A profunda crise por trás do Brexit

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Por Claudia Cinatti

Brexit ou não Brexit? Essa é a questão. O dilema shakespeariano parece mais atual do que nunca. Atualmente o Reino Unido está tomado pelo caos. A derrota do plano de saída negociada da União Europeia, conhecido como “soft Brexit”, deixou o governo conservador de Theresa May em xeque e o seu partido à beira da ruptura. May sobreviveu a um voto de não-confiança. Mas não lhe sobra nada.

O calendário indica que restam pouco mais de dois meses para o 29 de março. O prazo máximo para concretizar o divórcio do Reino Unido do bloco europeu, previsto pelo Artigo 50 do Tratado de Lisboa. Mas ninguém pode afirmar com certeza se vai avançar para um “hard brexit” – o cenário mais temido tanto pela grande burguesia britânica quanto pela própria União Europeia -, ou se será retomada uma negociação com a União Europeia e, menos ainda, se conseguirão chegar a um consenso em um panorama no qual prima a tendência aos extremos.

O triunfo inesperado do “leave” no referendo de junho de 2016 colocou o partido histórico da classe dominante perante a tarefa de levar à frente o divórcio da UE, da qual o capitalismo britânico tem se tornado cada vez mais dependente. A derrota auto-imposta deixou colocada uma contradição da qual é praticamente impossível sair sem consequências, como o evidencia o governo de Theresa May.

Por trás da derrota do “soft brexit” de May, que nos fatos significa colocar um pé fora da UE, é impossível não ver a mão de Donald Trump, que aproveita a aproximação com os “brexiters” mais duros para reforçar sua política hostil ao bloco europeu. Inclusive Steve Bannon, ideólogo e estrategista do “trumpismo”, tem tentado estabelecer seu próprio projeto político (The Movement) em vários países da UE, com o objetivo de oferecer serviços de consultoria eleitoral aos partidos euro-céticos da extrema direita para as eleições do Parlamento Europeu que irão acontecer em maio.

Ou, dito em categorias teóricas, o Reino Unido é um dos países centrais onde a crise capitalista de 2008 se transformou em crise orgânica aberta. Existem pelo menos três dimensões centrais que expressam a profundidade dessa crise.

A primeira é de caráter econômico e geopolítico. Desde a década de 1970, e, principalmente desde os anos de Margaret Thatcher, a classe dominante britânica assumiu que tinha que se inserir no marco comum europeu, o que não só significava benefícios econômicos, mas também, junto à aliança estratégica com os Estados Unidos, permitia dissimular o seu status de potência decadente. Durante décadas o Reino Unido usufruiu de um raro privilégio de estar fora/dentro: fora da eurozona e dentro do processo político e econômico da UE. Isso teve consequências diversas: porque aumentou a dependência em relação aos mercados europeus, mas ao mesmo tempo foi funcional à reconversão thatcherista para uma economia baseada nos serviços e nas finanças.

Por isso se deu a situação relativamente anômala de que, apesar de não ter adotado o euro, a City de Londres foi o principal centro financeiro da União Europeia. Essa localização “ideal” do capitalismo britânico é o que não existe mais, como parte da tendência mais geral de esgotamento da globalização neoliberal.

Alguns funcionários “tories” cansados ainda veem no Brexit a via para voltar ao velho império britânico. Esse é o caso do secretário de defesa, Gavin Williamson, que numa entrevista publicada no jornal Telegraph disse que esse era o “melhor momento” desde o fim da Segunda Guerra Mundial (como serão os piores?) e que, livre do controle de Bruxelas, a Grã Bretanha voltaria a cumprir um papel central no cenário mundial, e inclusive abriria novas bases militares no Caribe e no Sudeste asiático.

Mas essa saudade imperial está muito longe do peso menor que tem hoje o Reino Unido na economia e na geopolítica mundial. É por isso que os analistas mais lúcidos comparam a crise aberta pelo Brexit com o momento da guerra no Canal de Suez, em 1954. A negociação humilhante que a União Europeia submeteu o Reino Unido parece o equivalente ao banho de realidade que a política dos Estados Unidos deu naquele momento, e que foi uma tomada de consciência automática de que a decadência britânica é irreversível.

A segunda dimensão é a da unidade estatal. Alguma variante do “hard Brexit”, cuja expressão extrema é a ruptura sem nenhum acordo, quase que inevitavelmente reativaria o independentismo escocês. Como já é sabido, Escócia votou esmagadoramente a favor de permanecer na UE, e já anunciou que convocará um segundo referendo pela independência.

O outro grande fantasma é o ressurgimento do conflito com a Irlanda do Norte. O plano derrotado de Theresa May incluía um mecanismo, chamado de “backstop”, que dito de maneira simples, permitiria manter aberta a fronteira entre Irlanda do Norte e a República de Irlanda, que é membro da UE. Justamente esse era um dos pontos mais questionados pelos “brexiters” mais duros, e o custo disso para May foi a aliança de governo com o reacionário Partido Democrático Unionista irlandês.

A terceira dimensão é a política. No imediato, a crise mais aguda é a do partido conservador. May tenta alinhar o círculo, isto é, manter a unidade dos “tories”. Por hora parece uma missão impossível. É verdade que o limite do partido conservador foi o de evitar a queda de May e garantir assim uma vitória para o Partido Trabalhista, mas a tendência que prima é a de aprofundar a polarização e a ruptura.

O trabalhismo, sob a liderança de Jeremy Corbyn, tem capitalizado a crise dos conservadores. Mas, inclusive dando por superada a crise do blairismo, ainda está sob uma pressão considerável.

No referendo de 2016, Jeremy Corbyn votou favorável ao “remain” cobrindo o nariz, praticamente não fez campanha, e é sabido que sua sensibilidade o localiza na tradição euro-cética de esquerda que historicamente teve o Partido Trabalhista. Sua base eleitoral é transversal: Por um lado, a juventude organizada em Momentum, esmagadoramente pró UE e que reage contra a xenofobia, as políticas anti-imigrantes e anti-refugiados que hegemonizaram o Brexit, através de partidos de extrema direita como o UKIP. Por outro, a base do trabalhismo vem dos setores populares que votaram maioritariamente pelo “leave”, o que permitiu o trabalhismo ganhar em distritos onde ganhou o UKIP e nos quais tinha se imposto o Brexit.

Até agora, Corbyn conseguiu resistir com sucesso à enorme pressão da sua base progressista-liberal para que se pronuncie por um segundo referendo e tem se concentrado em tentar deslocar May, mas, com a perspectiva de eleições antecipadas por enquanto fora da agenda, a demanda de submeter o Brexit à uma nova votação pode estar colocada com mais força e pode dividir as fileiras trabalhistas.

A UE, que por enquanto mantem uma vantagem na negociação e tenta impor seus termos, também sentiria o impacto da saída caótica da Grã-Bretanha. Existem sinais de que poderia se estender o prazo para além do 29 de março para dar tempo a May para renegociar outro acordo com apoio parlamentar. Mas esse resultado não está garantido de forma alguma. Inclusive os prazos se esgotam, pois até maio, mês das eleições para o Parlamento Europeu, a situação britânica terá que estar resolvida.

Ainda que seria a pior opção para a estabilidade burguesa, não podemos descartar que termine se colocando uma saída não negociada. Sem dúvidas, um “hard Brexit” seria uma má notícia para o bloco europeu, que vem sendo questionado pela emergência generalizada de formações de extrema direita e passa por uma crise de liderança com o esgotamento do ciclo de Angela Merkel na Alemanha e a crise de Emmanuel Macron na França. Nenhuma saída parece simples. O interessante é se a crise dos de cima acelera a experiência de uma nova geração que acordou pela esquerda para a vida política com a certeza de que o capitalismo tem pouco ou nada para oferecer.

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