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A crise do Podemos se aprofunda com purgas e acusações

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

quinta-feira 17 de março de 2016| Edição do dia

Na semana passada renunciaram dez cargos do Conselho Cidadão de Madri, uma ação de pressão para buscar a saída do secretário geral do Podemos desta comunidade, Luis Alegre, um homem de Pablo Iglesias (desde que abandonou na primeira hora do Podemos seus ex-companheiros da Esquerda Anticapitalista).
Os que renunciaram questionando a “deriva” do órgão de direção madrilenho são afins a Íñigo Errejón, o número 2 do Podemos. A crise interna, em meio às negociações das eleições e as tentativas do Podemos de retomar as negociações com o PSOE, atraiu todos os olhares e serviu de bandeja um banquete para os grandes meios de imprensa.

Pablo Iglesias e Errejón tentaram esconder os rachas internos nas redes sociais com mensagens pouco críveis de apoio mútuo, mas a resposta de Iglesias chegou nesta terça-feira com a destituição terminante de Sergio Pascual, Secretário de Organização do Podemos. Iglesias passa a assumir agora todas suas funções, às quais se somam as que já tem como Secretário Geral.

“No Podemos não há nem haverá correntes nem facções que compitam pelo controle dos aparatos e dos recursos”, sentenciava Pablo Iglesias, decidido a cortar pela raiz sem anestesia todos aqueles grupos que possam competir pelo “controle dos aparatos”.

À crise desta semana se soma a que arrastam comunidades como Cantabria, Galicia, Euskadi e Catalunha.

A sequência de renúncias, cartas públicas e acusações cruzadas, com muito ar de disputa de apparatchiks e métodos de Secretário Geral todo poderoso, são expressão de uma aguda crise no Podemos.

Mas onde está a semente desta crise? Como já escrevemos em outro artigo, Podemos – como também o Syriza – é, em última instância, um epifenômeno do desvio e posterior bloqueio do processo ascendente da luta de classes posterior à crise, que poderia ter se desenvolvido se as direções burocráticas do movimento operário aliadas aos partidos tradicionais e os aparatos reformistas não tivessem impedido. Por isso, o Podemos era expressão política e ao mesmo tempo negação do processo de mobilização e descontentamento social que se abriu nos últimos anos contra as consequências da crise capitalista.

No entanto, diferente do reformismo clássico, em que prevalecia uma estrutura de partido e um profundo enraizamento social na classe trabalhadora e nos setores populares, o Podemos surge como uma organização ampla, tributária da videopolítica e dependente de figuras midiáticas como Pablo Iglesias.

Esta fisionomia permitiu à chefatura do Podemos gozar de uma ampla margem de manobra desde sua fundação, mediante uma brutal autonomização “da cúpula” em relação “à base” (os famosos e cada vez mais desaparecidos “círculos”). Um processo coroado na Assembleia de Vista Alegre, em que Iglesias, Errejón e Monedero tomaram o controle absoluto da organização, impondo uma acelerada moderação de seu já limitado programa inicial, um discurso populista e um método plebiscitário de votações online para a tomada de decisões.

Neste caminho, lembremos, Iglesias fulminou seus sócios iniciais da Esquerda Anticapitalista, impondo a eles sua dissolução como partido (no movimento “Anticapitalistas”) para seguir integrados ao Podemos. Uma rendição incondicional que os seguidores de Urbán e Teresa Rodríguez não só não combateram, abstendo-se de apresentar uma só batalha política séria contra a nascente burocracia dirigida por Iglesias, senão que, ainda pior, santificaram com um pacto em Andaluzia.
Iglesias, Errejón – e no seu momento também Juan Carlos Monedero, “o breve” –, saíram de Vistalegre com o convencimento de que podiam “atacar” eleitoralmente La Moncloa [casa de governo na Espanha – nota do tradutor] em um ano, superestimando ao infinito as capacidades performativas de um discurso cada vez mais moderado – para atrair votos do espaço de representação socialista – e negando de cara a mobilização e a luta de classes como terreno de disputa política.
Os êxitos nas [eleições] municipais pareceram confirmar a aposta, mas foram uma miragem, dada a legislação eleitoral espanhola. Nas grandes cidades se avançava, mas a reacionária Lei Eleitoral Estatal penaliza, e muito, a divisão de cadeiras se se vai mal nas províncias menos povoadas. Daí que os excelentes resultados eleitorais do 20D para uma formação nascida pouco mais de um ano antes foram insuficientes para realizar a ultrapassagem sobre o PSOE.

Mas a culpa de estragar a festa do Podemos não é só da Lei Eleitoral. Há uma razão mais de fundo: a passivização social está permitindo ao PSOE e ao Ciudadanos, a ala direita da “segunda transição” que promove Iglesias, passar à ofensiva às custas dele.

O fracasso da tentativa arrogante de impor ao aparato do PSOE um governo de coalizão com vice-presidência e ministérios incluídos – arrogante não porque os social-liberais de Sánchez e companhia mereçam gestos de humildade, senão por sua incapacidade de medir a relação de forças –, deixa o Podemos em uma “encruzilhada”: aceitar ser coadjuvante de uma regeneração light do decadente Regime de 78, pactuando com o PSOE em más condições; ou jogar-se a um segundo round eleitoral com a ilusão de que a relação de forças parlamentárias mude e sobrevenha um pacto que o tenha como grande artífice da “segunda transição”.
As manobras de Errejón, abrindo uma crise interna no pior momento, expressam seu desespero em pactuar “sem condições” com o PSOE, frente aos perigos de ir a um segundo round em que o resultado poderia ser ainda pior. Uma aposta arriscada, perigosa e que mostra a alergia deste setor a qualquer traço discursivo à esquerda (como os que mostrou Iglesias em seus discursos parlamentários que tanto incomodaram o frugal Errejón e seus seguidores), organizativa (com alguma medida de maior protagonismo aos círculos, ainda que seja para ganhar peso estrutural em setores sociais) e nem falemos de mobilizadora.

Iglesias reagiu com um golpe da mão, algo esperado por outro lado, tanto por sua personalidade de megalomaníaco como seu papel de pequeno bonaparte (sancionado pelos estatutos de Vistalegre). Mas não nos equivoquemos, esta ação não responde a um giro “à esquerda” contra o moderantismo de Errejón, senão que a uma tentativa de impor sua autoridade política e manter o controle da própria negociação com o PSOE. Não por acaso, depois de despachar Pascual, a imprensa informava da reunião privada acordada entre Pablo Iglesias e Pedro Sánchez para retomar as conversas.

Não, no Podemos não há dois projetos políticos nem ideológicos enfrentados, uma ala “radical” (Iglesias) contra um ala “moderada” (Errejón). Nem muito menos três, como vem ventilando a imprensa dando ar à corrente Anticapitalistas, que a única coisa que demonstrou até agora é sua incapacidade para apresentar um projeto político independente do reformismo.

Tanto Iglesias como Errejón, com o vergonhoso consentimento da Anticapitalistas, defendem um programa e uma estratégia de reforma do capitalismo nos marcos da democracia liberal, apelando a uma mistura eclética de ideias extraídas do arsenal do eurocomunismo, a velha socialdemocracia e o pós-marxismo de Laclau.

Não está claro como evoluirá a crise do Podemos, se continuarão as “purgas” ou se haverá a fumaça da paz. Tampouco se sabe como será o novo round de negociações com o PSOE.

O que sim está claro é que, nem sendo coadjuvante da regeneração do Regime de 1978, nem apostando em novas eleições com a esperança de pactuar em melhores condições com o PSOE, o Podemos poderá ser uma alternativa para a resolução íntegra e efetiva de todas as reivindicações democráticas e sociais pendentes. Porque para isso falta pôs em prática uma estratégia que se enfrente com os poderes fáticos do regime capitalista espanhol, e não que busque novos “compromissos históricos” para salvá-lo.




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