Cultura

Filme: "Onde Começa um Rio"

Entrevista: “O cinema militante é aquele que pensa a partir de uma vontade de intervir no real”

O Esquerda Diário entrevistou no dia 25 de setembro Julia Karam, Maria Cardozo e Pedro Severien, diretores de “Onde Começa um Rio”, Longa-metragem que se volta para as ocupações estudantis universitárias durante a luta contra a PEC do Fim do Mundo (Projeto de Emenda Constitucional 55), no final de 2016, é agora publicado online.

sexta-feira 1º de dezembro| Edição do dia

Os realizadores têm experiências diversas no cinema e juntam suas perspectivas e conhecimentos para a construção do filme de uma maneira coletiva, colaborativa e não hierarquizada. Julia Karam é realizadora e produtora audiovisual, graduada em cinema pela PUC Rio. Maria Cardozo é diretora artística do Fincar – Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, integrante do Ocupe Cine Olinda e realizadora audiovisual. Pedro Severien é realizador audiovisual e integrante dos movimentos Ocupe Estelita e Ocupe Cine Olinda.


Entrevista realizada por Iuri Tonelo
Transcrição e edição feita por Débora Torres e Renata Munin

Esquerda Diário: Queria começar perguntando como surgiu a ideia de produzir um filme como “Onde começa o rio”, que trata do movimento estudantil?

Pedro Severien: A ideia do filme surge dessa vontade de pensar o cinema dentro de uma perspectiva de ação política, não só um cinema de representação, de criar uma narrativa para tentar estabilizar algum tipo de conhecimento do real. É um filme para participar no real, intervir no real e ser também mobilizado, modificado, desestabilizado também por esse real.

A gente já se conhecia, tínhamos militância em alguns espaços como Ocupe Estelita, Ocupe Cine Olinda, espaço de ocupação, que usam essa estratégia de ocupação, então entendemos no momento das ocupações universitárias esta também se formulando um pensamento político, que a gente percebeu que com o filme entrar em dialogo. É um filme que se faz nas margens, pelas bordas, nas periferias, descentrado. Com esses encontros fomos construindo essa narrativa.

Esquerda Diário: A ideia foi abordar um movimento concreto, o movimento estudantil com ocupações em 2016?

Julia Karam: É eu acho que o filme tem uma vontade muito grande de escutar esses estudantes que estão nas ocupações, então é um filme que se faz com esses estudantes. Temos pouca interferência no discurso e mais uma vontade muito grande de escutar o que estava se passando, entender o que as ocupações estavam produzindo...

Esquerda Diário: Vocês consideram que o filme da uma espécie de panorama, um reflexo, uma expressão, do que os estudantes estavam sentindo no Brasil num contexto de golpe institucional em 2016?

Maria Cardozo: Não sei se panorama, porque é algo tão grande, tão complexo, foi só um recorte, por um trajeto, vindo do interior de Pernambuco, passando Brasília, Planaltina. Não afirmaria que foi um panorama, porque é algo muito complexo e grande, mas fizemos um recorte, entendendo como que nós poderíamos sobre esse recorte o que poderíamos refletir sobre o todo.

Pedro Severien: É pensar no singular, digamos, esse singular coletivo. As pessoas, os grupos que encontramos, não são representativas do todo, são parte desse todo. Eu gosto muito de não pensar em panorama, pensar em trajeto. A gente fez um trajeto através de um caminho que seria possível no sentido de ir ao encontro. Mas vários outros trajetos eram possíveis, vários outros trajetos estavam sendo feitos também narrativamente por outros filmes, pelo trabalho em outras artes, na escrita, na foto, na poesia, na música. Então eu acho que é isso, é um filme de trajeto eu acho.

Esquerda Diário: Vocês que eram estudantes da universidade ou tinham relação com o movimento estudantil. Como vocês veem a relação do realizador com o objeto, como vêem o cinema participativo?

Pedro Severien: É um cinema participativo quando não se coloca essa distância entre sujeito e objeto, entre o realizador como esse que é o produtor do discurso e o objeto como algo que será estudado a distância. É uma contaminação, um contágio. A gente é meio objeto, meio sujeito do filme.

O gesto da escuta é muito importante para a política. É uma ação política super complexa, que exige certo desprendimento de si, pra se formular a partir do outro também. Não uma anulação de si, mas uma escuta ativa, sem querer dar uma representação distanciada.

Julia Karam: Acho que como nós todos passamos por um processo de ocupação, isso fez com que a gente também se aproximasse, e nunca passou pela cabeça “dar a voz”, que é uma coisa que se diz muito. Nunca esteve presente, porque como ocupantes a gente sabe que não dá a voz a ninguém, as pessoas tem voz. Então o gesto do filme corrobora muito com isso, a gente está nesse exercício mesmo de escuta e de participação conjunta.

Esquerda Diário: Mas vocês também, apesar de estar ouvindo e participando , também estão tomando uma posição política . Queria até que vocês fizessem um comentário geral de como vocês vêem a obra no marco do cinema pernambucano. O que vocês querem trazer pro cinema pernambucano a partir dessa contribuição que vocês estão fazendo?

Maria Cardozo: Essa é uma reflexão até sobre o cinema pernambucano. Eu nem sei mais o que é o cinema pernambucano e essa delimitação ... Eu vejo de forma mais atravessada , sabe ? A produção de cinema que a gente faz aqui.

Pedro Severien: Eu concordo com isso que o cinema pernambucano, por exemplo, é um termo, um conceito meio criado. Teve sua força estratégica , eu acho, num determinado momento, mas hoje é pensar a partir do local , digamos , de um pensamento do que é local , eu acho que numa outra perspectiva, né ? Não é só territorial. Não é só que tipo de cultura é a referência daquele local. Não. É como a luta local, por exemplo, é a luta global sem muros. Eu acho que as ocupações são isso. Eu acho que os cinemas que se faz hoje no Brasil , muitos dos filmes mais interessantes que te hoje visto nos últimos tempos feitos aqui em Pernambuco e feitos no Brasil, estão contestando esses modelos, de referencial cultural hegemônico, até dessa superfície do que é a cultura de um lugar.

Então, o filme eu acho que ele está conectado com as lutas emancipatórias globais. E não é que isso funciona na chave de "ah, é um filme universal", ou que cria uma narrativa que seria para o mundo . Não, ele é feito a partir de um lugar bem específico, mas tensionado essas relações: entre o que é singular e o que é coletivo, quais as diferenças com o que há em comum, com o que se produz em comum, com que relações comuns se fazem. Então eu acho que é pelo menos é essa a busca da gente , essa tomada de posição, de fato , ela está no filme.

Como ver um movimento estudantil que não é só um movimento estudantil, são vários movimentos com estudantes. E acho que isso tem muita relação com a nossa experiência de filmes engajados, filmes de cinema militante. Eu acho que o cinema militante de uma forma muitas vezes preguiçosa na leitura e na crítica, colocado como o cinema que já tem as respostas pré-estabelecidas para as coisas e que vai lidar com isso como se quisesse forçar alguém a uma visão de mundo. Não. Eu acho que o cinema militante é aquele que pensa a partir de uma vontade de intervir no real.

Julia Karam: E que vai descobrindo ao longo do processo. A resposta não está dada, você vai descobrir enquanto você faz .

Esquerda Diário: Nesse filme é na obra de vocês mais de conjunto, vocês tem referências nacionais que gostariam de destacar, que influenciaram vocês de alguma forma esteticamente?

Pedro Severien: O cinema de Eduardo Coutinho para mim é uma referência muito muito forte sabe? Porque ele inclusive foi um dos maiores pesquisadores desse acontecimento que se dá com a entrevista, com o encontro, com o diálogo. Ele passou a vida articulando esses encontros nos filmes e fazendo esse acontecimento não só ser visto mas ser visto de uma maneira complexa, de uma maneira sedutora, de uma maneira sensível. Eduardo Coutinho com certeza! Os filmes do Leon Hirszman, não só o trabalho que ele fez de documentário mas também na ficção, sabe? Eles não usam Black Tie, por exemplo , é um filme que é uma aula política, digamos assim, de como as forças das relações internas se dão, como isso quebra um pouco essa divisão entre privado e público. Ele supera isso, ele coloca essa ideia de coletividade dentro de algo que hoje está sendo muito bem pensado a partir de vários campos de experimentação política.

Esquerda Diário: Vocês tratam do movimento estudantil, que nos últimos anos no país tem um protagonismo muito importante, particularmente a partir de 2013 , não só o movimento estudantil, mas a juventude que saiu às ruas tem tido um protagonismo importante no país , e em muitas lutas no mundo também. Num contexto de um país pós-golpe, que vemos um giro muito conservador, com grandes ataques aos trabalhadores, aos jovens , com a reforma trabalhista , a reforma da previdência... Como vocês veem o papel que a juventude pode ter?

Julia Karam: Eu acabei de sair de uma manifestação que eu acho que uma adolescente trouxe uma coisa muito importante, que é um respiro, sabe ? Às vezes , a gente te fica muito angustiado com tudo o que está acontecendo e fica as vezes meio desesperançoso. E hoje ela falou: “esse avanço conservador só existe a partir do nosso avanço , porque a gente tá avançando muito. E aí eles estão morrendo de medo, então vai avançar também”! Eles querem nos barrar, mas enquanto eles querem nos barrar, a gente quer avançar. Eu acho que isso está em disputa. Não é uma coisa dada, eles não venceram. Eu acho que a juventude está aí, está lutando e está resistindo. E acho que esse avanço conservador só está ocorrendo de uma maneira tão forte porque a gente conseguiu muitas coisas também.

Pedro Severien: A próprio ideia de Onde Começa o Rio está ligada a isso: a um lugar que é móvel, um lugar que é nômade, não um lugar estático e parado. A juventude não tá muito ligada só a idade, essa posição cronológica das coisas. Mas está ligada a essa disposição para se mover – para ser nômade. Acho que o movimento estudantil, os movimentos estudantis hoje, mostram, por exemplo, uma alegria na ação política. Eu acho que é muito importante isso. E essa alegria assusta, essa alegria realmente, eu concordo, a gente está avançando muito a partir dessa busca pela ação que é, para libertar os corpos mesmo, né? Para os corpos que se expressam, os corpos que se movimentam. Então, acho que o movimento estudantil, para mim, ele está ligado a essa ideia, de ser nômade na ação, no pensar, no agir.

Maria Cardozo: Eu percebo essa ansiedade de falar da juventude agora e que muitas críticas também se fazem à essa juventude de esquerda, inclusive essa juventude autonomista. E é como se essa juventude autonomista só existisse entre 2013 a 2017, como se no passado não tivessem existido... E dentre as pessoas que tão hoje e que militaram, que foram jovens? Eu acho que a juventude vai sempre ter esse papel fundamental na disputa política na sociedade.

Acho que a gente tem que falar também da juventude de direita no Brasil, que está forte. Você não pode dizer que a juventude apenas como “A juventude”. Saiu uma pesquisa recentemente que os maiores votadores do Bolsonaro eram os jovens. Então, o jovem brasileiro está votando também no Bolsonaro. É importante dizer que agora na UFPE está surgindo um movimento fascista muito intenso, muito difícil. O movimento estudantil de esquerda, está em uma militância de como mobilizar, porque existe uma apatia também, uma desmobilização dentro desse momento de golpe, e eles estão lá resistindo. Mas agora existe uma juventude de direita muito articulada também dentro da universidade.

Então, eu fico pensando um pouco no momento de pós-ocupação. Quando eu penso nessa juventude de esquerda contra o golpe, a galera deu seus corpos e muito mais do que seus corpos, deram suas vidas dentro dessa batalha toda e no momento pós ocupação, quando a gente chega junto com a galera para conversar e mostrar o filme, a gente percebeu que tem também um momento vulnerabilidade... A gente vê que, por exemplo, o reitor da UFPE, ele é do PT e está colaborando com a perseguição política desses jovens que militaram ali. Perseguição totalmente antidemocrática, sem provas concretas e individualizantes. Então ele está punindo, é uma suspensão de 6 meses que quem tem bolsa vai perder, porque nos tramites burocráticos perde-se a bolsa. A gente estava falando aqui, as cotas foram essenciais, mudaram a imagem da universidade pública. Porém não é tudo, pois a gente precisa ver como é que se mantem estes estudantes lá. São através de bolsas que eles se mantem dificilmente a trancos e barrancos. Então, você vai suspender eles e vai tirar a bolsa deles, mas o que você está querendo dizer com isso?

Julia Karam: (Em nosso filme) na hora que um dos estudantes fala em que ele já foi expulso duas vezes da universidade por lhe dar com parede branca, lhe dar com linhas de pesquisa que não representam, não tem bolsa, não tem moradia, é um outro tipo de expulsão branca. E eu acho que é esse mesmo estudante que está sendo processado e ameaçado de expulsão da universidade. E aí eu acho que é a necessidade da gente também interseccionalizar todos esses assuntos, porque na hora que a gente deixa de pautar o movimento LGBT, o movimento das mulheres e o movimento negro, a gente está se esquecendo, e aí parte dessa ideia de esquerda como um todo, fica muito um sujeito universal branco, como se a esquerda fosse toda uma coisa só, e não, né?

Uma outra fala do filme que eu acho muito importante é quando um dos estudantes do quilombo fala “ah, um grupo de brancos veio aqui, e queria criar um centro...’pô vocês estão criando o quilombo, a gente também quer um centro de convivência branca’” desconsiderando todo o fato de que a universidade já é um centro de convivência branca. Então assim, é perceber que todos esses retrocessos, inclusive as PECs que estavam acontecendo na época, a PEC do fim do mundo da saúde e educação, elas vão atingir diretamente a população negra. Elas vão atingir...quando a gente fala em saúde e pensa na saúde da mulher, ela vai atingir diretamente essas mulheres, vai atingir diretamente as pessoas LGBTs, que não têm um atendimento adequado dentro dos hospitais. Então, é muito importante sim a gente pautar e interseccionalizar esses debates.




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