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Presidente Trump: divisão da elite e dos mecanismos de poder

O novo presidente terá que lidar não apenas com a polarização e divisão das bases, como também com uma inédita e ácida divisão na cúpula do poder.

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

sábado 21 de janeiro de 2017| Edição do dia

Antes das eleições alertamos sobre a forte divisão da classe dominante norte-americana. A elite do poder se dividiu amargamente, com a maioria apoiando Hillary Clinton, a candidata favorita das alas políticas e corporativas, enquanto a ala militar se reuniu ao redor de Trump.

Isto não significa que a elite corporativa é monolítica. Por exemplo, à indústria petroleira não agrada que as guerras e tensões geopolíticas perturbem seus negócios a longo prazo (exemplo da Rússia e Líbia). Boeing quer vender aviões ao Irã. Por outro lado, uma parte considerável das multinacionais que se beneficiam com a segmentação do processo de produção a nível mundial se preocupa menos com essas guerras ou manobras geopolíticas, sempre que exista a possibilidade de criar novos mercados ou facilitar o acesso à mão-de-obra barata. Por enquanto, Trump conseguiu conter e agradar este setor da classe dominante com uma mescla de ameaças e promessas de valiosos negócios: o primeiro foi aplicado à indústria automotiva, não apenas norte-americana como também mundial (Toyota, BMW, etc) que, ao ver em risco suas essenciais cadeias de produção no estrangeiro, esteve disposta a entrar para o jogo da produção nacional do novo presidente.

Por outro lado, mesmo a baixa dos impostos corporativos é um elemento central do protecionismo reforçado pela “Trumpeconomics”, elemento este que está estritamente relacionado a um terceiro: a desregulamentação das finanças que promete valiosos dividendos aos bancos norte-americanos, como já se pôde ver no último trimestre, aonde os tubarões das finanças alcançaram lucros extraordinários. Liquidando as mornas regulações impostas ao setor financeiro depois da crise de 2007/2008, Trump busca dar uma vantagem comparativa ao setor financeiro norte-americano, que se prepara para captar os capitais e poupanças das famílias, aumentados pela baixa dos impostos e pela promessa de rendimentos fabulosos.

No entanto, junto com esta divisão do mundo dos negócios, a divisão política decisiva durante as eleições e a posteriori, é a batalha entre o setor neoconservador/intervencionista liberal erroneamente intitulado “humanitário” e os que apostam em política exterior. O primeiro campo é representado pela CIA e o segundo pelos militares. A derrota de Hillary foi uma derrota para o setor que, depois do fracasso das operações militares no Iraque e Afeganistão da era Bush, está na vanguarda da provocativa belicosidade do imperialismo norte-americano.

Assim, durante quase seis anos, a CIA participou de uma campanha para a mudança do regime, o financiamento e o armamento de milícias fundamentalistas islâmicas com o objetivo de derrubar o presidente sírio, Bashar al-Assad, o único aliado árabe da Rússia no Oriente Médio. Em 2013, as declarações adulteradas de que o governo sírio havia levado adiante ataques com armas químicas foram utilizadas como pretexto para lançar uma guerra aérea de grande escala contra Assad. O presidente Obama, frente à oposição popular nos EUA, as divisões dentro do establishment militar e a oposição dos aliados de Washington da OTAN, com exceção da França, deteve o ataque aéreo no último minuto.

Por sua vez, há poucas dúvidas de que negociações estavam em andamento entre a campanha de Clinton e a administração Obama, com um estado de planejamento muito avançado, para uma escalada militar massiva dos EUA na Síria a ser lançada depois da esperada vitória eleitoral da candidata democrata, que tinha apoio público das sessões dominantes do establishment da inteligência. Durante a campanha, Clinton reiteradamente pediu a imposição de “zonas de exclusão aérea” e outras medidas que almejavam um risco direto de conflito militar com as forças russas que operavam na Síria. Esta política belicosa com a Rússia teve seu outro ponto exaltado na Ucrânia, onde a participação da CIA é fato corriqueiro.

A caótica transferência de poder mostrou uma agudizacão do conflito entre Trump e a comunidade de inteligência. O primeiro discutiu publicamente as avaliações do segundo [CI] sobre os hackers russos; a vingança contra ele foi fabricar um expediente falso sobre um suposto episódio de relações com prostitutas por parte de Trump na Rússia, que contou com um vergonhoso episódio de “chuva de ouro”. Apesar do caráter pouco sólido de toda a história, o mesmo poderia ser uma advertência de que quem escreve o script da realidade serão as forças do establishment e não ele. Por ora, Trump não chegou a um modus operante com este setor do “estado profundo” norte-americano.

Ao mesmo tempo em que os militares têm obtido três postos no novo gabinete e esperam ser recompensados em sua medida, a comunidade de inteligência é a facção mais reacionária a ser convencida pela nova visão das prioridades da política exterior norte-americana. Assim, enquanto é provável que Trump aumente a retórica de conflito contra alguns países estrangeiros, é cauteloso em não comprometer-se a iniciar nenhuma guerra séria (questão que agrada os militares), na medida em que estes e a poderosa indústria bélica esperam o lançamento de uma inútil inovação militar a qual Trump promete bilhões (a guerra das estrelas de Reagan Redux).

Pelo contrário, para os neoconservadores e seus laços com a comunidade de inteligência, o repúdio à doutrina de “promoção da democracia” e das revoluções coloridas que a acompanham, estavam no coração do programa de política exterior destes, e não são do agrado de Trump, como este deixou claro em seu discurso de posse em Washington.

O abandono da fracassada política exterior dos últimos anos e suas implicações geopolíticas, que teve seu revés mais profundo na Síria, onde pela primeira vez em um conflito regional, os EUA foi deixado de lado na resolução do mesmo, como mostram os acordos da Rússia com a Turquia e Irã. Há um decisivo unilateralismo econômico presente na agenda do novo presidente, que gera não apenas enormes conflitos externos, em especial com a China e Alemanha, mas também arrisca exacerbar as disputas no interior da classe dominante norte-americana.

Tradução: Julia Rodrigues
Revisão: Letícia Parks

Link original: http://laizquierdadiario.com/Presidencia-Trump-division-de-la-elite-y-de-los-factores-de-poder




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