Cultura

HOMENAGEM

O legado de Billie Holiday: Transformar a tristeza

Completam-se 101 anos do nascimento de uma cantora legendária (1915–1959). Mulher, negra e pobre teve uma vida amarga e desta tirou proveito para gerar o oposto.

sábado 16 de abril de 2016| Edição do dia

“Não penso que estou cantando. Me sinto como se estivesse tocando uma trombeta ou um saxofone.”

“Das árvores do Sul nascem uma fruta estranha / sangue nas folhas e sangue nas raízes / corpos negros balançando na brisa serena.” (Este verso é parte sobre os linchamentos aos negros no Sul do EUA: “Strange fruit” -Fruta estranha)

A música popular norte americana passou por um antes e um depois assim que surgiu a garganta de Billie em 1938 quando com vinte e três anos cantou pela primeira vez aos vômitos porque a letra a tocava até os intestinos. “Não havia ouvido nada mais lindo” lhe disse uma mulher do público no banheiro justo nesse instante; a jovem artista chorava angustiada, ainda não sabia, mas havia conseguido algo inédito: que uma canção de protesto sobre os negros, escrita por um professor comunista (paradoxalmente branco) saíra dos círculos militantes para alcançar uma massa categórica no mundo do espetáculo.

Estranha Fruta

Na prematura carreira de “Lady Day” (como a apelidou seu amigo, o saxofonista Lester Young) que começou profissionalmente aos dezoito anos, é possível encontrar dois elementos distintos em relação a outras cantoras: a duríssima vida nos bairros pobres de Baltimore em plena depressão e a nula formação musical que a dotaram de uma poderosa qualidade rítmica e melódica unindo com gritos do jazz, gênero a que se dedicou quando em sua expressão irrompeu cantando um tempo por detrás da melodia instrumental.

Cantava assim porque era a única forma que poderia fazê-lo: com uma oitava e meio de registro, limitada, se criava sobre uma melodia como que buscando um lugar no mundo no qual não havia nascido. Enorme poder de improvisação e particular timbre rouco e quebrado, soava assim porque desde menina só havia conhecido o ruído das miséria humanas (e ainda haveria de conhecer outras). Em três minutos de blues ou de jazz, inclusive às vezes com palavras base como “baby”, “man” ou “love” podia estremecer o público e sem nenhum alarde vocal.

Alguns críticos de jazz tem afirmado que havia mais de profundidade emocional que de virtuosismo. A técnica é indiscutível, mas em tantos artistas e produtores de cultura (como define Ângela Davis em uma entrevista), não houve outra igual até agora.

Válvula de escape

Em sua autobiografia “Lady sings the blues” a mesma Eleonora Fagan (seu nome real) conta como foi sua vida desde a infância: pobreza, abandono de seus pais ainda na infância, um estupro aos doze anos, prostituição, reformatórios, racismo, etc.

Sem obstáculo, como num golpe de sorte, uma porta se abriu aos seus quinze anos ao entrar num bar oferecendo-se como bailarina e fracassar desastrosamente na prova.
Foi então que em última instância o pianista começou a cantar “Trav’lin all alone” (Viajando sozinha) e deixou a todos mudos. Eram os anos da grande depressão econômica, e da ressaca do jazz que havia brilhado nos anos vinte.
Graças a isso, boa parte dos bares onde tocavam ou assistiam negros eram clandestinos. Sem microfones nem altas vozes que chamariam a atenção fora do bar, Billie se encontrava obrigada a caminhar pelo salão cantando de mesa em mesa, e como cada uma possuía sua particular ressonância, aprendeu a habilidade de adaptar-se e de cantar de mil maneiras distintas uma mesma canção modificando seu timbre e dicção.
Três anos mais tarde em 1933, John Hammond que era produtor musical, conhece esta jovem e viaja até o profundo Sul dos negros para escutá-la.

Depois de ouvi-la se sente obrigado a fazer os arranjos para que em 27 de novembro do mesmo ano, onde nada menos que o músico Beni Goodman lhe abrira para sempre as portas de um estúdio. Assim começa e deslancha sua incrível carreira para a jovem com idade de dezoito anos. Desde então, compartilhará palcos, vida e profissão com outras lendas do jazz entre outros Duke Ellington, Louis Armstrong e essencialmente com Lester Young, que para dizer algo sobre a relação de amizade e artística que os atravessou seria necessário um capítulo à parte.
Gravou mais de uma centena de canções entre os finais da década de 30 e 40. Foi uma carreira curta e sinuosa que marcaria para sempre os gêneros que interpretou e é desde então uma das cantoras mais influentes em todo o mundo até as gerações atuais.

A imortalidade

Pensar na vida de “Lady Day” abstraindo da tristeza é tarefa difícil. Seus primeiros anos de êxito nunca deixaram de estar esmagados pelo racismo brutal ao qual ainda sendo uma estrela era submetida cada vez que não estava no palco. As penúrias que enfrentou em sua vida, desde as primeiras horas, com pais adolescentes (sua mãe tinha 13 anos e seu pai 15, que finalmente as abandonou um ano depois), os maus tratos e vexames por ser mulher negra e pobre forjaram nela um duro caráter que lhe valeu entre seus parentes a fama de “arisca” e “mal-educada”. Em sua voz tremendamente emotiva aparece o coração frágil da menina abandonada que se fez a si mesma na rua e endureceu-se para que jamais nenhum homem ou pessoa lhe causasse mal. Nisso, ela mesma conta numa entrevista, fracassou, pois acabava apaixonando-se por homens violentos.

Passou pela prisão várias vezes por beber, drogar-se, por brigas na rua. Terminou seus dias na curta idade de 44 anos fruto de uma cirrose, quatro meses depois que falecera seu amigo Lester.

Tradução: Anita Anoca




Tópicos relacionados

Música   /    Cultura

Comentários

Comentar