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Punhalada de Pablo Iglesias: menos de 15% de participação nas primárias do Podemos

A participação nas primárias para eleger o candidato do Podemos à Moncloa e aos integrantes das listas ao Congresso e ao Senado, são muito inferiores a outros processos de consulta, como a aprovação dos Estatutos em outubro passado, quando votaram 54% dos militantes.

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

sexta-feira 24 de julho de 2015| Edição do dia

Fotografía: EFE Luca Piergiovanni

A poucas horas de terminar o processo, que acaba nesta quarta-feira (22) às 23h59, votaram apenas 14,6% do total, pouco mais que 56.000 pessoas, dos mais de 384.000 inscritos no partido roxo com direito a votar em suas consultas internas.

O Podemos reconhece que o censo de “militantes”, que se inscrevem pela internet, não está atualizado. Algumas fontes calculam que menos da metade das contas estão inativas. A cúpula do partido, no entanto, se negou sistematicamente à depuração deste total, como exigiram diferentes setores críticos dentro da formação.

Devido às crescentes críticas sobre o método blindado de primárias proposto por Pablo Iglesias – e aprovado quase por unanimidade no Executivo e no CC do partido –, o Podemos fez coincidirem as primárias com a convocatória a um referendo sobre a estratégia da direção para “confluir” com outras forças políticas nos âmbitos regionais para as eleições gerais.

No entanto, o referendo foi visto por amplos setores como uma nova “manobra de cima” da direção do Podemos, para dar uma aparência de democracia interna quando na realidade se aprofunda o método plebiscitário que foi a marca da política de Iglesias desde a formação do partido na Assembleia de Vista Alegre. A escassa participação pareceu confirmar o rechaço frontal da maioria da militância a este mecanismo burocrático.

Queda progressiva da participação

A escassa participação, entretanto, não foi uma surpresa para ninguém. A não ser talvez para a direção do Podemos, que, com certo desespero pelos números que mostrava o sistema virtual de contagem de votos, no último dia da votação começou a mover nas redes sociais um vídeo animando as pessoas a votarem, no qual aparecem Iglesias, Errejón e outros dos principais referentes do aparato do Podemos.

Desde a fundação do Podemos, a participação foi caindo progressivamente cada vez que os simpatizantes foram convocados a votações virtuais, na maioria dos casos, para legitimar a política da direção.

O máximo de participação registrado até agora aconteceu durante a Assembleia fundacional de Vista Alegre, que decidiu os documentos políticos, organizativos e éticos da formação, culminando seu processo de constituição como partido. Nesta ocasião participaram 54% dos inscritos. Mas desde lá, o nível começou a cair sem solução de continuidade.

Na ocasião da eleição de Iglesias como secretário-geral, em novembro passado, já a participação caíra a 42%, enquanto que no processo de formação das listas para as eleições regionais de 24 de maio, só participaram 20% dos simpatizantes.

Agora, a poucas horas de terminar o processo de primárias, tudo indica que o nível de participação apenas estará perto de 15%. Apesar destes dados, o secretário de organização do Podemos, Sergio Pascual, qualificou de positivos os primeiros resultados de participação, nos marcos de que os inscritos ao partido já foram convocados a votar cinco vezes no último ano.

Em uma tentativa de justificar a situação, Pascual reconheceu que a escassa votação pode ser devido a que Iglesias não tinha competidores de peso na eleição. Um curioso argumento, quando o próprio sistema de primárias foi desenhado de tal modo que justamente impedisse que houvesse rivais de peso. O mesmo pode dizer-se de que "as datas não acompanham", outra justificação que deu Pascual, quando o cronograma foi decidido unilateralmente pela direção do Podemos.

Críticas, renúncias e debates programáticos

As primárias do Podemos aconteceram nos marcos de uma dura polêmica pelo regulamento blindado imposto desde cima e a negativa de Iglesias a impulsionar uma candidatura de convergência. Além da lista oficial – armada desde cima e na qual se incluiu até a um guarda civil–, participaram outras 8 listas, mas nenhuma impulsionada pelos principais setores críticos.

Diversos setores críticos do partido expressaram nas últimas semanas seu mal-estar com o sistema de votação. Um importante setor se agrupou em torno ao manifesto “Podemos é Participação”, ao que aderiram cerca de 8.000 pessoas e 950 cargos regionais e municipais do Podemos, entre eles os deputados europeus Lola Sánchez e Miguel Urbán e as secretarias gerais de Andaluzia e Navarra, Teresa Rodríguez e Laura Pérez.

A iniciativa pediu um novo sistema proporcional e um referendo interno para consultar a opinião dos afiliados. No entanto, foi ignorada sem piedade pela cúpula do partido. Frente às críticas internas, Iglesias respondeu faz poucas semanas que se os críticos queriam um referendo, deveriam reunir 35.000 assinaturas, segundo ditam os mesmos estatutos inflados que hoje a direção do Podemos utiliza como argumento para justificar a punhalada das primárias.

Na Galícia, Alicante, La Rioja, Euskadi e outras comunidades, já aconteceram várias renúncias de cargos internos – no caso da Galícia, até a metade da comissão de garantias, com duras críticas de “obscurantismo” – indignados com a política da direção do Podemos.

No entanto, as críticas políticas mais duras vieram de outros setores minoritários, que expressam diferenças muito mais pronunciadas no terreno programático que os tímidos questionamentos feitos por Sánchez, Rodríguez, Urban e outras figuras “críticas” do Podemos.

Um destes setores é o representado por Andaluzia Desde Baixo, que em um comunicado expressou seu “total desacordo com o calendário proposto pelo Conselho Cidadão Estatal, que impede de forma injustificada a muitas/os companheiras/os a possibilidade de concorrer às primárias devido à escassa margem temporal prevista para as mesmas.”

“O objetivo destas primárias é a imposição de um projeto político que ninguém teve a oportunidade de debater e construir na base do Podemos”, diz o comunicado, que reivindica a convicção de seguir lutando por “um programa de ruptura cujas medidas suponham uma verdadeira mudança para a maioria social e não só uma ‘mudança’ dentro do regime atual”.

No documento, Andaluzia Desde Baixo solicita ao Conselho Cidadão Estatal do Podemos que “retifique o modelo de primárias”, abra um “processo de consulta a toda a organização para decidir entre todxs que modelo de primárias necessitamos” e “um processo participativo para a elaboração do programa político a defender nas eleições gerais”. Ao não atender este “clamor das bases”, termina o escrito, “desde Andaluzia Desde Baixo (Andamos) não participaremos do mesmo”.

Também o círculo Trabalhadorxs de Madrid expressou duras críticas ao modelo de primárias da direção do Podemos. Em um comunicado publicado em sua página de Facebook, expressa seu rechaço a “um modelo antidemocrático, que prioriza a eleição ‘a dedo’ pela direção do Podemos, que será ratificado pelo método das listas planas, em contraposição a regras de jogo democráticas para todos os participantes.”

Também questiona que “a lista apresentada por Pablo Iglesias incorpora pessoas que foram totalmente alheias à formação. Mas mais grave é a adesão de Juan Antonio Delgado, membro da reacionária Guarda Civil, um corpo policial militarizado destinado a exercer uma dura repressão da que os trabalhadores em luta, os ativistas sociais e os imigrantes somos suas principais vítimas. Uma pessoa nefasta que defendeu o uso de balas de borracha para a guarda civil, comparando sua utilização como se fosse um ‘bisturi para um cirurgião.”

Para os integrantes do “Podemos Trabalhadorxs”, o modelo antidemocrático do Podemos “está profundamente relacionado com a virada ‘ao centro’ político por parte da direção do Podemos, abandonando qualquer referência a um programa de transformação social, e substituindo por propostas moderadas de adaptação ao regime de ‘78.”

“Frente ao projeto centralista da direção, frente ao autoritarismo de Pablo Iglesias e sua equipe e frente à impossibilidade de exercer uma oposição sob as mínimas garantias e condições, o Círculo Podemos Trabalhadorxs manifesta publicamente seu rechaço a este processo de primárias e chama a todas aquelas pessoas que compartilhem esta crítica a boicotá-las, nos negando a votar em eleições das quais já se sabe de antemão o resultado”, conclui o comunicado.

Ambos setores, Andaluzia Desde Baixo e Podemos Trabalhadorxs, junto a outros círculos e referências de setores críticos do Podemos, alguns deles organizados em Bases Podemos, realizaram em Madrid um Encontro estatal de círculos do Podemos sob o lema “Desde baixo Podemos”, no qual se destacou “a deriva que tomou o projeto do PODEMOS até a transformação em uma maquinaria de guerra eleitoral, com um discurso ambíguo, uma escassa democracia interna e um retrocesso no programa político, uma moderação política que busca ‘ocupar a centralidade do tabuleiro’ com aproximações à ‘casta política’ do PSOE e setores do poder, junto com uma centralização organizativa que deixou os círculos impedidos de todas as decisões e as bases cada vez mais descontentes.”

Nesta reunião resolveu-se a convocatória a “um novo encontro de círculos ‘Desde baixo Podemos’ para 5 de setembro”, cujo “debate central será que programa necessitamos, um programa de ruptura com o regime e o sistema econômico capitalista”.




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