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Manifestantes negros interrompem comício racista de Trump em Chicago

Donald Trump foi obrigado a postergar seu comício em Chicago, Illinois (um dos estados pertencentes ao antigo “cinturão industrial” ou Rust Belt, nos Estados Unidos) depois de manifestantes de movimentos sociais e do Black Lives Matter interromperam seu discurso na Universidade de Illinois, nesta sexta-feira.

André Acier

Natal | @AcierAndy

domingo 13 de março de 2016| Edição do dia

A interrupção do comício eleitoral de Trump, em Chicago, aconteceu alguns dias antes da votação primária do Partido Republicano nesta próxima terça-feira (14), decisiva para a nomeação republicana. Alguns manifestantes carregavam cartazes em apoio a Bernie Sanders.

Também acontece na mesma semana em que Trump, do lado republicano, e Bernie Sanders pelo lado democrata, venceram as eleições primárias no estado de Michigan, o primeiro estado importante do velho coração industrial norteamericano, chamado Rust Belt (Cinturão da Ferrugem), onde se incluem os estados de Ohio, Illinois, Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Veja aqui:

Dezenas de imigrantes mexicanos participaram da ação nesta sexta-feira, em repúdio às persistentes mensagens de Trump de que um de seus primeiros objetivos é construir um muro na fronteira com o México financiado com o dinheiro dos mexicanos. Segundo a rede CNN, a mexicana Maria Hernandez, parte do grupo, declarou que inúmeros membros da comunidade negra e latina estão fartos dos discursos racistas e xenófobos do candidato Republicano.

“Estou protestando porque sou negra e mexicana e não estou certa para onde Trump quer me deportar, mas enfrento o racismo diariamente em Chicago e estou farta”, disse.

No mesmo dia, Trump havia sido hostilizado no comício na cidade de St Louis, no estado de Missouri, que fica próxima à cidade de Ferguson onde a polícia assassinou o jovem negro Michael Brown em agosto de 2014, dando combustível ao surgimento do movimento Black Lives Matter, contra a repressão sistemática da racista polícia norteamericana. O comício terminou com 32 presos.

Trata-se de um claro ponto de inflexão no agitado ano eleitoral nos Estados Unidos, já que as tensões até agora ficavam circunscritas aos discursos de cada adversário nas eleições primárias de Republicanos e Democratas. Na medida em que Trump aparece cada vez mais como possível vencedor da nominação Republicana para as presidenciais de novembro, vem à tona a fragmentação do bipartidarismo tradicional e a polarização à esquerda e à direita contra a elite política.

Ted Cruz e Marco Rubio, adversários de Trump para a nominação republicana, aproveitaram a ocasião para canalizar a raiva contra Trump para seus objetivos eleitorais reacionários. Ambos – que tem origem na organização Tea Party, da extrema direita do Partido Republicano – acusam Trump de “gerar uma atmosfera que encoraja a violência”, tratando de diminuir a vantagem considerável que Trump conseguiu na “SuperTerça”, em que venceu 7 dos 11 estados disputados.

Sanders e Trump disputam os votos operários

Nesta região do norte-nordeste dos Estados Unidos se localizava uma poderosa concentração industrial dos ramos da metalurgia e automotriz, sendo o coração do movimento operário combativo norteamericano. As greves e ocupações de fábrica na cidade de Flint, em particular da General Motors em 1936-37, e nas autopeças de Indiana, foram parte do processo que levou à fundação dos sindicatos industriais e da central AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho) e da poderosa UAW, que hoje constitui burocracia sindical automotriz ligada aos democratas.

Não obstante, esta velha região industrial entrou em decadência nas últimas décadas, principalmente na década de 90 com a grande relocalização das fábricas automotrizes e multinacionais para a China e outros países onde puderam explorar mão de obra super barata (como a região norte do México, que Trump adora mencionar como “ladrões de emprego” dos norteamericanos). Os fechamentos de fábrica e cortes salariais aumentaram a partir da Grande Recessão de 2008, que transformou metrópoles industriais como Detroit, Pittsburgh e Baltimore em “cidades fantasmas”, com algumas regiões periféricas convertidas em dormitórios da população negra desempregada.

É desta frustração e ressentimento com o establishment, ainda que desde posições políticas antagônicas, que se alimentam as campanhas de Donald Trump e Bernie Sanders. Não casualmente ambos centraram seu discurso em temas econômicos (no caso de Sanders, a denúncia de Wall Street) centrando fogo nos políticos tanto Democratas quanto Republicanos que assinaram tratados de livre comércio, como o NAFTA e o Acordo Transpacífico, que seriam prejudiciais para a economia norteamericana.

Particularmente Trump se utiliza do desespero social causado pelos capitalistas, que demitiram e fecharam fábricas aceleradamente produto da crise de 2008 e que receberam trilhões de dólares por parte de Obama enquanto a população amargava a pobreza, para ganhar capital político em setores da classe trabalhadora tradicional que não são ideologicamente de direita, mas enxergam no magnata novaiorquino um “desafio” ao sistema político.

Como publicamos no LaIzquierdaDiario, entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016, a Working America entrevistou 1689 votantes de lares com rendas anuais inferiores a 75 mil dólares, em bairros operários de Cleveland (Ohio) e Pittsburgh (Pensilvânia), dois estados do Rust Belt. Os resultados destes diálogos mostram que 53% das pessoas não decidiram ainda o seu voto, mas dentre as que decidiram, Trump vencia com 38%. Isto não quer dizer que o conjunto da classe operária branca seja base social do discurso racista de Trump. O tema “imigração” era apenas o terceiro mencionado nas entrevistas, ficando bem atrás da principal preocupação: “bons empregos” e “economia”. Como diz Karen Nussbaum, da Working America, a pesquisa “confirmou que as pessoas estão cansadas, sofrendo com o desemprego, irritadas porque seus filhos não terão futuro, de que para eles não houve uma recuperação da recessão”.

Esta polarização não vai apenas à direita, mas também se expressa pela esquerda, com o triunfo de Sanders em importantes bairros operários de Michigan, ou em cidades como Dearborn, cuja população é composta por 40% de muçulmanos, em que Sanders venceu contundentemente a candidata Hillary Clinton (59% a 39%).

A profunda crise política que vive o bipartidarismo norteamericano (será quebrado ao final dela, como foi o bipartidarismo espanhol?) deu origem a expressões da direita nacionalista mais reacionária, mas também a fenômenos de esquerda como a batalha contra a xenofobia e o racismo no interior da juventude e no movimento operário, em que setores significativos de trabalhadores se mostram receptivos ao discurso “socialista” de Sanders, ainda que em seu vocabulário a palavra socialismo não tenha nada que ver com a destruição do capitalismo e uma saída independente da burguesia à crise mundial.




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