Teoria

8M NA REVOLUÇÃO RUSSA

Pensar o “impossível”: as conquistas das mulheres na Revolução Russa

A emancipação das mulheres foi uma tarefa central da revolução russa, desenvolvendo uma grande criatividade inovadora. Seus debates se reatualizam: trabalho doméstico, aborto, amor livre, liberdade sexual e a homossexualidade, prostituição, direitos das mulheres trabalhadoras.

Cynthia Lub

Barcelona | @LubCynthia

quarta-feira 8 de março de 2017| Edição do dia

A conquista operária do poder proporcionou importantes direitos para as mulheres, muito a frente dos países capitalistas mais avançados do mundo. Atualmente, dentro do movimento feminista e de mulheres, praticamente se desconhece a criatividade inovadora e inigualável com a qual as mulheres e os homens bolcheviques enfrentaram as tarefas da emancipação das mulheres, enquanto avançavam numa sociedade sem exploração nem opressão.

Longe de lembrá-las da forma como observamos uma fotografia estática em preto e branco, se trata de conhecer sua experiência, para recuperar a ideia do “impossível” contra o pragmaticamente “possível” que os limites do sistema capitalista nos proporcionam.

Para isso faz falta os exercícios fundamentais: primeiro, superar os preconceitos contra a ideia da revolução e o marxismo criados pelos ideólogos capitalistas; segundo, “nos atrever” a pensar a revolução como estratégia emancipatória das mulheres.

Superando os preconceitos sobre a revolução, o marxismo e a questão de gênero

Existe um forte preconceito de que dentro do marxismo “não se pensa a questão de gênero” e que a chave de sua estratégia é “a luta pela revolução apenas no terreno econômico”.

Se a Revolução Russa permitiu conquistas inéditas para a mulher em uma época na qual as condições econômicas eram muito mais difíceis que na atualidade, foi porque importantes mulheres e homens marxistas contribuíram prática e teoricamente para isso. Inclusive um século antes, a partir de Marx e Engels, os quais mediam o avanço de uma sociedade de acordo com o grau de opressão com as mulheres.

Ligado a isso, no debate sobre a “origem do patriarcado, existe outro preconceito que se atribui ao marxismo, “apenas existiria opressão patriarcal no sistema capitalista”, e que a opressão da mulher “se resolverá após a revolução”.

Pelo contrário, Marx e Engels – sobretudo este último- insistiram e teorizaram sobre a existência da opressão das mulheres em todas as sociedades com Estado e sociedade de classes- e não apenas no capitalismo -, vinculando o patriarcado à existência das classes sociais.

Não obstante, para as marxistas socialistas, a revolução proletária é suficiente para a emancipação das mulheres? A resposta é não. E essa é uma das grandes lições que deixaram grandes dirigentes da Revolução russa, como foram Lenin e Trotsky, aqueles que propuseram a ideia de que, após a revolução, é necessária uma profunda mudança nos valores e na cultura.

Lenin propunha em 1920, que “a igualdade perante a lei não é, entretanto, igualdade perante a vida. Nós esperamos que a mulher trabalhadora conquiste, não só a igualdade sob a lei, bem como frente a vida, frente ao trabalhador. [...] O proletariado não poderá conseguir emancipar-se completamente se não houver conquistado a liberdade completa para as mulheres”.

Alexandra Kollontai, retomava Marx, o qual afirmava que não bastava transformar as relações de produção, mas que era necessária a aparição de um “homem novo”. Kollontai dedica grande parte de seus trabalhos à necessidade da revolução “psicológica” da humanidade.

Teorizava sobre a “mulher nova” e dizia que “A classe trabalhadora, para cumprir com sua missão social, não necessita de uma escrava impessoal do matrimônio, das famílias, uma escrava que possua as virtudes passivas femininas, mas uma individualidade que se alce contra a servidão, necessita um membro consciente, ativo e em pleno gozo de todos os direitos da coletividade de classe”.

Esses e outros preconceitos se baseiam nos postulados de um “falso marxismo” que vulgarizou as teorias das mulheres e homens que depois se aplicaram a prática na revolução bolchevique. Foi o stalinismo, como veremos, quem traiu a revolução impondo o regime da burocracia soviética; desenvolvendo um “revisionismo antifeminino” contrário ao “marxismo emancipatório” (“Feminismo e Marxismo: mais de 30 anos de controvérsias”, Andrea D’Atri, 2004).

Diante desta visão reducionista e economicista, neste debate ainda atual, a “reação” de setores do movimento feminista é, partindo da ideia de que a opressão das mulheres sempre havia existido em todos os sistemas sociais, teorizar o patriarcado como “matriz” de todas as demais relações de dominação, opressão e exploração. E inclusive chegar a “abstrai-la” do sistema político e sócio econômico sobre o que se assenta, e centrar a luta pela emancipação das mulheres exclusivamente no patriarcado.

Assim como as marxistas não concluímos que a emancipação das mulheres está automaticamente garantida com a revolução socialista ou com algumas leis e decretos progressivos que promovam a classe trabalhadora ao poder. Muito menos afirmamos que é nos estreitos marcos do sistema capitalista aonde a emancipação dos oprimidos pode ser possível. Por isso, contrapor a necessidade de uma “mudança cultural” à necessidade de revirar o sistema capitalista desde sua raíz, só pode ter a finalidade de menosprezar a ideia da revolução social.

As conquistas da Revolução russa e os debates atuais

Como dizíamos, após a Revolução de 1917, foram conquistados importantes direitos para as mulheres que não existiam antes da revolução nem em nenhum outro país da Europa. Para os bolcheviques, a emancipação das mulheres era uma tarefa central da revolução.

Propôs-se a abolição da “escravidão” do trabalho doméstico, e estabelecer a “socialização” do “trabalho reprodutivo”. E ainda que grande parte do movimento feminista desconheça estas premissas e reprove o marxismo por haver desvalorizado esta questão em seu pensamento, contrariamente ela foi chave na revolução.

Também a questão da instituição da prostituição, outro complexo debate atual. Outro preconceito é quando se acusa o marxismo de partir de uma consideração burguesa da prostituição como um “escândalo moral”.

Nada mais distante. Kollontai, férrea defensora da liberação da sexualidade e da ideia de que devia ser a classe trabalhadora a que avançará na conquista de uma nova moral sexual capaz de romper com o puritanismo e a monogamia tão funcionais ao patriarcado capitalista, considerou a prostituição uma instituição que condenava as mulheres pobres e que além disso era totalmente contrária a ideia socialista do amor livre, entre iguais, por estar fortemente vinculada a uma relação comercial.

Todos estes grandes debates se aplicavam a prática, não sem grandes contradições, num novo Estado operário, junto ao amor livre e a sexualidade; desenvolvendo-se novas relações sexuais e afetivas que deviam começar a se definir no seio da revolução.

Outros avanços foram, a igualdade perante a lei, que deu as mulheres o direito a controlar seus salários e sua propriedade, a reclamar a pátria a guarda sob seus filhos em caso de divórcio, e decidir onde viver, estudar e trabalhar.

O direito ao aborto legal e gratuito também foi conquistado na Rússia pela primeira vez na história, o 18 de novembro de 1920, quando Alexandra Kollontai promoveu um decreto que a declarava como um direito livre e gratuito. Passado um século, hoje seguimos lutando por esse direito em grande parte do planeta. E milhares de mulheres morrem em abortos clandestinos.

Também os bolcheviques depuseram as leis contrárias a homossexualidade em dezembro de 1917, meio século antes que os primeiros capitalistas a fazê-lo.

Respeito aos direitos das mulheres trabalhadoras, foram muitas as mulheres combatentes nos dias da grande Revolução de Outubro, dedicadas incansavelmente à tarefa apaixonante de organizar as mulheres trabalhadoras e lutar por seus direitos, como na campanha “Trabalho igual, salário igual”; algo pelo qual se segue protestando.

Revolução ou barbárie capitalista para as mulheres

Para a grande dirigente marxista alemã, Rosa Luxemburgo, a revolução russa de 1905, primeiro, foi sua fonte de inspiração, se propondo a transmiti-la para a Alemanha e inclusive tomando parte nela. “Estamos vendo a revolução russa, e seríamos uns imbecis se não aprendêssemos com ela” disse. Também foi uma grande seguidora e admiradora da revolução de 1917, que impactou a Alemanha.

Foi Rosa quem frente ao advento da Primeira Guerra Mundial disse, “Neste momento basta mirar ao nosso redor para compreender o que significa a regressão à barbárie na sociedade capitalista”.

Hoje, ainda que em um contexto mundial distinto, poderíamos falar de uma verdadeira barbárie capitalista para as mulheres. O movimento de mulheres sai às ruas não só por direitos básicos, muitos deles já reivindicados pelas mulheres a séculos, também luta para “viver” para que não nos matem sob o grito mundial de #NiUnaMenos.

Mas para que cada uma dessas lutas e conquistas triunfem, não basta resistir. Temos que nos propor a conquistar o “impossível” como dizia Rosa, “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.




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