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Trabalhadores paralisam o maior fabricante de calçados na China

sexta-feira 3 de abril de 2015| Edição do dia

Perto de se completar um ano do que foi definido como uma das mais importantes greves da história recente na China, os trabalhadores de Yue Yuen voltam a parar a produção da fábrica que produz para marcas como Nike, Adidas, Puma, Converse e outras (basta ver as etiquetas de sapatos e indumentárias esportivas onde se lê “Made in China”). Para se ter uma ideia da magnitude da produção desta empresa, é muito provável que tenhamos no nosso armário um par de sapatos feito em Yue Yuen.

As demandas da greve respondem a uma agressiva política patronal que está fazendo os trabalhadores pagarem pela “perda de competitividade” da indústria chinesa. Os trabalhadores reivindicam o pagamento integral do “fundo de habitação” que tem sido cortado há muitos meses, o pagamento do bônus anual que este ano foi reduzido de 10.000 a 4.000 yuanes e a possibilidade de eleger democraticamente seus representantes sindicais.

Yue Yuen "nunca paga o suficiente", disse um dos organizadores do protesto, de 22 anos chamado Zhang, ao site de notícias Quartz. Ele está trabalhando para a empresa há 7 anos e a empresa lhe deve ao redor de 20.000 yuanes (3.213 dólares) do fundo de habitação. O salário médio em Yue Yuen é de 3.000 a 3.500 yuanes ao mês.

O corte nos benefícios, que representam um importante complemento aos baixos salários, e as demissões têm se transformado em algo regular por parte da patronal para manter seus suculentos lucros. Para fazer isso, contam com o aval e apoio dos funcionários do governo, o Partido Comunista e a burocracia sindical da ACFTU (Federação Nacional de Sindicatos da China, único sindicato legal).

A nova greve em Yue Yuen é a expressão de um crescente conflito, que durante o último trimestre de 2014 tem visto um considerável aumento de greves operárias, muitas delas por salários pendentes do pagamento antes do feriado do Ano Novo Chinês. Em um informativo da organização chinesa Labour Bulletin, registra-se 569 paralisações durante o quarto trimestre, mais de três vezes o número no mesmo período de 2013.

As autoridades chinesas tem notado esta situação, em especial da província de Guangdong (um importante pólo industrial), e tem lançado uma série de medidas para tentar frear a onda de greves concedendo mais poder de negociação aos dirigentes da ACFTU. Mas como vemos nas reivindicações de maior democracia sindical dos trabalhadores de Yue Yuen, este novo papel protagonista para a ACFTU na “gestão” dos conflitos não significa necessariamente uma mudança automática na percepção negativa que os trabalhadores têm dos dirigentes da federação sindical.

A greve em Yue Yuen tem despertado a preocupação das autoridades e da empresa. Não é para menos, as greves do ano passado custaram a empresa um estimado de 27 milhões de dólares. Mas o mais importante é que a desaceleração da economia chinesa, e a busca de baratear a força de trabalho por parte de muitas empresas deve enfrentar a resposta dos trabalhadores.

As autoridades têm aplicado mãos duras reprimindo, isolando e demitindo os ativistas, perseguindo os trabalhadores organizados independentes, mas não têm conseguido frear as reivindicações desta nova classe operária que se põe em movimento.




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