Zanon: A recuperação do Sindicato [Parte IV]

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por Raúl Godoy

Antes de continuar a leitura sugerimos ler primeiro:

Zanon: Fábrica militante sem patrões [Parte I]

Zanon: Novos ares combativos [Parte II]

Zanon: A “greve dos 9 dias” [Parte III]

Julio Fuentes secretário geral da CTA depois da vitória que obtivemos na greve dos 9 dias disse: “Aqui se decidirá não só o conflito, mas quem dirigirá o Sindicato”. Ele estava certo. O Sindicato de Operários e Empregados Ceramistas de Neuquén que conseguimos recuperar em setembro de 2000, agrupava 4 fábricas: Cerâmicas Zanon (com 330 operários), Cerâmicas Stefani de Cutral-Co (com 65), Cerâmica del Valle (com 23) e Cerâmicas Neuquén (ex- Alba, com 50).

A luta pelo sindicato foi todo dia, pois era difícil chegar até os companheiros das outras fábricas. A burocracia organizava assembleias para tentar nos expulsar do sindicato. Tentavam todo tipo de armadilhas legais recorrendo ao ministério do Trabalho. Só conseguimos desmontar essas “assembleias” promovidas pela burocracia com a participação massiva dos companheiros. Dois dos delegados, Fabio Chandia e Alejandro Quiroga, companheiros muito disciplinados, fizeram uma campanha de formiga e começaram a filiar companheiros novos ao sindicato. Nós do PTS não demos muita importância pois considerávamos que a medida era “muito reformista”, que favorecia a burocracia. Discutíamos que não precisávamos nos preocupar com as filiações, que o importante era a assembleia e a democracia direta. Afortunadamente os companheiros filiaram esses novos operários, que futuramente vão se transformar em peças fundamentais para recuperar o sindicato, pois eles iam poder votar.  A burocracia não queria reconhecer os novos filiados. Essa foi uma luta incrível, os companheiros queriam entrar e o sindicato se negava a reconhecê-los. Deixou em evidência a verdadeira intenção de ficar com o controle do sindicato custe o que custar, para continuar vivendo dos privilégios que obtinham com a cota com que os trabalhadores contribuíam. Mas finalmente na sexta-feira 15 de setembro ganhamos o sindicato numa assembleia que foi histórica. A direção do sindicato convocou uma assembleia para eleger a comissão eleitoral – e nos expulsar – em Cutral-co, mais de 100 km de distância da nossa fábrica. Também marcaram a assembleia às 13h, sendo que às 14h é a troca de turnos. Para que ninguém pudesse ir. Por isso fomos discutir com a empresa para que nos liberassem nesse dia, que podíamos devolver no domingo ou no final de semana. Eles responderam que não. Pedimos duas horas mas a empresa partiu para ofensiva e disse “quem faltar amanhã será demitido”. E assim nos deixaram sem opções. Estava tudo feito em acordo com a burocracia. Trabalhavam juntos. Convocamos uma assembleia no refeitório da fábrica. Nós tínhamos dúvidas. Tínhamos discutido muito com os companheiros e delegados e ativistas: O que fazer? Então falou um dos grandes companheiros da fábrica. Dom Keller. Ele disse muito firmemente: “Se temos que nos defender então vamos, se faltamos todos, não terão como demitir todo mundo”. No dia seguinte a fábrica estava vazia, conseguimos 2 onibus, carros, caminhonetes, e inclusive muitos companheiros que não podiam ir à assembleia por problemas familiares, também não foram trabalhar para nos apoiar. Chegamos a Cutral-co, o palco estava montado em um clube social da região e as ruas interditadas pela polícia. Tinha policiais dentro esperando “um pequeno grupo de ativistas” que queriam implodir a assembleia. Mas chegamos massivamente. Enchemos o clube. Eles ficaram deslocalizados pois quebramos a manobra. As companheiras da comissão de mulheres, nossas esposas e familiares também foram mais uma vez para nos acompanhar. Ficaram na entrada do clube e na medida que íamos entrando, os operários iam distribuindo alguns “elementos de defesa”. Isso era uma clara demonstração que os operários fomos na assembleia para ganhar.

A burocracia tinha levado um ônibus com operários da Cerâmica del Valle para votar contra nós. Os convidando para comer churrasco. Mas o ódio dos operários jogou contra a burocracia. Quando começou a assembleia um companheiro da Cerâmica del Valle se aproximou e nos perguntou “vocês têm lugar no ônibus para voltar?”. Respondemos que sim. Então ele se inscreveu para falar, denunciando a burocracia e todas as manobras. Essa intervenção teve muito impacto na assembleia. Foi emocionante e um duro golpe contra a burocracia levantando ainda mais a moral dos companheiros. A partir dessa intervenção, muitos companheiro trazidos pela burocracia começaram a aderir às nossas posições. E  a partir desse fato percebemos que esse era um grande companheiro. Esse companheiro era Luis Calfueque, que depois foi integrante da comissão diretiva do sindicato como secretário administrativo e hoje é integrante da [agrupação] bordô-marrom e militante do PTS.

Nessa assembleia estiveram presentes representantes da Federação Nacional de Ceramistas (FOCRA) para legitimar nossa expulsão e tiveram que ir embora com o rabo entre as pernas. Ai já foi decidida a sorte do sindicato. Foi votada uma comissão eleitoral para garantir uma eleição transparente liderada por Juan Orellana, militante do PTS, e Francisco “Paco” Morillas. A volta de Cutral-Co foi uma grande comemoração. A massividade e a força operária dentro de Zanon foi tal que a patronal não pôde tomar nenhuma retaliação. Uma vez definida a data das eleições se conformaram 2 chapas, uma da burocracia e outra da chapa Marrom, com companheiros combativos das distintas fábricas. Nossa chapa foi conformada numa reunião com todos os ativistas na sede em Centenario. A chapa Marrom se conformou da seguinte forma:

Secretário Geral: Raúl Godoy

Secretário Adjunto: Ernesto San Martin

Secretário Gremial: Alejandro Lopez

Secretário Administrativo: Luis Calfueque

Secretário de Atas: Julio Araneda

Secretário de comunicação e Cultura: Juan Carlos Acuña

Tesoureiro: Ricardo Vilte

Pró-Tesoureiro: Marcelo Rojas

Representantes de base titulares:

Marcelo Balcaza

Sergio Pinchulef

Ignacio Canales

José Luis Vásquez

Ernesto Ruíz

Fabio Chandia

Representantes de base suplentes:

José Eduardo Vegas

Alejandro Quiroga

Luis Alberto Martinez

Ángel Velázquez

Artemio Garrido

Julio Duarte

Comissão Fiscalizadora das Contas

Titulares

Miguel Ramírez

Darío Pozo

Héctor Vicavil

Suplentes:

Héctor Raúl Rinaldi

Luis Zapetini

Ernesto Correa

Foi uma eleição com muita participação, votou 97% do eleitorado. Quase a totalidade. A burocracia recebeu 120 votos. Para nós foram muitos, 206 votos. A reconstrução do sindicato após ganharmos as eleições foi um grande passo. Tínhamos nos liberado da burocracia, mas ainda restava muito a fazer. Quando fomos na sede do sindicato o lugar estava completamente vazio, tinha só uma cadeira, uma mesa velha e uma máquina de escrever Olivetti com algumas teclas faltando. O sindicato estava quebrado. Quando fomos no Banco Nación para fechar as contas bancárias para que não continuassem podendo ser operadas por eles, vimos que as contas já estavam fechadas por falta de fundos. A conta esteve fechada entre 2000 e 2007 por cinquenta cheques sem fundos emitidos um mês antes de deixar o sindicato. Eles nos deixaram muito endividados, com processos trabalhistas de alguns trabalhadores que tinham sido empregados pelo sindicato.

Nos vimos nessa situação e com conflitos nas distintas fábricas, tendo que atender aos problemas das pessoas, que estavam muito atrasados, e também porque a nova direção tinha gerado muitas expectativas. Tomamos a decisão de ter entre 4 e 5 diretores liberados [do trabalho], com cargos rotativos entre as distintas fábricas, de tal forma que participassem alternativamente alguns companheiros da Cerâmica Neuquén, de Zanon, del Valle e tentar assim tentar dar respostas. O que mantivemos como uma regra é que nenhum companheiro do sindicato podia ganhar mais do que um operário da fábrica. Nos primeiros dias, quando um dos companheiros de Cerâmicas del Valle estava de plantão na sede do sindicato chegou Muñoz, um enviado de recursos humanos de Zanon,  com uma proposta para nos fazer. Fomos com Alejandro Lopez para ver o que ele queria. Muñoz apareceu com uma mala enviado pela patronal, para iniciar um “diálogo” com as novas autoridades do sindicato. Falou que a empresa estava numa crítica situação econômica, e se ofereceu a “adiantar” mais de 10 cotas sindicais de todos os operários da fábrica como forma de começar “boas relações”. A resposta foi automática. Foi convidado a se retirar, rejeitando o que era claramente uma tentativa de nos comprar. Dissemos que íamos construir o sindicato a partir da base, que não íamos aceitar nenhum centavo dos empresários. Sabíamos que essas práticas aconteciam na maioria dos sindicatos, mas ficamos revoltados com que eles ousassem nos propor isso, com tudo o que já viemos demonstrando. Muñoz teve que pegar sua mala e ir embora rapidamente do local.

Ao conquistar o sindicato, avançamos mais um degrau para fortalecer nossa organização e nossa luta e avançar no classismo. O Sindicato dos Ceramistas foi sendo forjado na direção das primeiras greves. Mas não paramos por aí, não nos trancamos entre as quatro paredes da fábrica nem do sindicato, lutamos para confluir com outros setores combativos, constituímos a Coordenadora do Alto Valle e viajamos pelo país com o mesmo objetivo. Ao mesmo tempo tínhamos uma política de exigência às organizações da classe trabalhadora como a CTA provincial para levantar uma frente única operária. Misturávamos a política de massas – que incluía alianças com organismos de direitos humanos como as Madres Neuquinas, as federações de centros acadêmicos de estudantes e a Confederação Mapuche- com o fortalecimento das agrupações de vanguarda e a coordenação dos setores combativos e em luta, para enfrentar os planos de ataques do governo e sua política repressiva. Mas sabíamos que não podíamos deixar o sindicato do jeito que era, que favorecia à burocracia, e por isso votamos mudar pela raiz os estatutos, o que consideramos uma referência para toda a classe operária.

Zanon

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