A luta contra Bolsonaro: frente “democrática” ou frente única operária?

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Ilustração: Juan Chirioca

Por Fernando Pardal

A cada dia, Bolsonaro vem deixando mais claro que seu futuro governo tem como principal objetivo seguir à risca os deveres que os grandes capitalistas exigem dele, com o objetivo de descarregar os custos da crise sobre os ombros dos trabalhadores e do povo pobre, preservando seus lucros milionários; bem como atuar subordinado aos interesses do imperialismo estadounidense em retomar na principal economia da América Latina a influência e o predomínio que veio perdendo para a China. E o governo eleito não pretende esperar até janeiro para começar, pois, mal se encerrou a apuração e Temer se apressou em demonstrar toda sua boa vontade para “ajudar” Bolsonaro a passar ainda esse ano o principal dos ataques: a reforma da previdência.

Além disso, Paulo Guedes já está fazendo suas reuniões para articular outra prioridade do trator do governo Bolsonaro sobre nós: a privatização das estatais. Moro ganhou seu superministério para levar para dentro do governo os métodos da Lava Jato, de autoritarismo e arbitrariedade judicial, para garantir “na marra” a continuidade dos ataques.

Não é novidade para ninguém que Bolsonaro não era o candidato preferido do judiciário, da Lava Jato, nem da maior parte dos grandes capitalistas, que contavam que Alckmin decolaria e poderia ser o presidente eleito nas urnas para levar adiante os ajustes. Mas, frente ao naufrágio dos tucanos e a ascensão de Bolsonaro – garantida com a manipulação da eleição que prendeu Lula e o impediu de concorrer – todos os representantes da classe dominante não demoraram nada para se realinhar por trás do ex-capitão, e, ao mesmo tempo em que usavam seus métodos para conter os arroubos direitistas desnecessários e arriscados de seu novo parceiro, impunham que essa aliança teria como prioridade executar seus planos à risca – o que se mostra na visível “domesticação” do discurso de massas de Bolsonaro, em suas promessas de fidelidade à constituição, etc.

É claro que se trata de uma aliança instável e arriscada, com ruídos a todo momento (como já expressaram industriais descontentes), mas o fundamental é a seguinte lição: a classe dominante sabe – em que pese suas diferenças e disputas internas – se unificar em torno de um programa mínimo comum e de objetivos fundamentais. Esses são arrancar nossos direitos e descarregar os custos da crise sobre nossos ombros, levando adiante os ataques que Temer não pôde concretizar.

Com nossos inimigos reunidos em torno de um fim em comum, precisamos nós, os trabalhadores, que são o principal alvo dos ataques, nos unificarmos com o objetivo de combatê-los. Após a eleição, nota-se em toda parte a vontade de se unir para enfrentar Bolsonaro. Mas a questão fundamental é: como? Queremos aqui retomar lições da tradição revolucionária para debater esse tema.

A “Frente Democrática” petista e a “Frente Popular” stalinista

A postura do PT após as eleições é a expressão de uma concepção histórica desse partido sobre como fazer política. Por um lado, tanto Lula como Haddad afirmaram que era hora de “esperar a poeira baixar” e ter “calma” . Por outro lado, o vigoroso braço do petismo no movimento sindical, expresso pela CUT, se vangloriou de que “Lula e Haddad consolidaram-se como as grandes lideranças no campo democrático-popular”.

O PSOL, dando as mãos para o PT nessa linha de oposição, vem atuando na “Frente Povo Sem Medo” com a perspectiva de legitimar as eleições manipuladas pelo judiciário e também com a perspectiva de aprofundar uma “frente parlamentar progressista” que já era apontada no “Manifesto de Fevereiro”, que assinaram junto a partidos burgueses como PDT e PSB.

O fundamental dessa estratégia de oposição desenhada pelo PT e à qual o PSOL se subordina foi apontado com clareza por Marilena Chauí e André Singer em um grande evento realizado na USP, cujo comparecimento massivo atesta que há grande disposição de resistência e uma busca pelos caminhos para fazer frente ao governo de Bolsonaro e seus ataques. Uma “Frente Democrática” e uma “oposição institucional” talvez sejam os termos que melhor sintetizam as perspectivas que apontam à juventude, aos trabalhadores e a todos os que desejam resistir. Mas aí não há nenhuma novidade, e pode-se facilmente retraçar a genealogia dessa estratégia no que ficou conhecido como “Frente Popular” na linguagem da Internacional Comunista (Comintern) em seus anos de degeneração stalinista.

A Frente Popular – uma política imposta pela burocracia que dominava com mãos de ferro o movimento operário internacional pela via da direção de grande parte dos sindicatos e dos então poderosos Partidos Comunistas ao redor do mundo – foi apresentada como uma tática para combater o ascenso do fascismo na década de 1930. Veio como uma brusca guinada direitista da burocracia stalinista após todo um período de ultra-esquerdismo sectário do chamado “terceiro período”, que pode ser bem representado na concepção então defendida pela Comintern que chamava a Social-Democracia (os partidos reformistas que ainda contavam com a confiança e a militância ativa de imensos batalhões de trabalhadores) de “social-fascista”, dizendo que eram “irmãos siameses” dos partidos fascistas e nazistas.

A Frente Popular, por outro lado, era simetricamente cega em relação à sectária política anterior, pois não tinha como objetivo a unidade das fileiras operárias com uma política independente de classe, capaz de dar uma resposta estratégica, programática e mesmo militar (de auto-defesa) frente ao avanço avassalador do fascismo. Ela na verdade colocava as organizações operárias, os partidos e todos os trabalhadores que os tinham como referência subordinados a uma “frente democrática” com os setores “democráticos”, ou seja, os setores “não-fascistas” da burguesia. Assim, todo elemento de radicalidade no programa, no discurso, nas ações deveria ser suprimido rigorosamente em nome de não “assustar” os aliados burgueses. Dividia-se a luta dos trabalhadores em uma etapa de defesa da democracia, com métodos parlamentares e uma unidade em torno de um programa democrático-burguês; e deixava-se para um futuro que nunca chegaria o momento da luta pela revolução socialista, com seu programa e a democracia operária que era a forma social capaz de lhe dar vida.

A Frente Única Operária como estratégia para lutar contra os ataques

Essa concepção era o oposto da tática da Frente Única Operária desenvolvida pela Comintern em seus primeiros congressos, antes da burocracia lhe sufocar. Sobre a Frente Única, Trotski escreveu em 1922: “a questão da frente única, tanto por sua origem como por sua essência, não é em absoluto uma questão sobre as relações entre as frações parlamentares comunista e socialista, entre os comitês centrais de um partido e outro, entre a Humanité e o Populaire [Ndt: L’Humanité era o jornal do Partido Comunista Francês e Le Populaire o do Partido Socialista.]. O problema da frente única – apesar da divisão inevitável nessa época entre as diversas organizações políticas que se fundamentam na classe operária – surge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma frente única na luta contra o capital.”

Tratava-se de uma tática para unificar os operários das duas grandes organizações da classe nesse momento: os partidos socialistas (reformistas) e os comunistas (revolucionários) com um objetivo em comum – combater a ofensiva da burguesia. Ou seja, o elemento defensivo era colocado em primeiro plano, mas não se via nisso nenhum “abismo” entre um momento defensivo – no qual seria necessário abrir mão de críticas e se subordinar a um programa de conciliação de classes – e um momento ofensivo que jamais viria.

Pelo contrário, a Frente Única não é apenas uma tática defensiva, ela possui três aspectos: considerando o aspecto de manobra, a frente única consiste em uma aliança circunstancial com adversários políticos para um fim comum; como tática, ela visa travar um combate em torno de uma questão pontual (como derrotar as reformas de Temer/Bolsonaro, por exemplo); mas ela também tem uma finalidade estratégica, de desmascarar as direções conciliadoras e reformistas que, por seu caráter não revolucionário, jamais levarão a luta até seu fim, demonstrando que não estão à altura de estar à cabeça das lutas decisivas dos trabalhadores pelos seus objetivos. Assim, os revolucionários podem ampliar sua influência sobre a base das organizações reformistas. Para tanto, a liberdade de crítica precisa ser preservada, e a aliança tática não implica em nenhum tipo de subordinação política. “Marchar separados, golpear juntos”, foi uma fórmula com a qual Trotski sintetizou a essência da Frente Única Operária.

É precisamente porque a Frente Única aponta em um sentido que transcende o que direções com uma estratégia de conciliação de classes – como é o PT – estão dispostas a fazer, que elas farão de tudo para evitar sua concretização. Procuram, em seu lugar, apresentar uma estratégia parlamentar com um programa que se subordine àquilo que consideram “viável” dentro da “oposição institucional” e com aliados burgueses. Dentro dessa perspectiva, hoje, lutam para ver se quem irá dirigir essa “oposição institucional” será Ciro Gomes ou Haddad; em qualquer dos casos, o programa não irá além do que está disposta a “burguesia democrática”, e aí pode-se ir tão longe quanto para incluir alas do PSDB como FHC, ou MDBistas como Roberto Requião e Renan Calheiros.

Mas, os trabalhadores e a juventude que desejam sinceramente combater Bolsonaro e seus ataques precisam se colocar a questão: o que uma aliança assim nos oferece, se não a preparação de novas derrotas e traições? Além da derrota frente ao golpe institucional e a vitória de Bolsonaro, a história nos oferece inúmeros exemplos de tragédias resultantes das políticas de Frente Popular, como o apoio do PCB a Jango nos anos 1960, a UP de Allende no Chile, a Frente Popular na França, o apoio do PC a Roosevelt nos EUA e a monstruosa tragédia da Frente Popular na Espanha que ajudou a afogar em sangue uma das maiores revoluções operárias da história.

Para conseguir impor sua perspectiva de uma “frente democrática”, o método da chantagem é a arma central. O balizador do programa em comum é até onde vai o nosso “aliado” mais à direita, e a punição para ir “além dos limites” é que Bolsonaro e a extrema-direita “vão vencer”. É com isso, por exemplo, que Marilena Chauí condena as jornadas de junho de 2013 como o “início do golpe”: se a juventude não tivesse se rebelado e se mantido dentro dos limites “progressistas” e “institucionais” que o governo do PT impunha, nada disso teria acontecido; agora, quer nos dar essa “lição” para dizer, junto com Lula e Haddad, que precisamos “esperar a poeira baixar” e então compor essa frente parlamentar e institucional para fazer uma oposição a Bolsonaro dentro do que é “razoável”. Para apontar a perspectiva de “sucesso” dessa estratégia, André Singer foi tão longe quanto dizer que a medida do STF – o mesmo que vem sendo o pilar das arbitrariedades que elegeram Bolsonaro – de condenar a censura nas universidades foi a primeira “reação institucional” à vitória de Bolsonaro. Querem nos fazer esquecer que foi justamente a aposta nessas “vias institucionais” que nos trouxe até aqui.

A Frente Única Operária tem seu centro de gravidade em outro lugar: nas organizações de massas, como os sindicatos e as entidades estudantis. Aposta nos métodos das greves, paralisações, atos de rua, e nos trabalhadores e na juventude como sujeitos políticos, onde, a partir de cada assembleia, de cada comitê, debaterão coletivamente os rumos do movimento, suas táticas de combate. Enquanto o petismo quer usar ações de rua pontuais e extremamente controladas como um apoio colateral à oposição parlamentar junto a seus “aliados” burgueses, os revolucionários defendem uma unidade de todos os trabalhadores para poder derrotar os ataques na arena onde reside nossa verdadeira força: na paralisação da produção e da circulação de capital. Uma pequena amostra disso nós vimos no 28 de abril do ano passado. Precisamos exigir da CUT e CTB que coloquem seu peso para construir essa luta, impondo que todas as organizações operárias e estudantis se unifiquem em torno do combate em comum aos ataques a nossos direitos.

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