Novamente sobre Bolsonaro, nazismo e comunismo: certezas falaciosas e reacionarismo autoritário

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imagem por Romualdo Nicola

texto por Simone Ishibashi

Bolsonaro esteve recentemente em Jerusalém para mais uma jornada de renovação dos votos de submissão aos Estados Unidos e ao Estado de Israel. Mesmo alinhado com a sua orientação ultradireitista de defender o colonialismo israelense, Bolsonaro foi obrigado a reduzir os objetivos de transferência da embaixada brasileira para Jerusalém em nome da abertura de um escritório na cidade. No entanto, para além dessas novas demonstrações de servilismo que serviram a campanha de Benjamin Netanyahu em meio às eleições israelenses (o qual, aliás, encontrará mais dificuldade em vencer tendo em vista os irrefreáveis escândalos de corrupção em que está imerso), parte do que dominou as páginas dos principais meios sobre a viagem de Bolsonaro foram, novamente, suas declarações afirmando que comunismo e nazismo seriam o mesmo.

Bolsonaro, em visita ao Museu do Holocausto, quando questionado sobre sua opinião acerca da afirmação de Ernesto Araújo – conhecido nas redes como “ministro das alucinações exteriores” – de que o nazismo “teria sido um movimento de esquerda”, respondeu com sua contumaz criatividade histórica: “Não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha”. Mourão, por sua vez, bancou a Hannah Arendt do quartel e disse que “De esquerda, é o comunismo, não resta a mínima dúvida. Se a gente for olhar, sabe que sou um crítico contumaz desta questão de direita e esquerda. Eu acho que são ambas visões totalitárias, de controle total da população, de desrespeito aos direitos humanos e que não se coadunam com o espírito que a gente busca para a humanidade”.  

Novamente, para horror dos professores de história do país, Bolsonaro e os membros de seu governo ressurgem com as sentenças absurdas que já lhes caracterizam, para levar às entrevistas oficiais em meio a viagens internacionais “informações” da mesma qualidade daquelas que circularam nos WhatsApp em meio à campanha presidencial. Da mesma maneira, vemos novamente embaixadores alemães reafirmando o óbvio: que o nazismo foi um movimento de ultradireita. A miscelânea construída por Bolsonaro busca identificar a morte dos judeus em meio à II Guerra Mundial com a esquerda, unicamente pelo nome do partido nazista como “nacional-socialismo”. Pura ignorância? Sem dúvida estamos seguros de que Bolsonaro é rico nesse quesito. No entanto, nesse caso, trata-se de uma manobra política que Bolsonaro propaga desde muito tempo.

Os objetivos políticos por detrás dessa insistência em propagar absurdos como a inventada relação de identidade entre nazismo e esquerda por parte de Bolsonaro e os membros de seu governo são bastante claros. A ultradireita no Brasil se alçou com base em uma profunda crise orgânica, isto é, a um processo de crise dos partidos políticos tradicionais e seus representantes, sendo um deles o PT. Colando no PT a pecha de “comunista”, algo absolutamente fora da realidade, Bolsonaro e sua trupe da ultradireita emprestam um sentido à sua própria existência, na medida em que teriam como tarefa combater uma pretensa ameaça comunista. Para isso, deformam completamente o que é o comunismo e o que é o PT, que jamais foi comunista; pelo contrário, governou para os capitalistas. Se o PT pôde, no segundo governo Lula, dar algumas concessões foi, antes, pela situação econômica favorável que percorria a América Latina, não por qualquer tipo de socialismo. Dessa forma, a ultradireita se apoia no senso comum e na ignorância que dissemina que o socialismo seria um regime assassino, que aprofunda a pobreza, realizando a velha e falsa identidade entre aquele e o stalinismo.

O nazismo e o fascismo surgiram entre a I e a II Guerras Mundiais em meio a uma situação marcada pelo profundo arruinamento econômico da Europa, os sofrimentos da guerra, que levaram ao empobrecimento generalizado da pequena-burguesia e a transformação de setores amplos dos trabalhadores em desempregados crônicos. A base de classe do nazi-fascismo era a pequena burguesia arruinada, que instrumentalizada pela burguesia se volta contra a classe trabalhadora e suas organizações. Apesar de não ser orgânico da grande burguesia alemã e se utilizar de uma retórica contrária a aspectos da dominação dos grandes bancos e industriais de seu tempo, Hitler e Mussolini preservaram a base social existente, isto é, o capitalismo.

Trótski, dirigente da Revolução Russa, afirma que o nazi-fascismo se erguia em meio “às penúrias dos pequenos proprietários sempre próximos à quebra, de seus filhos universitários sem trabalho, que exigiam mão de ferro […]. As fogueiras nas quais ardem a ímpia literatura do marxismo iluminam radiantemente a natureza de classe do nacional-socialismo. Ainda quando os nazistas atuavam como partido e não como poder estatal, não conseguiram se aproximar absolutamente da classe trabalhadora”1. Dessa maneira, o nazismo e o fascismo buscavam se apresentar como os defensores do pequeno e médio capital, contra o grande capital. Em nenhum momento se apoiou ou realizou qualquer interesse estratégico da classe trabalhadora, voltando-se ferozmente contra essa. Assim, o nazi-fascismo é absolutamente contrário ao socialismo.

A questão da etnia e do nacionalismo são a expressão da impotência desse setor da pequena-burguesia arruinada marcada pelo rechaço ao pensamento materialista, econômico ou mesmo crítico. Fornece uma justificativa atemporal para defender a pretensa superioridade de uma etnia sobre a outra, identificando aí, e não na exploração que levam às crises capitalistas, a raiz dos males que sofre. Nas palavras de Trótski: “As qualidades da raça são construídas sem relação com as condições sociais em transformação […] ao rechaçar o pensamento econômico, o nacional-socialismo desce ao nível mais baixo: do materialismo econômico recorre ao materialismo zoológico”2.

Já o socialismo é a luta pelo fim da exploração capitalista, produto de uma revolução cujo sujeito é a classe trabalhadora. A classe trabalhadora, contando com um partido revolucionário, que deve organizar seus setores mais conscientes e resolutos no calor de seu combate, formula saídas para as aspirações de todos os setores oprimidos da sociedade. O objetivo que se coloca com a tomada do poder pelos trabalhadores é libertar a ampla maioria da escravidão assalariada que beneficia uma ínfima minoria, a classe dos detentores dos meios de produção, os capitalistas.

A revolução socialista deve se iniciar nacionalmente, mas, para atingir seu objetivo, necessita se expandir internacionalmente e se completar mundialmente, na medida em que o capitalismo deixa de existir. Ao contrário do que a direita ignorante gosta de propagar, pressupõe o avanço das forças produtivas com base em uma organização superior da produção, que atualmente ao ser ordenada pela sede de lucro e não pelas necessidades humanas desenvolve-se muito abaixo de suas potencialidades. Não há nenhuma sombra de semelhança com o nazi-fascismo.

Essa tentativa de igualar ambos não é sequer nova. Decerto que a burocratização da URSS sob Stálin colaborou para disseminar interpretações que buscam igualar socialismo e nazi-fascismo. Em 1941, Hannah Arendt, filósofa liberal, em seu “Origens do totalitarismo” já havia defendido que os nazistas e o stalinismo se assemelhavam, por conta de seu caráter totalitário, tal como fez o general Mourão em seu comentário sobre as afirmações de Ernesto Araújo e Bolsonaro. Mourão em sua sentença recorre também a outro lugar comum, ainda que distinto de Bolsonaro e Araújo, ao admitir que o comunismo é de esquerda e não de direita, mas que são semelhantes pelo seu caráter totalitário.

Hannah Arendt em sua obra parte de que essa semelhança adviria, sobretudo, em relação a um objetivo supranacional dos nazistas, que se “assemelharia à propaganda nacionalista da URSS” e que fazia em sua opinião com que a real substância do nazismo não fosse o nacionalismo restrito ao Estado-nação. Além disso, tanto o nazismo como a URSS seriam concretizações de um igualitarismo totalitário. Isso se combina a outra tese sua que dizia que haveria uma dicotomia entre a liberdade política e a liberação, essa segunda entendida como emancipação social, isto é, o fim da exploração de classes, e que não necessariamente sua conquista levaria à primeira. De maneira semelhante à dicotomia de Bolsonaro usada para criar a correlação de forças para aprovar a reforma da previdência, de que ou se tem direitos ou trabalho, a disjuntiva de Hannah Arendt implica em um posicionamento típico do liberalismo, de disseminar que não se pode conquistar a emancipação social e ao mesmo tempo ter direitos políticos. Assim, há que escolher entre liberalismo com exploração de classe ou totalitarismo sem direitos políticos.

Existem vários problemas nessa interpretação, mas nomearemos apenas dois principais nessa perspectiva de Hannah Arendt. Um primeiro é que ela não distingue o stalinismo do socialismo, como, aliás, se faz até hoje tanto em jornais, quanto nas redes sociais, como nas universidades. A burocratização da URSS e a teoria stalinista do socialismo num só país era o reverso de preceitos fundamentais do marxismo revolucionário, e não sua derivação. Ignora absolutamente toda a crítica e combate que Trótski e a Oposição de Esquerda, que atuava no interior do partido comunista russo, realizaram anos antes frente à burocratização da URSS, contra a política de Stálin, bem como o programa da revolução política para derrubar a burocracia do poder e recolocar em marcha a estratégia de internacionalizar a revolução socialista. O segundo problema é que a base do Estado nazista era a propriedade privada, enquanto na URSS havia ocorrido uma revolução levada adiante pelos trabalhadores. Não é possível reduzir essas duas formações tão distintas em “igualitarismo totalitário”.

Por sua vez, o caráter almejado pelos revolucionários era instituir um regime de transição entre o capitalismo e o comunismo, no qual a “ditadura do proletariado” equivaleria à mais ampla democracia de massas. Como assinala o  historiador Edward H. Carr:

“O termo ‘ditadura do proletariado’, aplicado pelos bolcheviques ao regime estabelecido por eles na Rússia depois da Revolução de Outubro, não comportava implicações constitucionais específicas quaisquer […]. Os ecos emocionais da palavra ‘ditadura’ associada com a ideia de mando de uns poucos ou de um somente, estava totalmente ausente das mentes dos marxistas que empregavam a frase. Pelo contrário, a ditadura do proletariado seria o primeiro regime na história em que o poder seria exercido pela classe que constituía a maioria da população, condição que havia de se cumprir na Rússia levando a massa camponesa a se unir com o proletariado industrial. […] Longe de ser o domínio da violência, prepararia o caminho para a desaparição do emprego da violência como sanção social, isto é, para a desaparição do Estado”.

Como afirma Trótski, “O regime totalitário de Hitler nasceu do terror das classes possuidoras da Alemanha diante da revolução socialista. Hitler recebeu dos proprietários o mandato para salvar sua propriedade da ameaça do bolchevismo a qualquer preço e de lhes abrir o caminho à dominação do mundo. O regime totalitário de Stálin surgiu do grande terror do povo revolucionário estrangulado que sente a nova casta que se apoderou da revolução”. São questões profundas que não se pode ignorar e que devem ser debatidas novamente para que não se caia nas manobras e falsificações históricas da ultradireita e para elaborar uma saída aos desafios de hoje.

Notas

  1. TROTSKY, Leon Que es el nacional-socialismo? Guerra y revolución, p. 127 (tradução nossa).
  2. Idem, p. 129 (tradução nossa).

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