Sociedade

FIFA CORRUPÇÃO

O futebol não é da Fifa

Alberto Suzano

São Paulo

sexta-feira 29 de maio de 2015| Edição do dia

Não se sabe o motivo, mas quando o pé de uma criança ataca uma bola (de couro, sintética, de meia ou de qualquer outro material) pela primeira vez, em muitíssimos casos, tem início uma paixão que se estende até o fim da vida. Ela se desenvolve com o bate-bola na rua com os amigos, com o amor incondicional a um clube e com a aflição nos domingos em frente à televisão. A coisa é forte no Brasil, mas o mesmo ocorre na Itália, na Argentina, na África do Sul e em muitos outros países: são 270 milhões de praticantes em todo o mundo, segundo dados estimados por uma certa Fédération Internationale de Football Association (Fifa – Federação Internacional de Futebol, em tradução livre), que será citada adiante.

Mas quem inventou esse esporte tão simples e apaixonante? Há quem diga que foram os ingleses, no fim do século XIX, mas existem teorias de que o “foot-ball” é derivado de práticas chinesas bem mais antigas, datadas de 3000 aC. Convenhamos, é pouco provável que, em aproximadamente 200 mil anos de existência da raça humana, a brincadeira de chutar um objeto esférico tenha se dado pela primeira vez há cerca de cem primaveras. As regras como as conhecemos hoje podem ter sido criadas pelos britânicos, mas a coisa difícil de explicar, a compulsão em chutar uma bola, essa já estava aí no mundão faz tempo. É um patrimônio da humanidade.

As regras inglesas fizeram o “futebol formal” explodir e superar o críquete e a corrida de cavalos no gosto popular, no início do século XX. Em 1904, na França, alguns cartolas perceberam o potencial do futebol como negócio e fundaram a tal Fifa. Os objetivos seriam organizar competições e expandir o esporte; na prática, a criação da entidade foi a tentativa mais bem sucedida de sequestrar um bem popular. Se a bola não era de ninguém, a Fifa a colocaria debaixo do braço para se proclamar a dona do esporte.

Surgiram então as melhores cartadas da Fifa: os campeonatos mundiais. A corrupção comeu solta desde o primeiro deles, no Uruguai, em 1930 – isso nem o ridículo filme oficial da Fifa, que retrata dirigentes da entidade como heróis do futebol (produzido com US$ 27 milhões da própria entidade) consegue esconder. A popularidade do esporte impulsionou a federação que, principalmente depois da eleição do brasileiro João Havelange como presidente, em 1974, cresceu na mesma medida em que seus esquemas de lavagem de dinheiro, de manipulação de resultados e de venda de votos para escolha de localidades de campeonatos.

Hoje a Fifa é sinônimo de um dos eventos mais rentáveis do mundo (Copa do Mundo Fifa); de um dos jogos de vídeo game mais populares do planeta (Fifa Soccer); e de muita, muita corrupção. Com milhões de reais na conta, patrocinadores mais poderosos do mundo e o controle de eventos com os melhores jogadores do planeta, quem poderia ir contra a autointitulada dona da bola? O jornalista inglês Andrew Jennings foi ... E ao longo de praticamente quatro décadas ele tentou desmascarar as falcatruas da Fifa com investigações profundas, publicadas na imprensa e em livros. Tudo o que o britânico tanto alardeou finalmente veio à tona na última semana.

Pelo menos sete dirigentes da organização foram presos em Zurique, na Suíça, antes do início do congresso da Fifa, acusados de participação em um gigantesco esquema de corrupção no futebol. Os valores desviados chegam a US$ 150 milhões, mas tudo leva a crer que essa é apenas a ponta do iceberg. Bilhões de dólares e terríveis consequências (como as mortes por trabalho escravo no Catar, sede do mundial de 2022) estão na base dessa estrutura.

Entre os presos está José Maria Marin, um típico “filhote da ditadura”, (filiado à Arena na ditadura militar e acusado de perseguir o jornalista Vladimir Herzog, posteriormente assassinado). Ele era o presidente da Confederação Brasileira de Futebol no ano passado, quando ocorreu a superfaturada Copa do Mundo no Brasil, que também está sendo investigada. Entre as proezas de Marin estão o roubo descarado de uma medalha durante uma premiação de futebol júnior e o batismo da nova sede milionária da CBF com o próprio nome – prontamente removido quando a prisão do cartola ocorreu.

A Fifa e seus dirigentes, depois de décadas com a bola debaixo do braço e enriquecendo com o futebol moderno (transformado cada vez mais em produto televisivo absurdamente lucrativo), começaram a perceber que não podem tudo. A bola não é deles, muito menos o futebol. Ninguém precisa de organizações corruptas cheias de executivos que nunca chutaram uma bola na vida para realizar campeonatos. Precisamos é de crianças que joguem futebol com um objetivo simples: a diversão. Enquanto essa paixão existir, o futebol resistirá, apesar da Fifa.




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