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MES/PSOL: Os passos em falso da esquerda lava jato

quinta-feira 12 de abril| Edição do dia

De uma posição golpista antes do impeachment, o MES logo se colocou contrário ao golpe. Depois de muita tergiversação aceitou a definição, incompleta, de “golpe parlamentar”. Agora, ao se colocar contra a prisão de Lula dá um passo a mais, passa do golpismo de 2016 para política da “frente antifascista”. Tudo isso sem deixar de reivindicar um órgão central do golpe, a lava jato.

Depois de muita relutância, de muitos artigos combatendo a definição de golpe para explicar o que está em curso no país, o MES passou a utilizar a denominação de golpe parlamentar. Mas essa mudança de definição expressa mais um giro pragmático frente às pancadas que recebeu da realidade, do que uma verdadeira correção de sua política golpista anterior.

Dizer golpe parlamentar é uma definição feita ao gosto da esquerda lava jato. Por que deixa de fora a participação do judiciário, da operação lava jato, que foi e é uma peça chave da ofensiva autoritária da burguesia, ou melhor, de alas da burguesia brasileira. O golpe é institucional, por que foi uma confluência de diferentes interesses burgueses representados por alas da casta política, judiciaria e militar, unidas apenas em torno da necessidade de aumentar o ritmo dos ataques à classe trabalhadora.

O golpe teria sido impossível sem a preparação anterior da lava jato e sua conduta no calor dos acontecimentos. Quem não se lembra do vazamento dos áudios da conversa entre Dilma e Lula por parte do juiz Sergio Moro? Mas isso é só um exemplo do curso cada vez mais autoritário da lava jato. Toda estrutura de funcionamento baseada nas prisões preventivas e nas delações premiadas, é por si mesma, uma ofensiva autoritária e reacionária, peça fundamental do golpe.

O ministro Barroso no STF, entre outros, ressaltou a injustiça das prisões preventivas do país, que mantem 40% da população carcerária presa sem julgamento, como justificativa para a prisão de Lula. Quanto cinismo! Pois é o próprio judiciário o culpado pela barbárie e verdadeira ditadura para essas centenas de milhares de negros e pobres presos sem direito a julgamento.

O STF é o responsável maior por crime contra a humanidade. Em que ajudaria as pessoas encarceradas fortalecer o poder do arbítrio dos juízes? Uma organização de esquerda tem que ser realmente muito submissa ao poder da toga para repetir esses argumentos, como faz Luciana Genro, em artigo que sequer condena a prisão de Lula. Apoiar a lava jato, ou então se contentar com seus efeitos desestabilizadores, é compactuar com o setor mais decidido do golpismo.

Já chega a ferir a lógica a posição atual do MES. Mantém sua avaliação sobre a lava jato como na nota de Roberto Robaina “Uma posição de princípios sobre o STF e a prisão de Lula” ao dizer “independente das ações levadas adiante pela Lava Jato, que juntou provas contra vários destes corruptos, a resultante desta justiça é seletiva”. Ou seja, a operação se conduz de forma correta, mas em função da correlação de forças no conjunto do regime a resultante é seletiva. Em um novo texto, Luciana Genro volta ao tema da condenação de Lula, e afirma: “o STF e mais precisamente Cármen Lúcia e Rosa Weber garantiram a prisão de Lula. A mesma Cármen Lúcia que deu o voto decisivo a favor de Aécio, ajudando diretamente a estancar uma determinada sangria” e prossegue, “A votação do habeas corpus de Lula antes da votação da ADC, que poderia mudar a jurisprudência do Supremo sobre a prisão de segunda instância, foi um golpe promovido por Cármen Lúcia”.

Nesta lógica, caso a seletividade fosse menos aparente, e algumas figuras da direita estivessem implicadas, a prisão arbitrária e sem qualquer fundamento de Lula pela Lava Jato estaria dentro das conformidades para o MES. No relato do MES, aliás muito parecido com a nova serie de Padilha, o Mecanismo, Moro e os procuradores travam uma cruzada pela moral e se enfrentam com o regime que tenta lhe utilizar para os seus planos, sendo o STF o grande ator responsável pela seletividade e pelo caráter político da prisão de Lula.

Está mais do que evidente que a Lava Jato não tem qualquer papel em combater a corrupção, mas em instituir um novo esquema de impunidade, entregando os recursos econômicos brasileiros a empresas estrangeiras, e beneficiando uns corruptos e empresas em detrimento de outros, de acordo com a conveniência política.

O MES atualmente se debate nessa contradição. Como conciliar a defesa da lava jato e ao mesmo tempo passar para uma posição de frente única com o PT quando “atacado por forças burguesas sejam elas quais forem”? Já é um absurdo exigir a Lula uma frente única que inclua a continuidade da lava jato, sem ver que é pura demagogia lulista que se coloca como inocente, mas que não está contra as medidas autoritárias da justiça desde que não fossem contra ele. Longe dos princípios, o MES vai adaptando sua posição de acordo com os espaços políticos que surgem. A pescaria nas águas turvas do golpismo foi bem magra, e colocou o MES em rota de colisão com a sua base tradicional, principalmente na juventude, que está contra o golpe – e contra a lava jato.

A tentativa de uma esquerda ampla no modelo chileno, ou de um Podemos brasileiro vem pela via da candidatura de Boulos e uma aliança cada mais concreta com o petismo. Para não ficar de fora de algum fenômeno neoreformista no Brasil que surja por aí, os grandes entusiastas de toda nova esquerda reformista onde quer que ela surja, precisam deixar pra trás sua política golpista, que forjou toda uma geração de militantes.




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