Política

MILITARES

Qual a política dos militares para a pandemia e para o país?

Desde a semana passada com o marco do pronunciamento sobre o combate ao coronavírus de Pujol, Comandante das Forças Armadas, os militares estão assumindo um novo papel frente à crise no Brasil, como é possível ver com a entrevista de Mourão à Folha este domingo e o tweet do General Vilas-Boas. Avançam como mediadores do regime sem esconder seu autoritaritarismo para tutelar cada vez mais Bolsonaro, o que foi visível em seu pronunciamento da última terça-feira, 31. Qual é a política dos militares para a pandemia e para o país?

quarta-feira 1º de abril| Edição do dia

O pronunciamento oficial do Exército Brasileiro na última terça-feira, 24, foi um marco no cenário político do país. Edson Leal Pujol se pronunciou pela primeira vez publicamente nas redes sociais de forma não protocolar desde que assumiu o cargo de Comandante das Forças Armadas. Colocando os militares como setor mediador entre Bolsonaro e os governadores no combate ao coronavírus, afirmou que “o braço forte atuará se for necessário”. Esse papel dos militares terem uma responsabilidade frente à crise que foi colocado publicamente veio se aprofundando com o passar dos dias.

No último sábado, 28, o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta participou de uma reunião com Bolsonaro na qual fez um apelo ao presidente por uma unidade nacional para combater o coronavírus. Pediu um uma união dos Estados, municípios e setor privado para todos agirem em conjunto. Sobre a quarentena, Mandetta concordou com a preocupação em preservar ao máximo a economia, mas também apareceu como um setor mais “sério” de combate ao vírus posicionando-se contra as carreatas contra o isolamento e afirmando que se o presidente chamar as pessoas a andarem de ônibus e metrô em São Paulo seria obrigado a criticá-lo. Bolsonaro ameaçou demiti-lo, mas como nenhuma das duas coisas aconteceu, os outros presentes, quase 100% militares, devem ter mediado os polos ali presentes.

No domingo, foi publicada uma entrevista que o vice presidente Hamilton Mourão deu à Folha, na qual aparece muito fortemente como “árbitro” da situação, mediando as declarações de Bolsonaro ao afirmar que “o presidente tem o jeito dele”, reinterpretando tudo que Bolsonaro falou. Ao mesmo tempo, ao se referir à quarentena, com um discurso diferente de Bolsonaro, coloca que como passaram 15 dias, é necessário reavaliar, ver onde se concentra a epidemia e onde não tem problema deixar circular, e que em cidades de 80 mil a 100 mil habitantes, tem que impedir aglomerações, sem festa e baile.

Na segunda-feira seguinte, o ministro da Casa Civil, general Braga Netto, que estava na reunião de sábado com o ministro da saúde, participou e mediou uma coletiva de imprensa no Palácio do Planalto junto com Mandetta, que defendeu máximo isolamento social. Após uma pergunta feita por um jornalista se o ministro da saúde estava “tendo atritos” com Bolsonaro, Braga Netto logo interveio tomando a palavra e afirmando que “não existe essa ideia de demissão do ministro Mandetta. Isso aí está fora de cogitação no momento”.

Vale destacar que nessa coletiva estava presente o chefe do Estado-Maior, da aeronáutica, Tenente Brigadeiro Amaral, algo inédito que ocorre para mostrar que as Forças Armadas como um todo, e não apenas o exército, estão pensando a situação. Com isso, dão um sinal político com um aval ao que Mandetta defendeu de máximo isolamento social, mas também sinalizando politicamente um apoio a Bolsonaro, como mostrou a entrevista de Mourão. Se colocam como meio termo, e ao mesmo tempo como mediadores através da Anvisa quais determinações dos estados valem ou não em relação à quarentena.

Junto a isso, no mesmo dia, o General Vilas Boas publicou no twitter um texto no qual coloca que “Pode discordar do presidente, mas sua postura revela coragem e perseverança nas próprias convicções. Um líder deve agir em função do que as pessoas necessitam, acima do que elas querem”. Mesmo aparecendo como moderador ao afirmar que ações extremadas não devem ser tomadas e que “a virtude está no centro”, ele faz um aceno ao presidente. Esse fato expressa como os militares estão se colocando mais comprometidos com a manutenção do governo Bolsonaro, mas não com a saída política que ele está dando à crise (concretamente estão apoiando a saída de Mandetta), e sim para buscar manter alguns poderes presidenciais, mas sem raio de ação. Ou seja, um presidente tutelado pelas Forças Armadas.

Os militares vêm demonstrado um incômodo ao nível de restrição que está acontecendo com o executivo, como ocorreu, por exemplo com o STF quando alegou que os estados e municípios poderiam decidir sobre fechar rodovias, após Bolsonaro afirmar que isso era competência do governo federal. Isso mostra que os militares apesar de não defenderem concretamente a saída de Bolsonaro à crise (divergindo em relação à quarentena), diminuindo seu raio de ação, buscam também sustentá-lo contra outros poderes para poder tutelá-lo.

O pronunciamento o presidente na última terça-feira, 31, foi um exemplo de como avança esse cenário. Com um discurso muito mais moderado e tutelado, sem criticar frontalmente o isolamento social como estava fazendo, afirmou que desde Fevereiro determinou o emprego das forças armadas no combate ao coronavírus, colocando todas as iniciativas dos militares desde então.

A cúpula militar brasileira vem acompanhando Bolsonaro na crise do Coronavírus. Após Bolsonaro falar de “anormalidade democrática em decorrência da crise”, citando as revoltas no Chile, os militares, temendo que o presidente, visto como instável, gere radicalismos que acabem envolvendo as Forças Armadas, ficaram preocupados em terem que se preparam mesmo assim para intervir sem freios de autoritarismo com possíveis medidas mais duras como Estado de Sítio, ou Garantias da Lei e da Ordem, intervenções federais em determinadas localidades, ou outras nas quais esse setor assumiu um papel mais protagonista na crise. Ou seja, a cúpula teme o papel do bolsonarismo dentro da caserna, se prepara para cumprir um papel maior de combate ao coronavírus, mas sobretudo se prepara para um papel ativo de repressão dos trabalhadores e da população de norte a sul do país.

É para isso que eles também estão se preparando no momento. Desde o pronunciamento de Pujol no qual ele afirmou sobre o “braço forte”, o Exército está participando de uma operação com o Ministério da Defesa liderado pelo general Fernando Azevedo e juntos já estabeleceram dez comandos pelo país. Ou seja, deixando explícito seu perfil autoritário e repressor separaram o Brasil em dez regiões nas quais 8 estão a cargo de generais do exército e 2 de almirantes – Natal e Salvador – para intervirem se precisarem. “Preventivamente” as Forças Armadas já tem uma estrutura de comando pronta, a postos, esperando o momento para intervir em cada parte do país, não precisarão se reunir e preparar a intervenção como fizeram no RJ, estão com cavalo selado – como eles dizem – e prontos para seu papel digno de seu herói fundador o racista, repressor e genocida Duque de Caxias.

Dessa forma vemos que os militares estão numa contradição se tomam mais o controle do governo ou não. Mas cada vez mais eles estão tendo maior envolvimento e assumindo uma responsabilidade por Bolsonaro. Também atendendo aos interesses da burguesia, se preparam tanto para possíveis repressões quanto para assumirem um papel político. Sobre o combate ao coronavírus, nem a quarentena horizontal de estados nem o liberar todos menos os velhinhos e os que vão morrer de Bolsonaro são capazes de responder. Em todas as posições há, é claro, um absoluto descaso por testes massivos que poderiam salvar vidas, dar racionalidade e eficácia maior às quarentenas. É preciso denunciar o papel crescente dos militares, a população precisa de testes, leitos hospitalares, álcool gel, máscaras N95, respiradores e não fuzis.




Tópicos relacionados

Militares na política   /    Governo Bolsonaro   /    Hamilton Mourão   /    Jair Bolsonaro   /    Política

Comentários

Comentar