Gênero e sexualidade

Rumo ao 8M

Não vamos sair às ruas de braços dados com você, Damares!

Em entrevista à Folha de São Paulo publicada nesta segunda-feira, 18 de fevereiro, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou "Tem pautas feministas que eu abraço. Por exemplo: salários iguais entre homens e mulheres e luta contra a violência. Se for para eu e as feministas irmos para as ruas de braços dados contra isso, eu vou." Mas, podemos marchar lado a lado com Damares?

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

segunda-feira 18 de fevereiro| Edição do dia

Primeiro precisamos partir do ponto comum que o patriarcado existe muito antes do sistema capitalista e suas consequências podem ser sentidas, ainda que em diferentes graus e aspectos, por todas as mulheres. Mas é preciso dizer também que, embora a invenção do patriarcado seja milenar, é no capitalismo que a relação entre opressão e exploração se tornou cada vez mais intrínseca. A existência de um depende do outro. Essa simbiose coloca na ordem do dia a tarefa urgente de discutir a luta contra a opressão sobre uma perspectiva classista.

Azul, rosa, príncipes e princesas

"Especificamente quanto ao “menino veste azul e menina veste rosa” é uma metáfora extraordinária para mim. Como eu digo que menina é princesa e menino é príncipe. Onde está o erro? É tudo muito simbólico."

Logo que assumiu a pasta, Damares anunciou o início de uma nova era onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Estava anunciando assim a guerra contra o que ela e os conservadores chamam de ideologia de gênero. Para a direita, a discussão sobre gênero mais que um simples tabu é parte fundamental de sedimentar a sociedade baseada na exploração e na divisão das fileiras operárias.

O discurso de gênero dos conservadores é permeado de ideologia. Na ideologia deles, as mulheres devem ser submissas e sobre elas recair todo o trabalho doméstico. Devem ser belas, recatadas e do lar. Isso significa na prática, não apenas “domar as mulheres”, mas também justificar a razão pela qual um trabalho que é essencial para o lucro dos patrões permaneça sendo realizado de forma gratuita pelas mulheres.

A manutenção dessa ideologia defendida por Damares significa na prática isentar o Estado e os patrões de fornecer restaurantes públicos, lavanderias, creches e desconta nas costas das mulheres o julgo do trabalho doméstico. São e média 21 horas de trabalho a mais que as mulheres realizam sem nenhuma remuneração. No entanto, esse valioso trabalho, é fundamental para garantir o trabalho e o lucro produzido nas fábricas, nas empresas, em todo lugar.

Defender príncipes e princesas e azul e rosa, é defender o papel da família tradicional tal qual inventada pela burguesia. O erro é não ver que além de pura ideologia, essa defendida por Damares está a serviço de aumentar o lucro dos patrões.

Veja: Rosa e azul: nada a ver com gêneros

É pela vida das mulheres

"Pessoalmente sou contra qualquer tipo de aborto, mesmo em caso de estupro."

Damares se diz defensora da vida e faz questão de se colocar contra o aborto em qualquer situação, mesmo em caso de estupro. No entanto essa defesa da vida em abstrato não se materializa na defesa dos direitos nem das mães, tampouco das crianças. A hipócrita posição de Damares de defesa da vida se contrapõe a projetos que são duros ataques à juventude trabalhadora, que afeta suas condições de vida e seu futuro. A veemência com que combate o aborto não se vê no combate à precarização da vida de milhões de jovens trabalhadores. Nem tampouco na defesa de direitos elementares como educação ou creches. Mas é preciso falar das mães e mulheres que Damares ataca.

As obrigações com a criação dos filhos recaem hoje sobre as costas das mulheres. Esse julgo imensurável não apenas soma horas de trabalho à dupla ou até mesmo tripla jornada das mulheres. Também se soma a isso salários menores, maior vulnerabilidade de demissão além de sofrerem sanções por que faltam mais ao trabalho para levar os filhos ao médico ou por acompanharem a vida escolar. São, por isso, também sujeitas a maior assédio moral nos locais de trabalho. Nessa situação, muitas mulheres se vêm sem condições de levar adiante uma gravidez. De acordo com as estatísticas, a maioria das mulheres que optam por interromper a gravidez são mulheres negras e pobres. A maioria dessas mulheres é casada ou em um relacionamento estável e possuem alguma religião. São mais de 1200 mortes todos os anos e mais de milhares de outras complicações decorrentes da proibição do aborto.

Veja aqui: Mães recebem 40% a menos que mulheres sem filhos

Na prática, o que Damares defende é que as mulheres continuem morrendo vítimas de abortos clandestinos, especialmente as mulheres pobres e negras que não conseguem pagar as caríssimas clínicas de aborto e acabam recorrendo à métodos inseguros, movidas pelo desespero. Por que a vida dessas mulheres vale tão pouco?

Sororidade com a burguesia? Podemos marchar juntas?

"Tem pautas feministas que eu abraço. Por exemplo: salários iguais entre homens e mulheres e luta contra a violência. Se for para eu e as feministas irmos para as ruas de braços dados contra isso, eu vou."

É possível uma unidade contra a opressão patriarcal que não combata o que a mantém existindo, não os homens, mas o capitalismo?

A grande diferença que carregamos é que, embora Damares anuncie ser contra a desigualdade salarial e contra a violência de gênero, o sistema e a ideologia que defende são os mantenedores da opressão patriarcal.

Damares já chegou a defender publicamente que lugar de mulher é em casa. Desobrigando o estado de cumprir suas funções e jogando nas costas das mulheres o peso da dupla jornada. Ou seja, o trabalho doméstico continuaria não remunerado. Mas seja por necessidade, seja por escolha, as mulheres estão no mercado de trabalho. O número de lares chefiados por mulheres é de quase 30 milhões. No entanto, embora sejamos hoje quase metade da classe trabalhadora. Recebemos os menores salários. As mulheres ganham cerca de 30% menos que os homens. Uma mulher negra chega a ganhar 60% a menos que um homem branco. Para combatermos a desigualdade salarial, precisamos golpear na origem do problema. Damares estaria disposta? A discussão é sobre estratégia.

Para aumentar a exploração sobre os trabalhadores os patrões precisam de meios de manter a classe dividida e desorganizada. Homens e mulheres, brancos e negros, efetivos e terceirizados. Assim rebaixam os salários do conjunto da nossa classe, aumentando seus lucros. Para conseguir isso, a manutenção da opressão de gênero, do machismo, é fundamental. Precisam fazer com que as mulheres valham menos para justificar a exploração. Assim, o trabalho considerado “de mulher” é o mais mal remunerado. Por exemplo, as tarefas domésticas transportadas para as empresas, como o serviço de limpeza e faxina, concentram os menores salários, são majoritariamente exercidos por mulheres, principalmente negras, em geral terceirizadas com contratos precários.

Além de ganharem menores salários, estarem sujeitas a dupla jornada, seus corpos também valem menos. Por que precisam parecer princesas, belas, e estão sujeitas a um padrão de beleza extremamente opressor. E não simplesmente por causa da erotização, como o discurso conservador tenta fazer crer, mas por que precisam estar impecáveis com seus corpos disciplinados para apenas servir. A submissão da mulher seja como objeto sexual seja como bela e recatada tenta disciplinar nossos corpos a uma obediência cega ao sistema, anulando nossa individualidade, explorando nossa força e nosso corpo e domando nossos sonhos.

Damares não apenas vê o problema da violência doméstica e da desigualdade salarial isolada do sistema que mantem isso existindo. Damares é parte de construir esse sistema de exploração, fundamentando as bases ideológicas para a opressão e a exploração. Ao pregar o ódio ao que chama de ideologia de gênero tenta manter a estrutura patriarcal intacta a serviço dos patrões.

Damares não estará junto as mulheres contra a terceirização, pela revogação da reforma trabalhista e contra a reforma da previdência que aumentará ainda mais o tempo de trabalho para as mulheres e para a classe trabalhadora. Ela faz parte do governo autoritário e ajustador que destila ódio contra mulheres, negros e LGBTs. Como poderíamos então, marchar de mãos dadas?

Nossa sororidade é com as milhares de professoras em greve contra Covas e o o Sampapev, que se levantam também contra projetos como o escola sem partido, defendido por Damares. Nos irmanamos as argentinas em luta pelo direito ao aborto, as mulheres contra Trump, as espanholas contra a precarização, aos coletes amarelos contra Macron. Somos do mesmo gênero, é verdade. Mas a unidade que construímos na luta é contra a opressão e a exploração capitalista. O patriarcado e o capitalismo hão de cair pelas mãos das mulheres unidas aos seus irmãos de classe!

Nesse 8 de março marchemos juntas com o grupo de Mulheres Pão e Rosas contra o machismo e o capitalismo. Contra Bolsonaro, a reforma da previdência




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