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“Estou trabalhando, a empresa não está liberando os idosos”, escreveu trabalhador terceirizado da USP morto pela COVID-19

Manoel Nunes de Souza era trabalhador terceirizado da segurança do Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC. Tinha 71 anos, era parte do grupo de risco. Mesmo assim, nem a empresa Albatroz, nem a USP não o afastaram do trabalho. Manoel morreu nesta quarta-feira vítima da Covid-19 e do descaso da USP e dos patrões.

quinta-feira 9 de abril| Edição do dia

Em conversa com seu filho Renato Alvez de Souza pelo whatsapp, Manoel escreveu: “estou trabalhando, a empresa não está liberando os idosos.”

Manoel trabalhava há 13 anos na empresa, prestando serviço na USP. Desde o início da crise do coronavírus no Brasil, os governos e a reitoria da USP têm patinado na proteção aos trabalhadores. Com a liberação das aulas no dia 17 e posteriormente a suspenção das atividades presenciais no dia 23 de março, somente os serviços essenciais na USP continuaram funcionando. No entanto, muitos trabalhadores terceirizados foram obrigados a trabalhar, mesmo não estando em atividades essenciais. As empresas terceirizadas, aproveitando a situação, também demitiram no mínimo 10 trabalhadores.

Sem EPIs adequados e mantendo os trabalhadores do grupo de risco trabalhando, a USP arrisca a vida dos trabalhadores terceirizados e da saúde, como os do Hospital Universitário. A intransigência da reitoria, que lava as mãos enquanto mantém esses funcionários na linha de frente é escandalosa e ultrajante. A saúde e a vida desses trabalhadores parecem não importar para os dirigentes da melhor universidade do país.

A morte trágica de Manoel escancara o preço que a terceirização cobra dos trabalhadores. Precarização, vulnerabilidade, desigualdade e até o roubo de suas vidas. Esse flagelo mostra a ganância dos patrões que estão dispostos a nos ver, um a um, mortos para manter seus lucros.

Precisamos defender a vida de cada trabalhador, clamar por justiça à Manoel. Justiça, pois a Albatroz e a USP são responsáveis por essa morte. Precisamos exigir que todos os trabalhadores do grupo de risco sejam imediatamente liberados e que seja garantido testes e tratamento adequado para todos.

A nossa vida vale mais que o lucro deles e por Manoel e todas as vítimas dessa pandemia precisamos gritar bem alto que não vamos pagar por essa crise. São os trabalhadores, como Manoel, que movem o mundo. Precisamos movê-lo para libertar a humanidade de toda exploração e opressão. Manoel, presente! Agora e sempre!

A gente nunca sabe quando as coisas ruins vão acontecer, mas dessa vez ela atingiu meu pai

Reproduzimos abaixo o depoimento de Renato Alvez de Souza sobre seu pai:

“Meu pai era um homem saudável, trabalhador, cristão (30 anos de evangelho), trabalhava só na Albatroz há mais ou menos 13 anos. No começo da pandemia eu me preocupei logo com ele e minha mãe por se tratar de um grupo de risco.

Mandei mensagem para ele por WhatsApp pedindo para ele não sair e não ir trabalhar e de imediato me respondeu que a firma não estava liberando idosos!

A gente nunca sabe quando as coisas ruins vão acontecer, mas dessa vez ela atingiu meu pai que trabalhava aos 71 anos de idade e morava com a esposa, a filha, o genro e duas netas!

Passou mal, sentindo falta de ar, foi encaminhado para as clínicas a situação foi se agravando cada vez mais. O primeiro resultado deu suspeita COVID-19. Até sua morte, infelizmente hoje ele já não está mais entre nós!

Veja aqui: Trabalhador terceirizado da USP, que era do grupo de risco e não foi afastado do trabalho, é mais uma vítima da covid-19




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