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Ranqueamento na Letras-USP: o vestibular dentro do vestibular

Diante de ataques do governo Bolsonaro, com cortes na educação, sucateamento das universidades e programas hostis, coloca-se em debate qual o projeto de educação que queremos. O ranqueamento da letras é um bom método?

segunda-feira 14 de outubro| Edição do dia

O governo Bolsonaro vem fazendo uma forte ofensiva contra a educação pública, atacando as universidades com o future-se, cortando investimentos para a educação e, na linha do Escola sem Partido, faz uma ofensiva ideológica contra o ensino de conjunto. Diante desse cenário, é muito importante fazer um debate sobre qual projeto de universidade que queremos, defendendo fortemente o direito à educação, mas questionando também a universidade que temos hoje. Nesse sentido, abrimos um debate sobre o Ranqueamento da letras e se esse é, de fato, o melhor método de ingresso nas habilitações.

O ingresso no curso de Letras na Universidade de São Paulo (USP) se dá por meio de um dos vestibulares mais excludentes que temos – a FUVEST – e também pelo ENEM, com um número de vagas mais reduzido. Após passar por esse filtro social, o estudante faz o Ciclo Básico, período no qual cursa disciplinas introdutórias e tem um panorama das subáreas do universo amplo das Letras.

No final desse período, os estudantes precisam passar por um processo chamado “ranqueamento”, que consiste em disputar com seus colegas de curso as vagas das habilitações desejadas, que podem ser uma das diversas línguas oferecidas ou Linguística. O critério para determinar quem pode entrar ou não em cada habilitação se dá pelas notas que os estudantes tiveram durante o primeiro ano letivo, fazendo com que diversas pessoas fiquem de fora da habilitação de seu interesse.

É muito interessante que exista um Ciclo Básico e que a habilitação específica não seja definida anteriormente no próprio vestibular. Isso garante ao estudante de Letras a oportunidade de imergir no universo da universidade antes de determinar os próximos anos, além de fomentar uma troca de experiências com os alunos veteranos. No entanto, é um problema que o critério para definir qual habilitação os alunos podem ou não cursar seja as notas. Pode parecer natural e lógico à primeira vista, mas não é.

Para usar um método como esse, a Universidade parte de uma concepção de que todos os estudantes estão tendo as mesmas condições de estudo e, por isso, aqueles com melhores resultados, são os mais merecedores. Na verdade, a realidade nas universidades é bem heterogênea: alguns podem se dedicar exclusivamente aos estudos e outros, enquanto tentam se formar no ensino superior, também trabalham, tendo menos disponibilidade de tempo para mergulhar nas extensas bibliografias do curso de Letras, além de chegarem nas aulas mais esgotados, o que diminui o seu rendimento em sala de aula. Logo, esse critério não leva em conta a realidade dos estudantes.

Olhando por outro ângulo, também fica a reflexão: se é necessário concorrer, é porque existem debilidades nas habilitações do curso, seja por falta de salas ou pela falta de professores, visto que a universidade não abre mais concurso há alguns anos porque a verba para contratação está congelada desde 2017.

Nos últimos anos, a universidade abriu algumas vagas para professores, porém, de forma precária, com salários que mais parecem ajuda de custo e sem ser em regime de dedicação exclusiva, que é importante para garantir a dedicação do docente à pesquisa. Com esse tipo de contratação, a produção de conhecimento na universidade fica muito prejudicada.

Em uma universidade de excelência, o caminho deveria ser o contrário: dar a cada estudante a oportunidade de procurar seu objeto de estudo de maior interesse, possibilitando que cada estudante universitário contribua para a produção de conhecimento.

Os números de vagas oferecidas em cada habilitação não são orientados pela proporção da procura dos estudantes. Habilitações como inglês e linguística, que estão frequentemente entre as mais desejadas, não possuem professores suficientes para o número de alunos que se inscrevem, resultando na abertura de um número de vagas que não comporta, nem de longe, todos os interessados.

Até mesmo com o número bem limitado de vagas que abre nas habilitações atualmente, a maioria delas já enfrentam problemas de falta de professor, uma vez que vários professores se aposentam e não são substituídos.

Nesse cenário, precisamos urgentemente de contratação de professores no curso em regime de dedicação exclusiva. Além de proporcionar um ensino de qualidade, garante a realização de pesquisas e Extensão, que vêm sendo duramente atacados pelo governo de Bolsonaro.

A extensão universitária, na verdade, existe muito debilmente no atual funcionamento da universidade, tendo em vista que um dos seus principais centros ̶ que é o Hospital Universitário ̶ vem passando por um processo de desmonte e fechamento para a população de fora. Isso é um problema grave, porque toda a população tem o direito de usufruir do espaço universitário e do conhecimento produzido na Universidade, que é mantida por meio de impostos pagos pela população (o repasse que chega para a educação vem do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

A educação que queremos está bem longe do projeto apresentado pelo governo Bolsonaro e, por isso, precisamos rechaçá-lo profundamente e nos organizarmos para barrar esse ataque. Ao mesmo tempo, precisamos debater um projeto de educação em que a maioria da juventude não fique fora das universidades por causa do vestibular ou endividada com o FIES e que o conhecimento produzido na universidade esteja a serviço de toda a população e não de empresas privadas.

Em relação ao ranqueamento, é necessária a imediata contratação de professores em regime de dedicação exclusiva, para que não exista mais esse “segundo vestibular”. E é nosso papel, enquanto estudantes, nos organizarmos para defender a universidade pública contra os ataques de Bolsonaro e Doria à educação.




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