Internacional

PRIMEIRA ANÁLISE DA SUPER TERÇA NOS EUA

O partido de Trump e sua disputa com Clinton inflamam eleições nos Estados Unidos

O resultado da Super Terça eleitoral nos Estados Unidos abre um cenário cada vez mais próximo em que Hillary Clinton e Donald Trump sejam os que disputarão a presidência da principal potência imperialista mundial em outubro. Ambos venceram seus adversários em 7 dos 11 estados que mantiveram votações neste 1 de março.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quinta-feira 3 de março de 2016| Edição do dia

Pelos Republicanos, Trump se impõe com grande margem de diferença

Nas internas Republicanas, Trump vence em 7 de 11 estados, Ted Cruz arrebata três estados (Texas, Alaska e Oklahoma) e Marco Rubio vence em Minnesota. Com a vitória, Trump assegurou (237) mais que o triplo do número de delegados conquistados por Cruz e Rubio juntos.

O desempenho de Trump é uma derrota devastadora para a cúpula do Partido Republicano, que envidou esforços para empunhar a candidatura de Marco Rubio como a principal aposta do partido para frear a corrida pela nominação do bilionário a construção. Não apenas venceu na maioria dos estados, como arrebatou os votos do Sul do país, em que o evangélico ligado ao Tea Party, Ted Cruz, era favorito.

Trump vence na Georgia (39%), Massachusetts (49%), Tennessee (39%), Arkansas (33%), Alabama (44%), Vermont (33%) e Virginia (35%), ficando em segundo lugar (27%) no Texas atrás de Ted Cruz, que venceu no estado natal com 40%.

O desespero do establishment Republicano por apostar fichas numa candidatura "conservadora moderada" de Marco Rubio foi frustrado pelos resultados: o candidato, que teve uma figuração nula nas primárias anteriores, dessa vez parecia emergir como melhor segundo colocado, superando Cruz em Massachusetts, Vermont e Virginia, e vencendo em Minnesota com 37%. Apesar deste resultado, ficou em terceiro lugar nas votações e é bastante remota qualquer chance de superar Trump (e mesmo Cruz) na nominação republicana.


Estados na disputa nesta Super Terça

Ted Cuz, como era esperado, venceu no Texas, e também no Alaska e em Oklahoma, o que o coloca como melhor segundo colocado e mais posicionado para eventualmente frear Trump. Em seu local de campanha depois da votação, Cruz fez questão de ecoar o interesse do Partido: “Apoiem-me ou Trump vencerá”, tratando de destronar Rubio como principal opositor de Trump.

Pelos Democratas, Clinton bate Sanders com o apoio dos estados do SuL

Do lado Democrata, Hillary Clinton se apoiou na imensa vantagem que lhe confere o voto da comunidade negra nos estados do Sul e vence Bernie Sanders em 7 dos 11 estados, conquistando 486 delegados.

Na Georgia, Arkansas, Tennessee, Alabama, no Texas e na Virginia, todos estados sulistas, vence por ampla margem, 73%, 68%, 65%, 66% e 65% respectivamente. Em Massachusetts, sai praticamente empatada com Sanders, mas vence por 51% a 48%.

O único estado do sul, com presença das comunidades negra e latina, que Sanders arrebatou a Clinton foi Oklahoma, com 52% dos votos. Mas Sanders conseguiu superar Clinton em outros três estados de população majoritariamente branca e liberal: em Minnesota (59%) e no Colorado (58%), além de Vermont, onde Sanders é senador, com esmagadores 86%.

O grande diferencial é que Clinton conseguiu vencer nos estados que conferem o maior número de delegados, como Massachusetts, Georgia e Texas.

Sob as leis do Partido Democrata, a maior parte dos delegados – que decidem a nominação – são presenteados a Clinton e Sanders proporcionalmente à quantidade de votos recebida por cada um nos distritos congressionais. Os distritos que tem mais inclinação ao voto nos Democratas tem maior número de delegados para partilhar entre os dois candidatos.

Por sua vez, Sanders, que continua com grande apelo na juventude, consolida sua incapacidade de expandir sua influência às comunidades negra e latina, e de vincular-se aos problemas candentes dos setores mais oprimidos da classe trabalhadora norteamericana.

O partido de Trump

O partido Republicano vai se transformando no partido de Trump. A retórica republicana de uma “campanha contra Trump” não tem a ver com a negativa a suas posições de extrema direita, mas à necessidade de disciplinar um candidato de direita.

A vitória de Trump é contundente. Apesar da derrota de Cruz e Rubio, o ascenso do empresário é um banquete para as posições do Tea Party e de uma base social mais conservadora e xenófoba dentro das classes médias e mesmo setores de assalariados, que adotaram a responsabilização dos “imigrantes mexicanos” e dos “pobres” pela continuidade da crise.

A grande incógnita é qual a estratégia republicana para cerrar fileiras e impedir sua nominação cada vez mais próxima. Rubio não apresenta horizontes. É provável que o homofóbico e racista Ted Cruz – que nutre as posições mais direitistas contra os imigrantes e os direitos dos homossexuais – seja o favorito da cúpula republicana.

Isso porque a crise de ter um dos partidos mais tradicionais dos Estados Unidos tomado por Trump aterra as elites financeiras e a mídia estadunidense. Tanto assim que o New York Times – não por discordar da linha de direita dos Republicanos, mas por considerar o bilionário xenófobo um fator de desestabilização política – chegou a apoiar abertamente a nominação democrata para a presidência, saudando em editorial a "admirável campanha" de Sanders e encorajando Hillary a "mostrar uma alternativa à política de fúria de Trump".

Sobre o que se apóiam Trump e Clinton?

Comparando-se os resultados dos dois vencedores da jornada – e que cada vez mais se aproximam da disputa eleitoral geral – Hillary Clinton e Donald Trump venceram nos mesmos lugares: numa faixa que vai dos estados agrários do Sul até a industrializada costa leste.

A aliança que Trump estabeleceu com grandes milionários e pequenos patrões, além de setores da classe média, baseia-se no ódio do imperialismo norteamericano contra os trabalhadores negros e imigrantes, na necessidade de barrar os aumentos salariais e o direito de sindicalização, à competição comercial estrangeira em meio à lenta recuperação econômica do país e o receio que vem sendo animado pela presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, de uma nova recessão nos EUA.

Em artigo de Thomas Edsall, trata-se de explorar as bases econômicas dos últimos 40 anos que prepararam o ascenso de Trump. Segundo o autor, a parte da renda nacional que vai para as camadas assalariadas, em comparação com a parte que vai para os grandes capitalistas, caiu de 68,8% em 1970 para 60% em 2013. Os empregos industriais caíram 36% desde 1979, de 19,3 milhões para 12,3 milhões em 2015 (tendo como principais fatores o desmantelamento de grandes cidades industriais como Detroit, Pittsburgh e Baltimore), enquanto a população passou de 225 para 321 milhões de pessoas.


Gráfico que mostra a queda do número de domicílios com renda de 100 mil dólares ao ano depois de 2000, e o aumento da pauperização das famílias.

Entretanto, podemos ir mais fundo nas bases materiais que explicam a crise do “extremo centro” no coração do imperialismo. O enorme impulso da economia chinesa na década de 2000 – e a injeção de crédito em 2009 que permitiu a manutenção do crescimento chinês depois do estouro da crise – mobilizou a ida de grandes multinacionais imperialistas para o gigante asiático. Esse movimento massivo foi estratégico para os capitalistas poderem rebaixar o valor da força de trabalho dentro dos EUA, aumentar o desemprego e abrir uma ampla brecha de insatisfação num setor de trabalhadores que perdeu direitos adquiridos.

Este fator motorizou o discurso de Trump contra a “competição comercial” da China, e também contra a imigração.

A outra fonte de contradições sociais surgiu com o colapso financeiro de 2008 e as respostas do governo para sanar os grandes bancos e seguradoras às expensas da população pobre. Em outubro de 2008 o então presidente George W. Bush assinou a criação do TARP (Troubled Asset Relief Program), que significou a injeção de trilhões de dólares de dinheiro público para salvar grandes bancos como o Goldman Sachs, monopólios como a General Motors e a Chrysler, e grandes seguradoras como a AIG. O sentimento de que os grandes bancos e empresas concentravam mais lucros, enquanto a imensa parte dos trabalhadores e jovens amarguravam o desemprego, o congelamento salarial e a hipoteca das próprias casas, inflamou a indignação de amplas camadas e deu origem ao movimento Occupy Wall Street na juventude.

Segundo pesquisa da Ipsos em setembro de 2015, o rechaço da base social conservadora republicana é maior à política do governo. 72% dos Republicanos concordaram com a sentença, “Não mais me identifico com o que os EUA se tornaram”, comparado a 45% dos Democratas. 62% dos Republicanos concordaram com a frase “Me sinto como um estranho em meu país”, comparado com 37% dos Democratas.

Essas são as marcas materiais da ira que divide as camadas médias da população e que influencia as opiniões dos trabalhadores contra o establishment. Num confronto direto, é certo que Hillary seria a provável vencedora (ainda que não se descarte uma eventual vitória do novaiorquino), mas também que Trump não perderia por uma larga margem, já que é mais capaz de expressar pela direita o descontentamento social do que Clinton, que pertence ao velho clã que domina a política norteamericana e não encanta ninguém. Ainda que vença, Hillary representa exatamente o que está em crise nos EUA, o status quo.

Isto é o decisivo. A "nova direita" se fará sentir em todos os momentos da política imperialista, inclusive o avanço neocolonial ianque sobre a América Latina. Independente do vencedor, este giro superestrutural à direita prenuncia convulsões importantes no "coração da besta".

Por que Sanders não apareceu como alternativa?

Sanders conseguiu aparecer como a expressão distorcida deste ódio da juventude contra a elite financeira, o “99% contra 1%”. Entretanto, sendo parte do sistema bipartidário apesar de seu “apelo independente”, não conseguiu se ligar às camadas mais oprimidas dos trabalhadores e da população, sendo incapaz de encarnar uma alternativa de esquerda – sequer diremos anticapitalista – aos anseios mais profundos da população imigrante e muçulmana, atacada pela xenofobia de Trump e de Cruz, ou da comunidade negra, que representa a esmagadora maioria dos postos de trabalho precário, sem direitos de sindicalização ou desempregados. Sanders apoiava a campanha do “salário mínimo de 15 dólares/hora” sem se conectar com as lutas dos setores de classe que levantavam esta bandeira. Isto impediu que tivesse respaldo em estados que não fossem majoritariamente compostos por brancos liberais.

Como discutimos em outros artigos, sua política externa reacionária, de apoio aos bombardeios imperialistas na Síria e respaldo inconteste ao Estado terrorista de Israel, também não o ligava aos movimentos políticos de solidariedade aos refugiados ou à campanha contra o extermínio do povo palestino.

Para tomar uma expressão de Perry Anderson, que se referia às diferenças entre o Syriza na Grécia e a extrema direita na Europa, os neoreformismos de esquerda “sustentam posições muito menos radicais que a direita antisistêmica”. Mas enquanto Anderson criticava a “desvantagem tática” que isso representa, esquecia de “olhar o bosque” e enxergar a necessidade estratégica de construir uma alternativa política anticapitalista e independente dos trabalhadores.

Estratégias “antineoliberais” que não são anticapitalistas são incapazes de unificar os trabalhadores sob uma estratégia de classe própria, independente de qualquer variante do regime burguês, que possa apresentar a sua resposta à crise e influenciar a pequena burguesia urbana e do campo, incutindo-lhe confiança na capacidade dos trabalhadores de levar a sociedade por um novo caminho. Esta é a única maneira de afastar estas camadas médias da influência da direita ou extrema direita a partir de um programa político de uma esquerda que questione o capitalismo e sua “democracia dos milionários”. As lutas dos setores mais precários de trabalhadores abona esta hipótese: uma estratégia dos trabalhadores contra a estratégia do capitalismo.

Este pensamento estratégico em favor da hegemonia dos trabalhadores sobre todos os setores oprimidos, também nos centros imperialistas do “ocidente”, está ausente das reflexões da esquerda, como vemos no Brasil com o PSOL ou intelectuais universitários, que se encarrilham atrás de cada neoreformismo como “um novo realinhamento na esquerda mundial” ou com a “miséria do possível”. Assim foram iludidos por Syriza, Podemos e agora Bernie Sanders.




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