Sociedade

SAMBA ENREDO DA MANGUEIRA

Marielle, Dandara, Malês: Mangueira em cores e palavras desfila a história de luta do Brasil

Mangueira, sob as cores verde e rosa, contou a história do Brasil com o grito daqueles que deram sangue e suor. Dandara, Mahin, Malês, Marielle. Contando a história que a história não conta, mulheres, negros, índios e o povo pobre tomando o palco contra o governo Bolsonaro.

terça-feira 5 de março| Edição do dia

“A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra”

Enredo da Mangueira de 2019.

O carnaval de 2019 terá suas avenidas e sambódromos preenchidos pelo grito daqueles que sentem na pele o avanço do reacionário governo de Bolsonaro e a miséria imposta ao povo trabalhador e pobre. A Mangueira, que desfilou ontem dia 4 de março, cravou na avenida a história do Brasil contada pelas mãos e vozes daqueles que de fato constituíram com sangue, suor e luta.

Com um enredo emocionante, Mangueira lança mão de carros alegóricos que quase falam por si mesmos. O tema da escola no ano de 2019 foi a História do Brasil, contada da forma como os negros, índios e povo pobre sentiu. “Tirando a poeira dos porões”, como diz o próprio enredo, a escola colocou na avenida os Malês, Jamelão, a sambista Leci Brandão, os negros escravizados, os índios assassinados e Dandara. Nomeou da forma que merecem aqueles que, nos livros de história são tidos como heróis, com o nome que devem ter: Princesa Isabel, os Bandeirantes, Duque de Caxias, aqui assumem o papel de agentes da colonização e da repressão contra negros, escravos e pobres.

A violência contra os índios instalada no período de colonização e avanço sobre as tribos indígenas marcou um carro alegórico, onde os Bandeirantes, movimento que adentrava o país dizimando populações indígenas, estavam manchados de sangue, carregavam também pichações com os dizeres “assassinos, ladrões”. Não é a primeira vez que acontece um levante contra a memória falsificada dos Bandeirantes: em 2016, o monumento aos Bandeirantes foi tingido de vermelho, em alusão às milhares de mortes do povo indígena.

Se apoiando na luta do povo negro, Mangueira retoma a revolta dos Malês, um importante levante de escravos em Salvador, um dos mais importantes momentos na luta do povo negro contra a escravidão. Dandara do Quilombo dos Palmares, um dos mais importantes nomes na luta contra a escravidão, vive nos gritos daqueles que lutam contra o racismo.

Não faltou também uma homenagem à Marielle Franco, vereadora do PSOL no Rio de janeiro, executada há quase um ano, cujo caso permanece sem resposta. Se colocando sempre contra a violência policial, denunciando as mortes fruto da repressão policial e da intervenção policial, mostra a ferida aberta do golpe institucional, e de um Estado que carrega a culpa de sua morte e ostenta amadorismo na busca da resposta de seu caso.

Veja também: Marielle Franco e o clã Bolsonaro: a ferida aberta do golpe institucional sangra

Em meio ao governo Bolsonaro, que ataca aqueles que lutam, que avança contra os trabalhadores, mulheres, negros, LGBTs e indígenas, o desfile da Mangueira retoma a força da história de um povo que se forjou na luta contra seus algozes. Devolve à memória daqueles que nunca esqueceram que o caminho para enfrentar e resistir é a luta organizada, sob nome de Luiza Mahin, Dandara e Marielle. Sob os nomes marcantes das mulheres que protagonizaram a luta contra o povo pobre e oprimido.

Veja aqui: 11 meses sem Marielle: tomar as ruas por justiça por Marielle

A ditadura militar, foco constante do governo Bolsonaro, que irá lançar próximo à data de aniversário do golpe de 64 um documentário exaltando o regime militar, também entrou nos carros alegóricos da Mangueira: amontoados de livros, tendo à frente Hildgard Angel, filha de Zuzu Angel e Stuart Angel, torturado e assassinado na ditadura, mostra que seus nomes ainda vivem na memória daqueles que sobrevieram à um regime de perseguição à esquerda, torturas e execuções. Enquanto Bolsonaro e seus filhos, junto à grande parte da cúpula de seu governo formado por militares, homenageiam torturadores como Coronel Brilhante Ustra, a Mangueira invade a Sapucaí com força retomando o cruel passado da ditadura militar no Brasil.

Se o slogan de Bolsonaro é “Brasil acima de tudo”, ostentando elementos patriotas como as cores e a bandeira do país, para mangueira nossa bandeira e nossa história jamais será das classes dominantes, que falsificam e subjugam nos livros de história a luta contra a escravidão e contra a ditadura militar: nossa bandeira é daqueles a quem de fato pertence nossa história: os negros, os índios e os pobres. Frente aos ataques econômicos - especialmente a reforma da previdência - políticos e ideológicos que o governo Bolsonaro busca travar, Mangueira põe com cores e palavras uma história de luta




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