Política

DIRETÓRIO NACIONAL DO PT

PT: palavras de esquerda para manter a política de conciliação com a direita

O documento do diretório nacional do PT aponta continuidade da política de conciliação e acordos com a direita, apesar do golpe. Procurando se redimir com sua base social, o documento finge esboçar uma autocrítica, no entanto mantém a mesma estratégia de conciliação de sempre.

quinta-feira 19 de maio de 2016| Edição do dia

O diretório nacional do PT publicou hoje um documento no qual reproduz uma suposta reorientação partidária pós-golpe, a partir de uma caracterização do processo do impeachment, do governo interino de Temer e de um balanço das ações dos últimos treze anos de governo. Também publicou, sem o mesmo destaque, uma resolução eleitoral, bastante elucidativa da política que de fato norteará o partido: da manutenção das alianças com a mesma direita – basta que não tenham se pronunciado abertamente pelo golpe.

Com uma verborragia de esquerda e uma aparente autocrítica, busca dialogar com os setores de trabalhadores e jovens que se desiludiram com o PT ao longo dos últimos anos, fazendo um mea culpa e propondo o retorno a estes setores. Porém, os próprios documentos mostram que a estratégia de conciliação de classes do partido – não importa a lição que tomaram de seus ex-aliados não se altera em nenhuma linha.

No papel cada crítica...

Toda a primeira parte do documento é voltada a caracterizar o impeachment de Dilma Rousseff como um golpe. Se utiliza dos argumentos que mais têm aparecido entre as mídias alternativas, as redes sociais, os discursos de intelectuais de esquerda e até mesmo da imprensa internacional – que hoje mostram a preferência por um governo mais legitimado para, na verdade, impor os mesmos ataques com maior legitimidade. Carrega nas adjetivações dessa política da direita: “conspiração golpista”, “fraude”, “manipulação”, “caráter historicamente antidemocrático das classes dominantes”, “forças usurpadoras”, “campo reacionário”, “escalada da criminalização da esquerda”.

O tom mais agressivo contra os golpistas é usado para fazer essa reaproximação e novamente tentar iludi-los de que é possível que tenham uma política de fato de enfrentamento com os setores reacionários da política e com a burguesia nacional e internacional.

A verdade é que, quando o golpe ainda estava sendo costurado, em nenhum momento nem a direção nacional do partido e nem a própria presidenta prepararam as massas para um combate contundente ao golpe ainda não consolidado. Toda política de Dilma e Lula era costurar alianças com o mesmo “campo reacionário” que agora o PT denuncia. A CUT preparou um fiasco de dia nacional de paralisação.

E sobre isso, em nenhum momento o documento faz a autocrítica. Fizeram e teriam feito de novo. Isso está claro na resolução eleitoral, que exclui alianças somente com quem “votou e/ou apoiou publicamente o impeachment”. Porém, claramente milhares de políticos dos partidos da direita tradicional, como o próprio PMDB, não se declararam sobre o golpe, mas sabemos que são parte da política hoje instalada do governo golpista. Com estes, podem fazer alianças então?

Também carregam na denúncia do que está por vir com o governo golpista de Temer: ataques aos direitos dos trabalhadores, cortes profundos nos direitos sociais, maior abertura às privatizações e entrega das riquezas nacionais aos interesses imperialistas. Tudo verdade.

Trabalho este, porém, que Dilma iniciou com cortes bilionários na Educação e na Saúde, fim de programas sociais como o FIES, proposta de congelamento nacional de salários dos servidores públicos, entrega do pré-sal à anglo-holandesa Shell, aprovação da lei antiterrorismo – para intensificar a “escalada de criminalização” aos lutadores. E agora carregam na tinta contra os reacionários de plantão para se escorarem em quem restou para se aliar: na classe trabalhadora, na intelectualidade de esquerda e na juventude.

A autocrítica dos “erros” para nos alentar

No seio da classe trabalhadora, principalmente onde o PT é direção sindical profundamente questionada, essa autocrítica já se apresentou. Por exemplo, em algumas reuniões da Apeoesp ouvimos dos dirigentes que “é fato, erramos”, ou “precisamos recompor a política do partido”, para esquivarem-se das críticas de fundo estratégico e fomentarem novamente uma esperança num PT dos trabalhadores.

É esse o mesmo tom do documento. As críticas, chamadas de “erros”, sobre as alianças partidárias e o financiamento privado de campanha só servem para canalizar todo o problema numa “pressão incontrolável” da direita sobre o governo; quando, na verdade, a estratégia do “pacto pluriclassista”, como eles chamam, é o que continua primando. São “erros” para eles, desvios corrigíveis com a retomada da confiança das bases, que só é possível dando certa vazão às “ações massivas” como forma de “pressão nas instituições” – deixam claro: “Confiamos na governabilidade institucional, a partir de alianças ao centro, como coluna vertebral para a sustentação de nosso projeto. (...) Mas fomos acanhados ao impulsionar a luta social como vetor fundamental de pressão sobre as instituições”.

Ou seja, as ações são para conseguir que, na repartição do bolo em momentos de crise como o atual, as migalhas continuem caindo nas mãos dos trabalhadores, mantendo assim o lado dos explorados no pacto pluriclassista. Mas é claro, sem perder de vista que é preciso “governar pra todos”, como dizia Lula no momento de sua eleição. O problema é que este lema, no sistema capitalista, significará sempre governar para os ricos, separando um pouquinho para atenuar as profundas exploração e opressão como bases fundantes deste sistema.

Chegam até a falar da necessidade de debater sobre “a remoção dos entulhos autoritários herdados da transição conservadora pós-ditadura”. Debate, somente. E em desenvolvimento a essa política, Lula ou Dilma jamais propuseram a punição dos torturadores e políticos militares e civis.

A orientação é retorno às bases... para continuar cumprindo o seu papel conciliatório e de alianças com a direita

Desenvolvem nos dois documentos a necessidade de recuperar a confiança dos trabalhadores. E como todo partido eleitoral, que busca conciliar interesses irreconciliáveis como de trabalhadores e patrões, orienta a atuação nas eleições municipais como ponto de partida para reerguer o PT como alternativa para os trabalhadores, com a força da militância das bases. É para se recompor como alternativa também para todos os setores burgueses que é possível convencer de que, com o PT, é mais fácil garantir a governabilidade (mantendo a classe trabalhadora controlada para não querer além do que a burguesia “pode dar”). E isso se faz mantendo alianças com a mesma direita.

E fica claro esse objetivo, como explicitou Rui Falcão, presidente nacional do PT, em entrevista ao G1: “Se alguém do PMDB quiser participar conosco numa chapa na eleição municipal, que não tenha apoiado o impeachment publicamente, e que adote programas que priorizem a área social, que faça orçamento participativo, que abra o debate, que tenha transparência, que não permita corrupção, não há nenhuma objeção.” Claro, porque neste sistema corrupto, o que mais tem neste país é político contra a corrupção, não é mesmo?

Falam em, a partir daí, construir a oposição ao governo golpista. Mas é para que Dilma retorne, e com mais força e respaldo social do que tinha no seu mandato. Falam também em “combinar todos os tipos de ação massiva e combate parlamentar” para fazer essa oposição. Mas as ações massivas são na verdade showmícios e servem pura e simplesmente para ajudar como pressão no combate parlamentar, ou seja, por dentro e com a direita clássica, na aprovação do que for viável para o parlamento podre dar aos trabalhadores; e não como meios de luta de classes, em que os trabalhadores arrancam o que lhes é de direito, fazendo com que os capitalistas paguem pela crise que criaram.

Os trabalhadores precisam de uma política de independência de classe

A estratégia histórica do PT, que não se altera com o golpe, já se mostrou totalmente falida. A burguesia sempre quererá manter, através de seus representantes políticos, seus privilégios de classe dominante que é, e todo o seu aparato estatal está a serviço disso. Inclusive a própria constituição, que nestes tempos foi rasgada em vários aspectos com o golpe institucional, serve aos mesmos preceitos.

Por mais contornos de esquerda o PT busque ter agora, o fato é que quer se reerguer para continuar cumprindo o mesmo papel que sempre cumpriu: de manter os privilégios dos ricos em troca de algumas concessões aos explorados.

Não podemos confiar em nenhuma aliança nem acordo com a direita e a burguesia à qual representa, já estamos vendo a que isso nos levou nos últimos anos e nos leva agora com o golpe e seus agentes reacionários. Por isso, é necessário que com a força de nossa mobilização, como mostram hoje as lutas da juventude e dos trabalhadores no RJ, RS, SP, CE, com centenas de ocupações de escola e greves, como nas universidades paulistas, impormos uma mudança nas regras deste jogo (no qual o PT busca ser só mais uma peça diferente). Precisamos de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde os trabalhadores e a população possam decidir por uma nova constituição que acabe com os privilégios de políticos e juízes, que garanta medidas historicamente reivindicadas como a reforma agrária, que estabeleça todos os direitos fundamentais aos trabalhadores como saúde e educação de qualidade. Só assim, nos enfrentando com os interesses dos patrões, que poderemos garantir uma real transformação social a nosso favor.




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