Política

ENTREVISTA FERNANDO HADDAD

Haddad se cala sobre o golpe e não defende qualquer combate aos ataques de Bolsonaro

Em primeira entrevista desde as eleições, Haddad não menciona nada sobre os ataques de Bolsonaro, demonstra confiança no Judiciário autoritário e manipulador e não aponta qualquer combate concreto para os trabalhadores e a juventude contra ataques que estão sendo orquestrados pela equipe do novo governo de Bolsonaro.

segunda-feira 26 de novembro| Edição do dia

Em sua primeira entrevista desde as eleições, publicada nesta segunda-feira (26), Fernando Haddad, o candidato petista derrotado nas últimas eleições debate sobre a entrada da extrema-direita na política brasileira.

Diante dos ataques neoliberais e escravistas de Bolsonaro, sob o regime do autoritarismo judiciário com apoio das Forças Armadas - que reconheceram pressionar pela prisão arbitrária de Lula - que diz o ex-candidato do PT? Propõe alguma medida de luta, algum dispositivo para organizar o combate contra a reforma da previdência? Nada. Numa longa entrevista, ainda quando foi interpelado sobre a política de Bolsonaro, Haddad não encontrou tempo para mencionar sequer de passagem a necessidade de combater as reformas neoliberais do novo governo, que vai aprofundar os ajustes de Temer.

Haddad deixou claro que o discurso de "resistência democrática" do PT é exclusivamente isso, um discurso. Numa entrevista em que não falou a palavra "golpe", da qual o PT foge como da peste para não ter de se comprometer, podemos entender que a "resistência democrática" do PT significa aguardar até 2022, deixando os ataques econômicos passarem - com a cumplicidade inestimável das burocracias sindicais - para que o PT posteriormente volte a administrar o capitalismo neoliberal em decadência.

À pergunta do entrevistador, acerca da possibilidade de Bolsonaro aprovar as reformas liberalizantes (como a reforma da previdência), Haddad se limita a responder: "Há espaço. Mas isso nós vamos ver em função da operação política. Para esse projeto [governo Bolsonaro, NdA] dar certo, depende da habilidade de aprovar as reformas liberalizantes no Congresso. Do sucesso dos leilões do pré-sal. E da não eclosão de uma crise internacional." Por maior que seja a indulgência com que se contemple a passividade do PT, é preciso concluir que se trata de uma confissão de que renunciam a qualquer medida que atrapalhe a "habilidade das operações políticas" de Bolsonaro.

A tradução mais simples desse raciocínio piedoso de Haddad é: se depender do PT (e das burocracias sindicais ligadas ao PT, como a CUT e a CTB), não haverá combate, Bolsonaro terá caminho livre e suas reformas neoliberais gozarão de boa saúde.

Em seguida, exemplificando com o projeto Escola sem Partido uma das medidas mais reacionárias que o governo bolsonarista busca aprovar (com apoio da bancada evangélica), Haddad deu mais uma sugestão de como o PT encara o "enfrentamento" a Bolsonaro: "O projeto Escola Sem Partido é um projeto autoritário que está nascendo dentro da democracia. O STF pode barrá-lo. Os pesos e contrapesos de uma República moderna vão operar?".

Não é possível ler estas frases sem sentir repugnância. O autoritarismo judiciário - encabeçado pelo STF - que foi o pilar do golpe institucional, que prendeu Lula arbitrariamente, que manipulou cada centímetro das eleições em benefício de Bolsonaro, que permitiu que este escapasse da violação aberta da própria legislação eleitoral ao receber Caixa 2 de empresários milionários que caluniavam Haddad por Whatsapp, que roubou 1,5 milhão de votos nordestinos pela biometria, e foi funcional aos objetivos imperialistas no país através da Lava Jato: este judiciário autoritário seria quem poderia "barrar o Escola sem Partido".

Haddad sabe bem que o presidente do STF, Dias Toffoli, prorrogou o julgamento do Escola sem Partido de Alagoas para não correr o risco de abrir um precedente que impedisse a aprovação a nível federal deste ataque pelo Congresso. Ademais, ao contrário de "barrar" as reformas de Bolsonaro, o STF encabeça junto a este a campanha pela aprovação da nefasta reforma da previdência, assim como em 2017 havia encabeçado a campanha pela aprovação da reforma trabalhista (que passou sem qualquer resistência das organizações de massas dirigidas pelo PT).

O PT não apenas não denuncia o autoritarismo judiciário, principal pilar do golpe institucional e das arbitrariedades deste regime político, mas incentiva as ilusões institucionalistas de que o STF pode "barrar" os ataques de Bolsonaro. Uma vergonha: Lula está preso, e o PT se ajoelha diante do bonapartismo dos tribunais.

Adiante, Haddad complementa: "Entendo que devemos trabalhar em duas frentes: uma de defesa de direitos sociais, que pode agregar personalidades que vão defender o SUS, o investimento em educação, a proteção dos mais pobres. A outra, em defesa dos direitos civis, da escola pública laica, das questões ambientais".

Onde está a necessidade de barrar a reforma da previdência, que afeta milhões?Onde fica a necessidade de abolir a nefasta reforma trabalhista, que passou impune pelas traições do PT, da CUT e da CTB, junto à Força Sindical e UGT? Trata-se da velha estratégia petista de separar o "democrático" do "econômico", fazendo algum barulho (por nada) contra algumas das medidas da extrema direita, para ficar com as mãos livres e deixar os ataques econômicos mais brutais passarem impunes, contando com o auxílio de suas burocracias que dividem e enfraquecem o movimento operário, para convencer seus amigos burgueses de que é um partido confiável para administrar o capitalismo decadente. "Resistência democrática", voilà.

É a mesma apatia e conciliação de classes que propôs Dilma no Foro do Pensamento Crítico, em Buenos Aires. Ambos aguardam a complacência da burguesia em "reaceitar o PT" nas próximas eleições. Como diz André Singer, um dos mais ilustres intelectuais petistas, "é preciso saber lidar com os demônios" da velha corruptela política burguesa.

Ao ser abordado sobre como via a vitória do candidato da extrema-direita do PSL, Haddad limitou-se a responder que "há mais de 2 anos via essa possibilidade e que certamente a vitória de Trump abriria espaço para a chegada da extrema-direita aqui no Brasil". Entretanto, "esqueceu" de mencionar que, desde 2013, as condições econômicas internacionais deixaram de ser favoráveis e impediram que o PT continuasse a estender mínimos benefícios sociais em troca de enriquecer brutalmente o capital estrangeiro, com o pagamento da dívida pública aos especuladores internacionais, e governar junto com os partidos capitalistas mais fisiológicos da direita.

Ao esquecer o papel divisionista e desmoralizante que cumpriram antes e depois do golpe institucional de 2016 dentro da maior entidade estudantil (UNE) e a maior central sindical da América Latina (CUT), não apontam como a direita cresceu quando eles próprios, ainda no governo, cederam aos setores reacionários que hoje governam, com a entrada de Marco Feliciano (PSC) na Comissão de Direitos Humanos. Além do estelionato eleitoral de Dilma, que iniciou em 2015 a aplicação de duros ajustes depois de ter jurado em campanha que não atacaria os trabalhadores "nem que a vaca tossisse". E tossiu rápido, com o PT retirando bilhões do orçamento público para entregar aos banqueiros nacionais e estrangeiros, que já haviam decidido que precisavam de ataques mais duros do que aqueles que o PT já fazia.

Veja também: Manifesto do MRT "Construir uma força anti-imperialista da classe trabalhadora para enfrentar os planos de Bolsonaro, dos golpistas e do autoritarismo judiciário"

De lá pra cá foram inúmeras as "abstenções", combinadas à permanente ilusão nas instituições, ajoelhando ao autoritarismo judiciário golpista, aceitando passivamente o golpe institucional de 2016 e até a prisão arbitrária de Lula, desmoralizando as bases dos sindicatos e em cada local de trabalho e estudo, a mensagem que transmitiu foi que é inútil lutar e que os capitalistas teriam terreno livre para implementar seus planos contra os trabalhadores.

Fica claro que a estratégia do PT segue sendo de conciliação de classes e meramente eleitoralista. O "respeito aos ritos", aguardar "baixar a poeira", serve a sua política de "aguardar 2022", separando as questões democráticas das questões econômicas, para encenar uma oposição parlamentar que sabe ser impotente e deixar passar – imobilizadas as centrais burocráticas – todos os principais ataques econômicos de Bolsonaro contra os trabalhadores. É o que Lula chama de "deixar sangrar o governo".

Apesar de dizer que "a agenda de Bolsonaro é a agenda de Temer radicalizada", Haddad e seu partido permitirão que essa agenda se cumpra no essencial, assim como deixaram passar a Reforma Trabalhista, e mantiveram um governo com menos de 3% de apoio, fruto da traição da continuidade da luta após a greve geral de 28 de abril.

Uma vez que é bem claro pela afirmação de Haddad que "achava que a elite econômica não abriria mão do seu verniz que sempre fez parte da história do Brasil. As classes dirigentes nunca quiseram parecer ao mundo o que de fato são". Quantas esperanças em encontrar uma suposta "burguesia progressista"! Podemos dizer que o PT cumpre o papel de verniz para camuflar o que fato é essa "elite econômica", que são os empresários nacionais e internacionais, os bancos, as grandes corporações que vivem do suor dos trabalhadores e precisam descarregar a crise sob as nossas costas para manter sua taxa de lucro.

A todos que se indignam cotidianamente com os anúncios das medidas e das indicações do governo Bolsonaro, que parecem competir entre si como a pior notícia: é mais urgente que nunca construir nos locais de trabalho e de estudo uma força real capaz de enfrentar Bolsonaro, o autoritarismo judiciário e os ataques.

Para isso, temos que exigir dos nossos sindicatos e entidades estudantis que convoquem um plano de luta e comitês para organizar as medidas de ação, para que fruto da mobilização possamos retomar nossas entidades para a luta de classes. Através disso, podemos criar um grande movimento pelo não pagamento da dívida pública, pela estatização sob gestão dos trabalhadores e controle popular de todas as grandes empresas envolvidas em corrupção, uma Petrobras 100% estatal administrada pelos trabalhadores, pela abolição da reforma trabalhista e terceirização irrestrita e o fim de qualquer tentativa de reforma da previdência.

É necessário construir uma sólida frente única para a ação, exigindo que as centrais sindicias convoquem de imediato um plano de luta para enterrar o Escola sem Partido, unificando para objetivos claros da luta de classes os diversos setores que resistem a Bolsonaro. Um poderoso movimento que organize o combate contra estes ataques deixará claro quanto vale a "frente democrática" do PT (frente com a burguesia, para dividir e enfraquecer os trabalhadores, os negros, as mulheres, os LGBT). Convidamos a todos a conhecerem as ideias publicadas no Manifesto do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, com qual propomos um programa e uma estratégia que nos permitam enfrentar os golpistas, Bolsonaro e seus ataques.




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