Cultura

LITERATURA

Nós, Gregores Samsas, Exoesqueletos com Máscaras de Homo Sapiens

Crônica escrita por Noah Brandsch, estudante secundarista que retrata, à luz da alegoria de Franz Kafka em seu livro A Metamorfose, a dura realidade vivida pelos trabalhadores brasileiros na sociedade capitalista que nos desumaniza e transforma a vida em uma massa anônima de seres descartáveis tal qual um inseto.

segunda-feira 17 de maio| Edição do dia

Nós, Gregores Samsas, em um mundo girando a 465 metros por segundo em torno do seu próprio eixo, mas o que nos deixa tonto são nossas preocupações. Pela necessidade material de sobrevivência gerida pelo dinheiro, e pela auto culpabilização de estar sempre se achando improdutivo. Nós, Gregores Samsas, insetos desumanizados metamorfoseados em humanos, exoesqueletos com máscaras de homo sapiens. Caixeiros viajantes que vagam atrás de notas de papel, com a honra vazia de sustentar a família.

Nós, Gregores Samsas, que recebemos maçãs atiradas nas costas por nossa própria família. Por pressão da necessidade de ter boa reputação entre os familiares, entramos em empregos que nem desejamos, estudamos coisas que nem temos afinidade, por conta do retorno financeiro e de status que eles apresentam. Às vezes, essa pressão nem é por mau, mas pela preocupação de uma sociedade que exige uma ascensão social através do dinheiro. Às vezes, por nos apaixonarmos por um violino ou por fugirmos das normas do trabalho, somos desumanizados e jogados em um quarto mofado por nossa própria família.

Nós, Gregores Samsas, em meio à pandemia que assola o mundo e, principalmente, o Brasil, rastejamos por entre as paredes do nosso cérebro em nossas casas. Ou por outro lado, por conta da insanidade, do medo e do cansaço, rastejamos por entre os ônibus superlotados atrás da coexistência da nossa sobrevivência em meio à calamidade do vírus. Nos conformamos com a banalização da morte, com as 4 mil mortes diárias, com o abismo social que propicia essas mortes; assim como para sua família, Gregor está morto, e é melhor que não seja nem visto. E o ocultamento de Gregor, que quando aparece faz a mãe desmaiar, parece a minimização da pandemia por parte de certos setores políticos: nós, milhares de Gregores Samsas morrendo por dia, se formos escondidos atrás de um canapé, ou embaixo de uma vala rasa, estará tudo bem.

Nós, Gregores Samsas, conformados com um resto de queijo mofado, agradecidos por uma comida estragada, aliviados com a tirada de móveis para a perpetuação do tédio eterno entre as 6 paredes. Nós, Gregores Samsas, conformados com um salário-mínimo para comprar metade do almoço, agradecidos por termos a oportunidade de entregarmos delivery de comida com cadeira de rodas, aliviados com um descanso no domingo para assistir ao Faustão. “O que terá acontecido comigo?”, pensamos, passivamente, quando nos transformamos em um inseto. “O que terá acontecido conosco?”, pensamos, sem indagação, apenas com conformismo, quando temos 15 milhões de desempregados, quando temos 50% da população com insegurança alimentar, quando temos encarceramento em massa, quando temos 17 mortos pela polícia por dia, quando temos queimadas e genocídios indígenas aos montes. “O que terá acontecido?”, quando por fim, morremos e somos jogados fora em uma lata de lixo.

Nós, Gregores Samsas, ao encontrarmos uma válvula de escape para os problemas da sociedade que são individualizados, quando somos atraídos pela melodia de um violino em meio a tanta loucura, somos rejeitados pela necessidade do dinheiro. Se nos apaixonarmos demais por algo, os inquilinos saem e nossa condição de existência nessa sociedade se torna mais difícil. Como somos atraídos por algo que envolve emoção e paixão, como o futebol, logo percebemos as sujeiras, interesses e corrompimentos gerados pelos males de um sistema em uma cultura tão linda.

Nós, Gregores Samsas, por 5 minutos de atraso de sono, por um pouco mais de prazer do descanso, um alívio para o cansaço que o sistema proporciona, por não pegarmos o trem do trabalho, somos desumanizados, metamorfoseados em insetos. E por isso, nessa sociedade, somos insetos rastejando com máscaras de seres humanos.




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