RACISMO E CAPITALISMO

Silvio Almeida no Roda Viva: porque é necessário uma saída anticapitalista para o racismo?

O filósofo e jurista Silvio Almeida foi entrevistado na última edição do programa Roda Viva. Nesse texto, aprofundaremos a reflexão sobre como a precarização do trabalho e as políticas de austeridade são parte de aprofundar o racismo estrutural, que precisa ser combatido através de uma forte unidade entre negros e brancos.

Odete Cristina

Belo Horizonte |@OdtCristina

quarta-feira 24 de junho| Edição do dia

Imagem: Reprodução / TV Cultura

O grito de Black Lives Matter e a luta contra o racismo e a violência policial está no centro da luta de classes internacional. Nos EUA, na Europa, no Brasil e em diversos países do mundo milhares de pessoas vão às ruas em meio a pandemia defender as vidas negras. Numa potente luta multirracial que vem questionando um dos pilares estruturantes desse sistema capitalista, o racismo. É nesse contexto que o programa Roda Viva entrevistou Silvio Almeida, doutor em filosofia e teoria do direito pela USP, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e da Universidade Mackenzie, professor visitante da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e presidente da Fundação Luiz Gama. Se colocando abertamente no campo do marxismo, o autor escreveu livros como “Racismo Estrutural” e diversas obras sobre filosofia, racismo e consciência de classe.

A entrevista repercutiu muito em todo país, pois, com o aprofundamento da crise econômica e sanitária fica claro como o racismo é um pilar estruturante do Estado brasileiro. Não só pelo ódio destilado contra negras e negros pelo governo racista de Bolsonaro e dos militares, mas pela constante violência policial que assassina a juventude negra como foi com Guilherme, João Pedro e tantos outros, porque são os negros aqueles que mais morrem pela Covid-19 e isso não se deve a nenhum fator genético, e especialmente porque a população negra é a mais afetada pela extrema precarização do trabalho que se aprofundou ainda mais durante a pandemia e com o agravamento da crise capitalista.

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Um dos pontos mais fortes da entrevista foi como Silvio Almeida ressaltou que a precarização do trabalho é um dos pilares do racismo estrutural, afirmando categoricamente que “não existe possibilidade de pensar em precarização do trabalho e ser antirracista". Num país onde Bolsonaro, STF e os golpistas aprovaram juntos a reforma da previdência, a reforma trabalhista e a ampliação da terceirização irrestrita essa afirmação precisa servir como um grande alerta de que na luta antirracista não podemos ter nenhuma ilusão naqueles que, diante da força da nossa luta, podem até dizer como palavras ao vento que são contra o racismo, mas na prática defendem e aprovam leis para garantir a escravidão do século XXI, precarizando ainda mais o trabalho e retirando direitos historicamente conquistados em nome dos lucros capitalista. A precarização do trabalho no Brasil tem rosto negro, especialmente das mulheres negras, e não começou agora, durante o governo do PT o número de trabalhadores terceirizados triplicou. Ser consequente com essa afirmação passa por lutar fortemente contra a precarização do trabalho em todas as suas formas e apoiar os processos de revolta que surjam contra essa situação, como é a importante paralisação internacional dos entregadores de aplicativos que vem sendo construída para o dia primeiro de julho.

O professor também ressaltou como não dá para ser antirracista e não defender o SUS. O Brasil possui 2,7% da população mundial, mas alcançou a triste marca de 11,5% dos mortos por coronavírus no mundo, isso sabendo da enorme subnotificação existente. Como já dissemos é a população negra aquela que mais morre por essa doença no Brasil, por isso, parte da nossa luta contra o racismo é uma luta em defesa do SUS, contra o absurdo teto no orçamento da saúde e da educação, e todas as políticas de austeridade que afetam sobretudo o povo negro. Para nós do Quilombo Vermelho a defesa do SUS passa também pela exigência de testes massivos, EPIs, contratação de profissionais de saúde e centralização de todo sistema de saúde público e privado, sob controle dos trabalhadores da saúde. Não é possível que a população morra pela falta de leitos na UTI pública, enquanto sobram vagas nos hospitais privados.

Muitos vibraram quando Silvio Almeida se colocou enfaticamente contra as políticas neoliberais, declarando que “ser antirracista é incompatível com a defesa de políticas de austeridade”. Compartilhamos desse pensamento e nos propomos a ir um pouco mais além, ser antirracista é incompatível com a defesa de um sistema de exploração e opressão como é o capitalismo. Neste sentido, em nossa visão, essa abordagem mais abertamente anticapitalista foi um ausente da entrevista. Vemos hoje como a barbárie capitalista leva a crises profundas, para milhares de pessoas a realidade é que se não morrem pelo vírus, morrem pela fome. E por isso, são obrigadas a trabalharem de formas cada vez mais precárias, sem sequer ter os equipamentos de segurança que protegeriam suas vidas, são obrigados a aceitar ataques profundos, como estamos vendo com o acelerado processo de precarização do trabalho diante da pandemia. Nesse cenário é claríssimo o fracasso das políticas neoliberais e de austeridade, no entanto, não é somente a face mais nefasta desse sistema que precisa ser combatida, a luta contra o capitalismo precisa se dar em todos os âmbitos.

Como o filósofo e jurista muito bem apontou o racismo é estrutural, e foi criado para justificar a manutenção de uma estrutura de poder. E para estarmos armados na luta contra essa estrutura de poder é preciso nomeá-la claramente e especialmente é preciso debater como podemos superá-la, algo que o professor não fez abertamente. O racismo foi criado como justificativa para a escravização de milhares de pessoas negras, pois se tratava de um lucrativo negócio que deu base para a acumulação primitiva do capital. E como o professor apontou, até hoje “existem certas camadas da economia em que o racismo é um grande negócio” e em outros casos “muito do que a gente está vivendo é resultado da fragilidade de uma sociedade que constrói instituições que tratam do racismo, mas não combate os elementos que dão forma e figura para o racismo, como a desigualdade econômica”. Portanto, a base para combater essa estrutura racista é também lutar contra esse sistema capitalista, que é baseado na desigualdade e se utiliza da opressão aos negros para aprofundá-la. Como dizia Malcolm-X “não existe capitalismo sem racismo”. Esse é um grande debate que precisa ser feito dentro do movimento negro e com todos aqueles que colocam na luta antirracista.

Não podemos acabar com algo que é estrutural se não formos à raiz do problema, e isso se combina com outra questão apontada, a representatividade, que não pode ser pensada no vazio como afirmou Silvio. Quando destacamos o papel das mulheres negras na liderança contra o racismo é preciso pensar que dentro do sistema capitalista, eu como mulher negra, me sinto muito mais representada pelas milhares de trabalhadoras que se insurgem em todo mundo contra a exploração e a opressão dos capitalistas, do que por Michele Obama, que sempre apoiou as políticas imperialistas dos Estados Unidos, enquanto seu marido bombardeava diversos países assassinando milhares de crianças, jovens, idosos e trabalhadores.

Silvio Almeida afirmou categoricamente que "sem os brancos, não é possível superar o racismo", e que essa unidade é fundamental. Como dissemos anteriormente, a unidade entre negros e brancos é parte da força da luta antirracista internacional, e um dos nossos grandes desafios é debater qual estratégia pode fortalecer essa potente aliança. O que para nós passa por defender uma estratégia baseada na luta da classe trabalhadora, unificando homens e mulheres, negros e brancos, numa luta contra o racismo e o capitalismo. Então para concluir, se “o que importa para gente é o futuro das gerações que vem depois de nós”, temos plena confiança de que esse futuro será construído por meio da luta unificada da classe trabalhadora e de todos aqueles que são oprimidos e explorados por esse sistema, como parte da nossa luta por uma revolução operária e socialista que possa emancipar o conjunto da humanidade. É com essa perspectiva que nós do Quilombo Vermelho atuamos em cada luta por justiça, contra o racismo e a violência policial, em cada greve e mobilização dos trabalhadores, da juventude e de toda população.




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