situação: “Quero sorrir, mudar de assunto/ Falar de coisa boa/ Mas a minha alma ecoa/ Agora, um grito, eu acredito que você vai gritar junto”. A canção segue reproduzindo blá blá blás do atual governo Bolsonaro, herdeiro do golpe de 2016 como “agora a Terra é plana” e tantos outros versos que não vale explicar, apenas reproduzir:

“Terrorista será
Aquele que não bota veneno na sua mesa ou na plantação
(...)
O negócio é o seguinte: Negociata total!
O patriota agora nem vende ou aluga o país
O novo patriota cede gentilmente as terras
E as armas, do seu povo pra América do Norte
(...)
Esse arquivo era pra ser secreto
Se tem um decreto, pra que debates?
Trinta por cento de cem dá três chocolates
Aposto o meu doutorado na faculdade americana
Me engana que eu gosto, me manda que eu posto
Se a reforma não passar, não vamos ter dinheiro pra contratar
Se a reforma não passar, o Brasil vai quebrar!
É muito blá, blá, blá, blá, blá
É tanto blá, blá, blá, blá, blá”

“Comportamento geral” é a canção de Gonzaguinha agora na voz poderosa de Elza
Soares, a letra é uma ironia do início ao fim que reproduz o que diz os mandantes, que “tudo vai bem, tudo legal”; um clássico que deve voltar a ser escutado e cantado com ódio e ironia nos atuais tempos, pois muita pouca coisa mudou; os poderosos continuam querendo que nós paguemos por uma crise que não é nossa.

“Tradição” é um samba canção arrastado com ordenadas para desconfiar de tudo,
desconsidere, desobedeça, descontinue, desaproprie, desconfigure, desorganize, desagrave e se jogue na avenida.

Já “Lírio rosa” pode parecer que está por fora de tudo, pois é a unica canção de amor em meio a tantas canções políticas, e talvez por ser a exceção seja tão linda, pois também é exceção quando vemos Elza Soares tão madura ainda cantando que outra pessoa ainda a toca de tantas formas a ponto de falar como uma adolescente.

Se o título do disco dialoga com a primeira frase de Elza Soares na televisão, “Não tá
mais de graça” dialoga com a canção que fez Elza atravessar épocas declarando que “A carne mais barata do mercado é a carne preta”; agora junto com Rafel Mike, Elza declara:

“A carne mais barata do mercado não tá mais de graça
O que não valia nada agora vale uma tonelada
A carne mais barata do mercado não tá mais de graça
Não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada”

Esse ultimo verso dói ainda mais após a morte de Ágatha, pois é claro que não há
balas perdidas, as balas tem endereço certo, são para o povo preto pobre.

“País do Sonho” é uma declaração do que Elza Soares quer, sonha e precisa para o
Brasil.

Gonzaguinha volta a ser cantado na voz de Elza com a canção “Pequena memória
para um tempo sem memória” pois soa como presente. Existe claro uma diferença enorme entre o contexto em que Gonzaguinha escreveu essa canção, não estamos na ditadura militar de outrora, mas ainda assim o avanço da extrema direita nos traz semelhanças que fazem com que Gonzaguinha soe atual. Mas sobretudo o uso de Gonzaguinha aqui não é pessimista, ele é um chamado: “Vamos à luta!”

“Virei o jogo” é uma espécie de autobiografia de Elza que nunca arregou, mas é além de uma autobiografia, uma afirmação de quem se é, de quem resistiu a tudo, é também um aviso:

“Não descarrega sua raiva em mim
A sua arma não vai me abater
Você é não sou, um milhão de sins
Tenho meu povo pra me proteger”

A canção “Não recomendado” de Caio Prado e São Yantó ganha uma versão ainda
mais potente na voz de Elza Soares e vem pra fechar essa obra declarando em tempos de censura a bienal por conta de um beijo gay, ou de um presidente eleito prometendo acabar com a ideologia de gênero, que somos nós os “não recomendados a sociedade”. Ao fim dacanção Elza retoma Titans para questionar “você tem fome de que? você tem sede de que?”

Planeta fome é um disco para os novos tempos, que nasce pronto para ser cantado a plenos pulmões com ódio e vontade de mudança. Obrigada, Elza Soares, mais uma vez por isso.

Ouça o disco:




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