Política

VAIAS E PROTESTOS

Sergio Moro é vaiado na Universidade de Columbia, nos EUA

O juiz Sérgio Moro foi convidado pela Universidade de Columbia, em Nova York, para uma palestra sobre governança e combate à corrupção no Brasil. Além das vaias, também ocorreu um protesto em frente à universidade antes do início do evento nesta segunda (06).

segunda-feira 6 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Logo que se apresentou no auditório do evento o juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, foi alvo de vaias e gritos como "tendencioso". Os insatisfeitos com sua presença e com seus posicionamentos foram retirados do local.

Também antes do evento começar, um grupo de estudantes e professores protestavam em frente à universidade. Em suas faixas e cartazes eles faziam alusão ao golpe institucional. O grupo afirmou que a palestra trazia uma visão unilateral sobre a situação política brasileira.

Outros nomes chegaram a ser sugeridos aos organizadores para que a discussão fosse mais equilibrada, porém somente Sergio Moro, Roberto Galvão, procurador da Lava Jato e Cármen Lúcia, presidente do STF foram convidados. A ministra não confirmou sua presença no evento, que ocorre até amanhã.

Durante a palestra Moro explicou a Lava Jato para uma plateia com muitos brasileiros. Ele foi aplaudido pelo público, tendo em vista que aqueles que não estavam satisfeitos com sua presença já tinham sido expulsos antes mesmo de sua fala começar.

O juiz ainda afirmou que espera que a Lava Jato tenha deixado a democracia brasileira "mais forte". Um desejo bastante peculiar, tendo em vista as arbitrariedades que esta operação tem promovido. Muito pelo contrário de fortalecer a democracia, a Lava Jato fortalece, na verdade o Judiciário, este poder milionário que nenhum brasileiro elegeu. Fortalece diretamente também as forças repressivas, que hoje se voltam contra os poderosos mas que se fortalecerão também contra os trabalhadores, o povo pobre e suas organizações.

Moro ainda fez questão de destacar uma suposta "teoria da conspiração" sobre ele ser "agente da CIA", dizendo que aqueles que espalham isso buscam tirar do centro do debate político os "efeitos positivos" das investigações da Lava Jato. Neste diário, embora jamais tenhamos divulgado exatamente este conteúdo, divulgamos algumas provas de que o juiz foi mesmo treinado pelo Departamento de Estado norteamericano. Os documentos foram vazados pelo Wikileaks e trazem informações sobre o curso que Moro e outros juízes fizeram sob direção dos ianques.

Embora Moro tente provar alguma "teoria da conspiração", estes fatos mostram que a conspiração americana para garantir maior participação em setores estratégicos no Brasil, como petróleo, não se limita às teorias. A via do judiciário, investindo em treinamentos específicos, demonstra-se bastante prática.

O juiz ainda destacou que a operação "não tem motivação política". Sugere que a Lava Jato segue seu próprio curso indiscriminadamente entre todos os setores políticos, para livrar o Brasil da corrupção, que ele compara com uma "doença tropical". Porém este discurso fica em contradição ao que ele mesmo disse, nesta mesma viagem à Nova York, quando afirmou que alguns integrantes da equipe "vão além do esperado". O que pode significar este "ir além", quando se trata de uma equipe que tem em suas mãos a possibilidade de interferir diretamente no cenário político nacional? Será mesmo que estes exageros comprometem tão pouco, como afirma Moro? Não é o que parece.

As novas cartas dadas na política nacional após a morte de Teori Zavascki indicam ainda caminhos incertos. O novo ministro Edson Fachin, que ocupará o lugar o Teori, deixou um tanto em aberto os rumos pelos quais atuará. Por outro lado, junto à "preciosa" Reforma da Previdência de Temer, um dos objetivos fixados por Rodrigo Maia (DEM) em sua nova gestão na Câmara é dar andamento ao projeto sobre abuso de autoridade, que mira justamente o judiciário e especificamente as ações da Lava Jato, e que tende a acirrar os ânimos entre os poderes.

Até o momento, embora apareçam nas delações, chama atenção o fato de nenhum tucano ter ficado no centro das investigações. Disso já gritam possíveis objetivos políticos por traz da operação. Sobre a foto em que aparece todo sorrisos ao lado do tucano Aécio Neves, Moro desconversou, disse que por acaso alguns investigados estavam em um evento em comum com ele, onde foi tirado o amigável retrato. Desconversou também sobre os vazamentos seletivos, como das escutas telefônicas de Dilma no ano passado. Ao Judiciário todo-poderoso ele diz ser "muito difícil" descobrir por onde vazam essas informações, que parecem às vezes escolhidas a dedo.

Não há dúvidas de que o PT se adaptou completamente aos métodos de corrupção comuns à diferentes gestões do Estado capitalista. O assunto, porém, não tem exclusividade de um ou outro grupo político. Recentemente mostramos como os esquemas da gigante Odebrecht iniciaram ainda na época dos militares. A Lava Jato não há de curar esta "doença tropical" brasileira. Em meio as disputas que se decorrem da operação, ela não irá além de reconfigurar o sistema político e renovar seus esquemas, sem garantir um combate efetivo à corrupção.




Tópicos relacionados

Sérgio Moro   /    Operação Lava Jato   /    Corrupção   /    Política

Comentários

Comentar