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EDITORIAL MRT

Mais do que nunca é urgente uma estratégia revolucionária pra derrotar Bolsonaro e Mourão

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 26 de maio| Edição do dia

Brasil é epicentro mundial da crise do Coronavírus e agora também palco de novos episódios da crise política no governo Bolsonaro após a fatídica reunião ministerial na qual os ministros puderam destilar todo o seu ódio de classe e pensar juntos como descarregar a crise nas costas dos trabalhadores. Vemos um recrudescer da disputa entre os militares e o STF, ao mesmo tempo que a base dura bolsonarista teve munição com o vídeo liberado e se sentiu fortalecida. Alguns logros no marco de uma crise política, sanitária e econômica da qual ainda não está claro o desfecho e onde é fundamental pensar qual a política da esquerda revolucionária. Para uma análise mais profunda da situação do governo após a reunião ministerial leiam o artigo de Ursula Noronha.

O debate que atravessa todo o espectro progressista do país é: qual caminho pra derrotar Bolsonaro? A saída de construir uma frente ampla, ou seja, uma unidade sem nenhum critério somente com o único objetivo de derrotar Bolsonaro seja como for, seja com quem for e seja pra colocar quem for no lugar - mesmo que um general da ditadura militar - tem sido defendida por muitos setores, tanto do centro burguês, quanto do PCdoB, PT e até mesmo do PSOL, como é o caso de Marcelo Freixo que, com a retirada de sua candidatura, se lança numa cruzada para construir essa frente ampla. Rodrigo Maia e até João Dória tem sido nomes "aceitáveis" na lógica do "é contra Bolsonaro é meu amigo".

O problema principal é que, pra além das diferenças de projeto político, há um debate crucial hoje que é se a luta pra enfrentar Bolsonaro tem que ser uma luta somente contra o governo ou uma luta conta o regime de conjunto, que é fruto de um golpe institucional duríssimo contra os trabalhadores. O PT, PDT, PCdoB, REDE, entre outros, apostam em uma saída eleitoral, que manterá intactas as bases desse regime. As alianças estão pensadas em função de 2022, calculando quem terá mais força pra ser cabeça de chapa, qual chapa será formada e encarando as eleições de 2020 como um primeiro testes de forças. Com base nessa aposta eleitoral é que o PT inclusive demorou para se lançar com a consigna pelo Fora Bolsonaro, com o argumento quase "institucional" de que isso "desestabilizaria o regime" em um momento de pandemia e quer uma transição lenta, gradual e segura via eleições de 2022, adotando uma tática de desgaste eleitoral.

Agora, o PT junto com PCdoB, PSOL, PSTU, PCO, UP e PCB lançaram na última semana um pedido de impeachment popular. O começo do texto diz "(...) derrubar Bolsonaro, assim como Mourão, é parte decisiva da nossa luta por salvar vidas". Entretanto a proposta de impeachment que defendem significa, na prática, a entrada de Mourão e o texto não explica como Mourão seria derrotado. Na verdade essa frase é somente uma tentativa de encobrir a realidade de que a política que levam adiante contribui para a entrada de Mourão na presidência, como se ele fosse um mal menor diante de Bolsonaro, quando na reunião ministerial Bolsonaro estava praticamente escoltado por Mourão e Braga Netto, este último, inclusive, dirigindo efetivamente a reunião.

O fato é que ao contrário de desestabilizar o regime, um impeachment significa a unidade de pelo menos 300 deputados que incluiria inevitavelmente suas alas reacionárias em uma mesma decisão para retirar do poder o presidente e permitir a entrada de seu vice. Como pode ser que isso signifique um avanço para classe trabalhadora? Como disse Flávia Valle em debate na TV Brasil 247 "porque um jovem trabalhador que entrega sua vida 12 horas por dia atrás de uma bicicleta deveria se considerar mais fortalecido com um general da ditadura militar assumindo a presidência?".

Quem se fortalece não é a classe trabalhadora, e sim esse regime golpista. Que o PT e o PCdoB façam de tudo para salvaguardar o regime não é um espanto: o PT colocou na base do seu governo grande parte dos políticos que depois votaram pelo impeachment de Dilma e que hoje estão na base de apoio do centrão, e como sabemos, ambos partidos tem horror a luta de classes preferindo acordos com o agronegócio, a bancada evangélica e até mesmo com os partidos fisiológicos. Flavio Dino é descaradamente por Mourão presidente. Entretanto, quando esta passa a ser a política da esquerda que se reivindica revolucionária temos aí um problema mais profundo.

Se queremos potencializar o grito de Fora Bolsonaro que ouvimos nos panelaços e sentimos em cada local de trabalho, o papel da esquerda revolucionária não é conduzir esse ódio a Bolsonaro para as vias institucionais. Isso leva a esquerda a erros tão grandes como querer unificar todos os pedidos de impeachment o que significa se aliar com Joice Hasselman do PSL, que foi a política defendida pelo MES (corrente de Samia Bomfim e Luciana Genro do PSOL) em seu editorial recentemente. O papel de uma esquerda revolucionária seria impedir que os trabalhadores caiam no engano do impeachment e acreditem que trocando Bolsonaro por Mourão as coisas vão avançar. E isso só é possível levantando hoje com muita força a bandeira por Fora Bolsonaro e Mourão.

Nós viemos debatendo, inclusive em live organizada pelo Esquerda Diário com a presença de dirigentes do PSTU, do MRT e do PSOL – o que foi uma novidade na esquerda socialista e revolucionária permitindo o debate franco de posições e ideias - a necessidade de colocar de pé inclusive uma Coordenação para organizar a agitação e ação em torno da bandeira Fora Bolsonaro e Mourão. Em nossa opinião essa segue sendo uma necessidade vital. Entretanto, não adianta escrever Fora Bolsonaro e Mourão nos artigos e na prática sua política ser o impeachment popular junto com o PT, como faz por exemplo o PSTU.

Nesse mesmo sentido, vemos um problema mais de conjunto na política que parte da esquerda tem levantado, seja com o impeachment ou com eleições gerais e se negando a defender a consigna de Assembleia Constituinte Livre e Soberana que efetivamente questionaria o regime de conjunto - como muito bem apontou Plínio de Arruda Sampaio Jr neste mesmo debate. Como viemos dizendo não adianta mudar os jogadores, é preciso mudar as regras do jogo. Mais ainda num regime que é fruto do golpe institucional as eleições gerais preservariam por completo o poder judiciário que foi um pilar decisivo do golpe, assim como as leis da ditadura que mantém todo o aparato militar intacto como é hoje e ocupando um papel cada vez mais autoritário, impedindo qualquer tipo de eleição “livre”. Entendemos que o PSTU não queira questionar Moro e o STF, já que de fato consideram que tiveram um papel progressivo com a Lava Jato e nunca reconheceram, muito menos quiseram lutar contra o golpe institucional no Brasil que levou Bolsonaro, Moro e os militares no poder. Mas vendo tudo isso que aconteceu seria o momento de revisar essas posições. Lutar agora por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana contra todos eles seria uma forma do PSTU corrigir esse erro político histórico, que inclusive levou a se dividir pela metade o partido naquele momento.

Para garantir as mudanças estruturais que uma Assembleia Constituinte poderia debater, seria necessário impulsionar a auto-organização das massas para a luta, inclusive para que a soberania popular possa ter força real diante das forças armadas do estado burguês. Essa é a experiência com a democracia burguesa que as eleições gerais não permitem de maneira nenhuma fazer e é também de onde se pode avançar a um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo, que é a estratégia que defendemos. Ou os trabalhadores frente a Bolsonaro, que incita uma guerra civil em sua base, vão enfrentar essa ofensiva reacionária para conquistar... eleições gerais e a manutenção desse regime?

É neste sentido que a política de auto-organização dos trabalhadores não pode ser uma abstração que se repita no vazio: precisa ser uma política concreta e isso passa por exigir das centrais sindicais que abandonem sua confortável quarentena absoluta e sua aposta em Maia como aliado e venham lutar pelos direitos mais elementares dos trabalhadores. A paralisia da CUT e da CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB é a contra cara sindical do pedido de impeachment popular: para eles não importa a organização dos trabalhadores, o objetivo é uma saída institucional. Por isso consideramos que seria fundamental que as organizações de esquerda deixassem de encobrir a política das centrais e passassem a exigir que se movimentem a serviço da luta dos trabalhadores para lutarmos juntos por um programa operário para enfrentar a crise: proibição das demissões, pagamento imediato da renda emergencial e aumento para 2 mil reais, liberação com remuneração de todos os trabalhadores dos serviços não essenciais e reconversão da indústria para produção de insumos básicos. Testes massivos, leitos, contratações, liberação dos trabalhadores da saúde que são grupo de risco e centralização dos aparelhos de saúde público e privado na luta por um sistema único de saúde sob controle dos trabalhadores.

Estes debates, de tática, estratégia e programa, devem seguir existindo de forma cada vez mais viva entre as organizações que se reivindicam socialistas e revolucionárias e o Esquerda Diário estará a serviço dessa perspectiva. Porque é cada vez mais urgente, diante da crise internacional, entender que mesmo as medidas parciais que possamos avançar em comum são insuficientes. A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade (FIT-U) na Argentina é um exemplo neste sentido: um polo político de transcendência internacional que vai para além das eleições e busca uma política de independência de classes. Não vimos isso com Bernie Sanders, nem com Melenchon, nem com Syriza, nem com Podemos, que são, recorrentemente, exemplos reivindicados por setores da esquerda no Brasil. O nosso exemplo é o da independência de classes e para avançar neste sentido no Brasil significaria avançar para uma frente com o PSOL, PSTU e organizações revolucionárias como o MRT que discuta um programa de independência política dos trabalhadores, o que significaria um giro na política do PSOL de alianças com o PT, e também do PSTU pela política que veio sustentando desde 2016, como expressamos em nossos debates. Uma frente assim não seria igual à FIT argentina, mas seria um ponto de apoio importante para impulsionar a independência política dos trabalhadores. Neste sentido, também consideramos que seria fundamental diante da situação atual debater entre as organizações da esquerda socialista e revolucionária, para além das possibilidades de frentes políticas, quais são as vias para colocar de pé um verdadeiro partido revolucionário dos trabalhadores no Brasil na perspectiva de reconstrução da IV Internacional. O MRT, com o Esquerda Diário e todas as suas ferramentas, vem atuando fortemente nesta perspectiva.

Convidamos todos os trabalhadores, jovens, mulheres, negros e LGBTs que se identificam com essa perspectiva socialista e revolucionária a conhecer o MRT e o Esquerda Diário participando de nossos Comitês Virtuais e dos cursos sobre marxismo no Campus Virtual, sendo parte desse projeto internacionalista que é a Rede de Diários Digitais em 14 países e 8 línguas, que no dia de hoje dá mais um passo importante na agitação revolucionária com o lançamento do La Izquierda Diario Multimídia, e como já havia se expressado com força no ato do 1o de maio da Fração Trotskista pela reconstrução da IV Internacional.




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