CRISE POLÍTICA

FHC pede a Temer que convoque novas eleições para salvar a "autoridade" no país

FHC defende que Temer convoque novas eleições para salvar as reformas e a autoridade burguesa no país.

quinta-feira 15 de junho| Edição do dia

FHC faltou ao encontro dos tucanos de segunda-feira quando definiram seguir apoiando o governo Temer. Alegou estar gripado. Nesta quinta-feira enviou breve carta à redação do jornal O Globo, e à agência Lupa (ligada à Folha) onde defende que se tudo continuar como está que os tucanos saiam do governo que eles e vários outros setores burgueses colocaram no poder mediante um golpe institucional. Na carta FHC defende que Temer convoque novas eleições. No final dessa matéria está disponibilizada na íntegra a carta do ex-presidente.

Contradizendo setores da esquerda que defendem a política de "diretas já" ou mesmo de "eleições gerais" e tentam falsear a realidade dizendo que não há importantes alas da burguesia defendendo essa política que visa dar legitimidade ao regime político em crise, trocando quem "senta na cadeira" para deixar intactas as regras do jogo e as reformas, FHC, depois da Folha e alguns partidos burgueses como o PSB e o PDT se pronunciou a favor dessa política. Seu fundamento é, em última instância o mesmo daquele utilizado pela Frente Ampla pelas Diretas, que reúne, PT, PCdoB, PSB, PSOL e até mesmo correntes que se reivindicam revolucionárias como o MAIS. Buscar dar legitimidade e estabilidade ao regime político.

Para saber mais sobre a "Frente Ampla pelas Diretas", leia artigo de Thiago Rodrigues, editor do Esquerda Diário

Enquanto a Frente Ampla diz “Só a eleição direta, portanto a soberania popular, é capaz de restabelecer legitimidade ao sistema político”, FHC condiciona a ruptura tucana com o governo e o pedido de diretas à desconstrução da autoridade.

Na carta FHC diz "se tudo continuar como está com a desconstrução continua da autoridade, pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o PSDB possa continuar no governo."

Tudo indica, pela divisão de alas da elite nacional entre apoiar Temer para continuar aplicando as reformas e a falta de consenso para encontrar um novo nome que pudesse ser eleito em um golpe dentro do golpe que seriam as eleições indiretas que a crise de "autoridade" vai continuar. O TSE salvou Temer, ele resiste, e o conflito se intensifica. Além das divisões entre a elite nacional, a divisão no STF, no TSE, nos grandes meios de comunicação há também divisão entre alas do regime político e do judiciário. Temer precisa controlar o MPF e a PF, por interesse político e sobrevivência essas forças precisam atacá-lo. E enquanto isso segue o desemprego, segue o descontentamento com as reformas.

Ciente que essa situação que ele classifica como uma "quase anomia" levará a colocar em risco toda estabilidade burguesa e os ataques que ele defende, o ex-presidente pede para que Temer convoque novas eleições. FHC diz: "A ordem vigente é legal e constitucional (dai o ter mencionado como "golpe" uma antecipação eleitoral) mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto."

A greve geral do dia 28 de Abril, a maior em décadas, marcando o descontentamento dos trabalhadores com as reformas e, ciente do amplo rechaço a Temer nas ruas que FHC mudou de posição política.

O gesto epistolar do ex-presidente deve aumentar a divisão dos tucanos e acrescenta lenha à fogueira da crise nacional, e também representa uma constatação que a política de conseguir um nome de consenso para eleições indiretas falhou e agora FHC tenta relocalizar seu partido para buscar força em um pleito direto.

Se Temer não aceita o pedido FHC ainda pode localizar-se como um "estadista" contra aqueles que buscam somente os pequenos interesses partidários e "não da nação" como diz em outro trecho de sua carta. Também é possível ler nessa carta um gesto feito sem grandes ações para derrubar Temer, visto que sequer FHC foi à reunião tucana para pressionar por sua posição, que o ex-presidente esteja começando a testar um discurso de "estadista para além dos partidos" para ser ele candidato em um futuro pleito.

Esse novo ingrediente no caldeirão da crise nacional coloca com ainda mais força a necessidade de uma política independente, que a partir de "tomar a greve geral do dia 30 em nossas mãos" possa desenvolver a luta pela derrubada de Temer, das reformas e para impor uma Constituinte Já, como o Esquerda Diário vem defendendo.

Leia abaixo a carta de FHC na íntegra:

A conjuntura política do Brasil tem sofrido abalos fortes e minha percepção também. Se eu me pusesse na posição de presidente e olhasse em volta reconheceria que estamos vivendo uma quase anomia. Falta o que os políticólogos chamam de ‘legitimidade’, ou seja, reconhecendo que a autoridade é legítima consentir em obedecer.

A ordem vigente é legal e constitucional (dai o ter mencionado como "golpe" uma antecipação eleitoral) mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto.

É diante desta perspectiva que os partidos, pensando no Brasil, nas suas chances econômicas e nos 14 milhões de desempregados, devem decidir o que fazer.

A chance e a cautela a que me refiro derivam de minha percepção da gravidade da situação. Ou se pensa nos passos seguintes em termos nacionais e não partidários nem personalistas ou iremos às cegas para o desconhecido.

A responsabilidade maior é a do Presidente que decidirá se ainda tem forças para resistir e atuar em prol do país.

Se tudo continuar como está com a desconstrução continua da autoridade, pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o Psdb possa continuar no governo.

Preferiria atravessar a pinguela, mas se ela continuar quebrando será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular.

É este o sentimento que motiva minhas tentativas de entender o que acontece e de agir apropriadamente, embora nem sempre no calor dos embates diários e de declarações dadas às pressas tenha sido claro nem sem hesitações.




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