Cultura

Beatles

50 anos de Sgt Pepper, lendário álbum dos Beatles

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 29 de maio| Edição do dia

O soar das trombetas em 1967 não poderia ter sido realizado por uma banda de anjos convencionais. Aquele era um período experimental na música pop, que exigia cores e eletricidade. Faltando um pouquinho menos de um ano para as rebeliões estudantis e operárias de 1968, os Beatles mostravam ao mundo que nos estúdios a música poderia ser livre, intensa e sem qualquer tipo de barreira estética. O álbum Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, obra prima do quarteto de Liverpool, chega aos 50 anos sem nenhum sinal de cabelos brancos. Porém, a maioria das pessoas fica tomada por uma reverência tão grande diante do clássico, que se esquece de refletir sobre uma série de questões que este disco abarca: as contradições entre revolta e comércio, pop e erudito, contracultura e indústria cultural etc.

Lançado em junho de 1967, Sgt Pepper é aquele disco que sempre encontramos numa república de estudantes. Nestas repúblicas estudantis, aonde o LP recebe todo carinho da rapaziada, é possível passar os dedos por vários álbuns clássicos: encontramos aqui um disco dos Mutantes, lá um disco do Miles Davis, mais adiante um do Chico Buarque, outro do Caetano Veloso, quem sabe um do Nelson Cavaquinho, um do Cartola, talvez Velvet Underground, talvez Gal Costa, provavelmente Pink Floyd e... certamente... lá estão os Beatles trajando suas fardas coloridas no disco Sgt Pepper. Se tem gente com idade entre 17 e 23 anos ouvindo este álbum, é porque as imagens de rebeldia dos anos 60, não despareceram do imaginário da juventude. Não se trata de paródia, mas de referências que ainda estão aí.

No contexto estudantil, um disco como Pepper pode exercer um papel até certo ponto progressista: trata-se da descoberta musical dos inesgotáveis anos 60 e do enfrentamento(ainda que em muitos casos revestido de anacronismo) das convenções impostas pela cultura dominante. O problema no entanto está no efeito conformista que os clássicos do rock assumem para grande parte do público: o disco dos Beatles é retirado do seu contexto histórico original, marcado por uma série de reviravoltas culturais promovidas pela rebelião juvenil, e colocado como um produto inofensivo. Esta observação não é nova, sendo que já tratei da mesma questão em artigos anteriores sobre música. Mas aproveitando os 50 anos de Sgt Pepper, vamos procurar pensar o que este álbum realmente significa dentro da cultura contemporânea.

Em 1966 os Beatles já não eram os mesmos. Sendo eles próprios muito jovens, os quatro rapazes de Liverpool estavam sintonizados com uma série de atitudes assumidas pela juventude do período: pacifismo, orientalismo, experiências com drogas, amor livre; eis alguns elementos que definiam a chamada contracultura. Musicalmente não dava mais para bancar os reis do yê yê yê: a gritaria dos shows impedia com que os membros da banda pudessem ouvir uns aos outros, o que limitava as possibilidades estéticas das canções. Já nos estúdios, era possível desenvolver a música graças as novas técnicas de gravação que modelavam de modo inusitado o som . Os Beatles estavam procurando caminhos experimentais: os álbum Rubber Soul(1965) e principalmente o álbum Revolver(1966) comprovam a sede de sofisticação musical do quarteto. Como já tive a oportunidade de dizer no artigo 1966 Foi o ano do Rock, publicado neste jornal no ano passado, estas inquietações musicais eram verificadas em muitas bandas da época.

É preciso salientar que os Beatles não estavam apenas descontentes com seu rendimento musical ao vivo. Os caras também estavam preocupados com a própria pele: declarações de John Lennon geravam a fúria de políticos conservadores e grupos religiosos de extrema direita nos EUA; além da presença da banda representar um verdadeiro choque cultural em países como Japão e Filipinas. Diante deste quadro problemático, em que apresentar-se ao vivo poderia resultar em algum ato de violência vindo da plateia, a banda preferiu se refugiar no estúdio. Sob a atmosfera contracultural da cidade de Londres, os Beatles preparavam uma bomba psicodélica chamada Sgt Pepper.

O disco já havia começado em torno das canções Strawberry Fields Forever e Penny Lane, lançadas em um single. Os Beatles não se preocuparam com o fato de não atingirem com este single o primeiro lugar nas paradas de sucesso: o importante era buscar novos caminhos musicais. Este é um ponto interessante: os discos dos Beatles moviam muita grana, eram 100 % comerciais. De repente, dentro da indústria, os Beatles e outras bandas de rock passam a se desinteressar pelas fórmulas musicais de sucesso, e a serem fieis a uma necessidade artística de criar algo novo, capaz de responder às novas inquietações históricas . Que fique mais uma vez registrado: o paradoxo a ser observado, é que mesmo inserido na máquina capitalista, o rock daquele momento entrava em contradição com padrões estéticos e com os valores dominantes. Sgt Pepper é um testemunho desta interessante contradição histórica.

Ao invés dos Beatles saírem em turnê, eles preferiram mandar um disco para sair em turnê: a partir de uma banda fictícia idealizada por Paul McCartney, Sgt Pepper metaforizava os próprios Beatles. Uma profunda reviravolta musical se fez em torno de um álbum considerado por muitos conceitual. Da faixa de abertura Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band à faixa A Day in the Life , encontramos uma obra em que o rock psicodélico articula-se com outros contextos musicais, que remetem ao vaudeville e à arte de vanguarda. Música clássica e música indiana, sons nítidos e amalucados efeitos sonoros, coexistem num álbum que ao longo de suas 13 faixas obedece a uma inusitada lógica interna. Embora esteja recheado de músicas que poderiam estar muito bem “ soltas “, como Lovely Rita, o disco possui uma unidade: as canções formam um todo.

Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band é um produto artístico intimamente ligado ao estado de espírito dos hippies. Certamente as relações entre música e drogas envolvem um aspecto que deu o que falar neste período da carreira dos Beatles. A radio BBC baniu em 1967 as canções Lucy in the Sky with Diamonds e A Day in the Life, por elas supostamente conterem referências ao LSD. Mas independentemente de estarem chapados ou não, o fato é que os Beatles esbanjavam criatividade, liberdade, legando músicas que se comunicavam na forma e no conteúdo com parte significativa dos jovens dos anos 60.

Sgt Pepper ainda amarra os nossos ouvidos. Mesmo hoje, quando as canções se fragmentam pela internet, este álbum ainda possui peso musical.




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