Gênero e sexualidade

ENTREVISTA

Há 100 anos da Revolução Russa, a estratégia revolucionária para a luta das mulheres continua atual

No mês de abril o MRT deu início a um ciclo de discussões sobre a luta das mulheres e a estratégia da revolução socialista. Conversamos com Diana Assunção, dirigente nacional do MRT e fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas sobre estas discussões.

sexta-feira 5 de maio| Edição do dia

Esquerda Diário: Como você vê a luta das mulheres na atualidade e quais as principais discussões que o MRT está apresentando?

Diana: A luta das mulheres atualmente é um grande fenômeno internacional. Este foi um dos pontos de partida fundamental da reflexão que estamos fazendo em vários países onde estão as organizações que compõe a Fração Trotskista pela reconstrução da Quarta Internacional. Desde o ano passado viemos avançando em elaborações teóricas e políticas sobre este tema, e queremos aprofundar esta reflexão a luz do marxismo revolucionário para responder a situação de opressão às mulheres com uma perspectiva anticapitalista e socialista. Como viemos sustentando em vários artigos e em toda a trajetória do grupo de mulheres Pão e Rosas, impulsionado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores e independentes, entendemos que a relação entre exploração e opressão potencializa as formas de dominação no mundo capitalista, ainda que a subordinação de grupos sociais por conta de seu gênero, nacionalidade, pertencimento a um povo ou orientação sexual seja anterior a este modo de produção. O entrelaçamento entre ambos renova as formas de exploração atuais, utilizando os setores oprimidos para melhor explorar e assim perpetuar a dominação de classe. Esta é uma visão de mundo que encara a sociedade dividida em classes e que vê na detenção dos meios de produção o poder da classe dominante, portanto isso alça a classe operária ao papel de sujeito político pela possibilidade de ser a classe social capaz de tomar os meios de produção e por esta via deter o poder contra a classe dominante. A isso definimos como "centralidade da classe operária" para pensar a estratégia de destruição deste sistema capitalista, baseado na desigualdade. É por esta ideia que consideramos impossível a emancipação das mulheres dentro da sociedade capitalista.

Sem destruir o capitalismo e a escravidão assalariada, alguma mulher poderá ser realmente livre? Isso é uma utopia, e se queremos lutar verdadeiramente contra a opressão das mulheres, e não apenas por ampliação de direitos, precisamos ter uma estratégia e um objetivo, que pra nós socialistas e revolucionárias é o objetivo de lutar por uma sociedade comunista.

Partindo destes pontos iniciais, começamos a organizar uma reflexão num primeiro nível entre as dirigentes do MRT, mas para expandir ao conjunto dos militantes e simpatizantes, buscando chegar a centenas e milhares de mulheres em todo o país. Buscamos relacionar a etapa do neoliberalismo com o desenvolvimento dos movimentos sociais de reivindicação por mais direitos e a falta de horizonte de setores do movimento feminista internacional que, durante os últimos anos foram também protagonistas de inúmeros "triunfos táticos" na conquista de direitos mas que vinha sempre acompanhado de uma "derrota estratégica" já que a institucionalização e a cooptação por parte do Estado capitalista e da agenda neoliberal buscava esvaziar de conteúdo as justas reivindicações do feminismo. Debater como transformar cada avanço do movimento feminista em ponto de apoio pra destruir a sociedade, e não para reformá-la, torna-se uma discussão urgente, uma vez que a chamada “primavera feminista” trouxe com muita força a luta das mulheres que protagonizaram a emblemática paralisação internacional das mulheres no último 8 de março. Nós não começamos do zero, e por isso é necessário um debate de estratégias.

Esquerda Diário: Qual relação você vê entre a etapa neoliberal e a ampliação de direitos fruto da mobilização dos movimentos sociais?

Diana: Essa é uma reflexão que viemos fazendo já há alguns anos, em especial com elaborações de Andrea D’Atri e Laura Liff, dirigentes do PTS organização irmã do MRT na Argentina. Nesta reflexão, a tese apresentada pela ativista norte-americana Nancy Fraser vem sendo um ponto de partida pra refletir sobre essa relação paradoxa. Nancy afirma que "a capacidade relativa do movimento (feminista) para transformar a cultura, contrasta de maneira aguda com sua incapacidade relativa para transformar as instituições" e "as mudanças culturais impulsionadas pela segunda onda, saudáveis em si mesmas, serviram para legitimar uma transformação estrutural da sociedade capitalista que avança diretamente contra as visões feministas de uma sociedade justa". A autora se permite suspeitar que o feminismo e o neoliberalismo se tornaram afinados um ao outro, questionando a cooptação do primeiro e a sua subordinação à agenda do Banco Mundial e a outros órgãos internacionais. Pode parecer chocante a uma primeira leitura, mas é categórica a reflexão: se cada conquista do movimento feminista também concedida pelo Estado se transforma em um "fim em si mesmo", isso significa que a estrutura atual vigente está se "reformando" sem abalar suas raízes, fortalecendo-a já que mostra que alguns direitos pode conceder e abrigar. A importância desta análise é porque é preciso mostrar a contradição, a dialética entre avanços e retrocessos, ou melhor dizendo "triunfos táticos" e "derrota estratégica". Este processo teve seu auge no início da década de 1990 com a verdadeira institucionalização de movimentos feministas que passaram a atuar através de ONG´s assumindo uma voz estatal – ainda que supostamente "não governamental" – e transmitindo a ideia de que haveria a possibilidade de uma existência pacifica entre nossos direitos e a sociedade capitalista. O fato é que a enorme mudança de valores com o desenvolvimento da sociedade também apontou para que, nas últimas décadas, a classe dominante se visse obrigada a responder ao que podemos chamar de “politicamente correto”, buscando programas de TV, propagandas e conteúdos empresariais que dialogassem com o novo espírito de época, onde torna-se muito menos aceitável as ações de opressão de gênero tão naturalizadas em décadas anteriores. Como não poderia deixar de ser, isso também vira um nicho de mercado.

A possibilidade de que "triunfos táticos" na sociedade capitalista tenham a capacidade de fortalecer a estrutura atual vigente, como aponta Nancy Fraser, se relaciona justamente com a busca por esvaziar o conteúdo radical e transformador da luta das mulheres tornando nossas demandas inofensivas ao capitalismo e buscando cooptá-las como um processo de amadurecimento e progresso da própria sociedade tal como ela é, sem mexer um milímetro nas raízes da sociedade.

Mas vale ressaltar os seus limites: são táticos não somente porque não são parte de destruir o capitalismo, mas porque a própria crise econômica criada pelos capitalistas tem a capacidade de tornar estes triunfos em questões meramente efêmeras. A dificuldade aqui é demonstrar que ainda que seja necessário e fundamental lutar por cada mínimo direito das mulheres, se perdemos o enfoque estratégico, em um momento de cooptação e “institucionalização” dos movimentos sociais, terminamos defendendo o contrário da emancipação as mulheres: a manutenção do status quo da sociedade, tal como ela é. Deste processo surgiram novas teorias feministas e pós-modernas que foram distanciando a luta das mulheres do horizonte da revolução socialista.

Se pensamos em termos históricos, mostra que a adaptação a uma época na qual a revolução se distanciava do horizonte, com uma classe operária submersa num atraso político, a crise de subjetividade sem precedentes e a desmoralização provocada pela identificação do stalinismo com o “socialismo”, também tiveram seu correlato nos novos fundamentos teóricos feministas e feministas pós-modernos. Suas respostas, longe de atacarem o coração do problema, retomando as críticas mais radicais com as quais o feminismo havia conseguido apontar à aliança entre capitalismo e patriarcado, aprofundaram a ideia de uma emancipação individual, assimilada às possibilidades de consumo e apropriação. Parte disso é a busca também por reduzir a questão da opressão às mulheres ao tema específico da violência, como se a opressão não fosse um pilar fundamental da exploração capitalista responsável pelo fato de as mulheres serem 70% da população pobre de todo o mundo. Esta reflexão, na atualidade, deve acompanhar as possibilidades de recomposição da subjetividade da classe operária que começam a se expressar internacionalmente, marcadas por um fim do ciclo neoliberal, seja em fenômenos políticos seja em processos da luta de classes, o que recoloca também a relação entre a luta das mulheres e a luta da classe operária pela tomada do poder. Esta aliança, perigosa em si mesma para os capitalistas, é onde se apoiam os principais expoentes da direita reacionária, inclusive do imperialismo norte-americano, para dividir a classe operária dos movimentos sociais. O caso Trump foi emblemático nesse sentido.

Esquerda Diário: Como você vê o movimento feminista na atualidade?

Diana: Como comentava anteriormente, nossa análise da etapa neoliberal tem como objetivo não "partir do zero" na busca pela correta estratégia que possa levar a emancipação das mulheres. Essa leitura se faz urgente, porque as mulheres estão mostrando a sua força espetacular em todo o mundo, fazendo a "terra tremer". Foi assim quando se rebeleram contra Donald Trump, e foi assim no último 8 de março, com a paralisação internacional das mulheres. Diante de toda a cooptação anterior, que deu espaço também para o desenvolvimento de um feminismo burguês empresarial, surgiu um amplo movimento feminista, conhecido também como "primavera feminista" que veio se destacando com a consigna Nem Uma Menos, em países como Argentina e Chile, mas que se alastrou pelo mundo inteiro. Um forte grito contra a violência de gênero que assassina mulheres todos os dias em praticamente todos os países. Lutar contra toda a forma de violência é uma tarefa de primeira ordem pra todos aqueles que se reivindicam marxistas e revolucionários. Mas vale analisar e refletir também sobre o que este movimento diz sobre as aspirações do movimento feminista atual. Se nas décadas de neoliberalismo a busca pela ampliação de direitos foi fortemente cooptada pelo capitalismo, as demandas atuais contra a violência de gênero como "nem uma mulher a menos" ou "viva nos queremos" apresentam reivindicações que de tão elementares se tornam impossíveis dentro do sistema capitalista. A aspiração não é apenas por direitos, é pra se manter viva. Mostra a atrocidade capitalista que mesmo cooptando e ampliando direitos sustenta um estado que é conivente com o assassinato de mulheres, pois faz parte da engrenagem da violência de sustentação da sociedade.

Mas por outro lado mostra também que infelizmente, bandeiras tão elementares como "se manter vivas", são irrealizáveis nesta sociedade que tanta miséria produz, sustentando as opressões pra melhor explorar. A consequência imediata disso é que as demandas mínimas nesse caso se transladam para a punição, onde o justo grito por “justiça” termina levando as mulheres a um beco sem saída: sem poder terminar com a violência sustentada pelo estado capitalista, esperamos deste mesmo estado a punição.
É preciso resgatar as aspirações profundas do movimento feminista pra enfrentar a violência de gênero, e por isso encarar essa luta não para canalizar no punitivismo que termina fortalecendo o poder policial do estado, mas encarar com aquele conteúdo subversivo, radical e transformador que tanto a burguesia quer esvaziar.

Estamos falando de um feminismo que seja abertamente anticapitalista, de ruptura com a ordem atual vigente, que queira arrebentar com a dominação de classe e colocar fim a escravidão assalariada, única forma de abrir espaço pra verdadeira emancipação das mulheres. Sem preencher com esse conteúdo as nossas conquistas, vamos permanecer em uma antecipada derrota estratégica do feminismo.

Vale ressaltar que todo o fenômeno de mulheres mundo afora se dá no marco da ausência de radicalização da classe trabalhadora – ainda que no Brasil estamos vendo a classe operária entrando em cena – e, portanto, sua composição ainda é majoritariamente pequeno-burguesa e sua ideologia é majoritariamente reformista. Mas existem amplas alas progressistas que se definem como anticapitalistas, como o "feminismo dos 99%" que enfrentou abertamente o feminismo empresarial nos Estados Unidos, que para nós que nos reivindicamos socialistas e revolucionárias abre um enorme espaço pra fazer um debate de estratégia sobre a necessidade de uma revolução operária e socialista pra libertar o conjunto da humanidade, e assim permitir que as mulheres lutem não somente pela vida, não somente pelo pão, mas também pelas rosas.

Esquerda Diário: Quais consequências tem a separação da luta das mulheres com a luta da classe operária?

Diana: A ideia de que possa existir uma revolução cultural ou individual por fora de tomar o poder da classe dominante é uma ideia que perpassa toda a pós-modernidade. Se baseiam na possibilidade do "não combate", uma das teses de Michel Foucault quando retoma de forma invertida a máxima de Carl Von Clausewitz sobre a "política como a continuidade da guerra por outros meios". A negação da classe operária enquanto sujeito político e a busca pela individualidade tão comemorada pelos anos de neoliberalismo, fazem da pós-modernidade um espaço de ceticismo quanto a qualquer transformação real da sociedade. Em minha opinião isso não significa que não existam elaborações que contribuam nas reflexões teóricas ou mesmo que abordem temas que são pouco tocados pelo próprio marxismo, mas o fazem desde uma visão derrotista. Muitos feminismos flertam com a ideia de que os inimigos são os homens, o que ignora por completo as bases da sociedade atual, e muitas correntes terminam em posições abertamente transfóbicas. Em última instância, aceitam a divisão entre "luta das mulheres" e "luta política", que é o terreno máximo da dominação da classe dominante. A burguesia pode aceitar dar algumas migalhas para as mulheres como concessão na sua luta por ampliação de direitos ao mesmo tempo que na política fazem propaganda para que elejam uma mulher como Hilary Clinton, pra manter uma cara menos reacionária do imperialismo norte-americano. Mas o fato fundamental é que a fratura entre a classe operária e os setores oprimidos, como as mulheres, só podem interessar a uma única classe: a burguesia.

A cooptação e a institucionalização do movimento feminista é a forma da burguesia conquistar hegemonia sob os setores oprimidos. Enquanto a classe operária não aparece como sujeito político, a classe dominante responde parcialmente aos anseios dos movimentos feministas para disputar o papel hegemônico de resposta à emancipação das mulheres, tirando da classe operária o seu lugar de transformador da sociedade e única classe aonde realmente as mulheres poderiam confiar sua emancipação.

Por isso, não é nada secundário, e não a toa é parte da Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotsky, a secular tarefa da classe operária de buscar hegemonia operária sob todos os setores oprimidos e explorados da sociedade. A conclusão é que as bandeiras de luta das mulheres devem ser tomadas pelo conjunto da classe operária e dos sindicatos. Porque precisamos demonstrar que para lutar contra o capitalismo é preciso envolver o conjunto da classe trabalhadora. A luta contra a violência, mas também nosso elementar direito ao aborto legal, seguro e gratuito, que mesmo no governo de uma mulher como Dilma Roussef não foi legalizado. A luta para enfrentar a dupla jornada de trabalho batalhando por creches, lavanderias e restaurantes comunitários e a enorme luta contra o racismo que atinge as mulheres negras, que compõe grande parte da classe trabalhadora brasileira.

Esquerda Diário: Como você vê a batalha para que as mulheres sejam sujeito político na sua luta?

Diana: Ser sujeito político em minha opinião parte, em primeiro lugar, da estratégia. Ninguém é sujeito político de si mesmo, mas de uma ideologia, de uma estratégia. A ideologia e estratégia que defendo, como expressei aqui é a da revolução socialista. Entender que essa sociedade só nos reserva miséria e exploração permite buscar na entrega a revolução social a maior das alegrias, como dizia Leon Trotsky. Neste caminho, enfrentar o machismo em todos os âmbitos é fundamental, mas com o objetivo de unificar e fortalecer a classe trabalhadora neste processo de ruptura com o capitalismo.

Ao mesmo tempo, os "triunfos táticos" e a "derrota estratégica" que impôs o neoliberalismo traz um "espírito de época" da vitimização e da "expectativa" que deposita no Estado e suas instituições – seja a polícia, seja o judiciário – as respostas para a opressão de gênero. Aceitar esse lugar de "expectativa" é já dar o combate por encerrado, é aceitar que as mulheres não tem um lugar de sujeito pra transformação na sociedade, o que não virá de nenhum tipo de resposta individual.

Neste âmbito, considero que as novas gerações precisam conhecer mais a fundo o exemplo de grandes dirigentes revolucionárias como Rosa Luxemburgo, a maior de todas, que enfrentaram todo o tipo de dificuldades em meio a social democracia alemã num combate que lhe custou a vida.

Esquerda Diário: Há 100 anos da Revolução Russa se reafirma a estratégia revolucionária na luta das mulheres?

Diana: Sem dúvidas. Dá muito orgulho poder dizer que há 100 anos da Revolução Russa a estratégia revolucionária para a luta das mulheres continua atual. Essa espetacular obra da classe operária russa nós tivemos o prazer de apresentar junto com a Boitempo Editorial no livro "Mulher, estado e Revolução" da historiadora norte-americana Wendy Goldman, mostrando a revolução a partir do "olhar das mulheres". A visão nada romantizada da revolução e a implementação dos direitos das mulheres, a batalha pela planificação da economia para libertar as mulheres da dependência financeira, a resolução dos problemas da vida privada em tribunais revolucionários, eram todos temas no qual Lenin, grande dirigente da Revolução Russa sempre alertava: "não queremos apenas a igualdade perante a lei, mas perante a vida". A experiência da Rússia de 1917 mostrou que a revolução operária é uma condição necessária para abrir espaço pra emancipação das mulheres, não a toa em poucos anos garantiu direitos que nem mesmo as mais modernas democracias capitalistas concedem às mulheres em pleno século XXI. Mas também mostrou que não é uma garantia a tomada do poder em apenas um país, já que a burocratização do estado operário com o stalinismo, a partir de 1924, e enfrentada à morte pela Oposição de Esquerda dirigida por Leon Trotsky, retrocedeu com muitos dos direitos das mulheres que a Revolução havia conquistado. É por isso que Leon Trotsky, em sua Teoria da Revolução Permanente, apresentava a necessidade de uma revolução a nível internacional, e não somente em um país como batalhou Stalin, mas também apresentava a necessidade de uma verdadeira "revolução dentro da revolução" para encarar os costumes e preconceitos arraigados pela sociedade capitalista, já que a tomada do poder significa apenas 10% do processo da revolução socialista.

É com esta estratégia que combatemos hoje, é esse o conteúdo que não se pode esvaziar das necessárias conquistas que teremos em nossa luta atual. Não queremos permitir que toda a energia das mulheres seja em vão, queremos que nossa luta por cada direito seja pra fortalecer a luta por uma outra sociedade, como fizeram as mulheres russas em 1917.

Esquerda Diário: Como o Pão e Rosas pretender atuar nos próximos meses?

Diana: No Brasil, nosso primeiro passo é atuar e intervir com o grupo de mulheres Pão e Rosas na enorme luta nacional contra as reformas e contra o governo golpista de Temer. A classe operária entrou em cena, e isso é um grande alento depois de décadas de neoliberalismo, e que as mulheres trabalhadoras possam ser linha de frente desse processo é a maneira principal como nós do Pão e Rosas vamos atuar no próximo período. Somos um grupo que coincidentemente neste ano completa 10 anos de existência, e que em meio a greve geral tem orgulho de ter dirigentes sindicais atuando com muita força neste processo na batalha pela auto-organização dos trabalhadores, como Marcella Campos, professora da Zona Norte de São Paulo; Marília Rocha e Daphnae Helena, metroviárias de São Paulo; Bárbara Delatorre e Patrícia Galvão, diretoras do Sindicato dos Trabalhadores da USP; Thais Oyola, bancária da Caixa Econômica Federal e membro da Executiva Estadual da CSP-Conlutas; Rita Frau, professora no Rio de Janeiro, entre muitas outras. Essas são apenas algumas das principais referentes do Pão e Rosas que se somam a incríveis lutadoras como Silvana Araújo, do importate livro "A precarização tem rosto de mulher"; Andreia Pires, operária demitida injustamente pela JBS e Vilma Maria, trabalhadora do bandejão da USP. E dezenas de companheiras estudantes e jovens que compõe também a Faísca – Juventude Anticapitalista e Revolucionária, com um destaque especial pra Virginia Guitzel, nossa principal referente na luta pelos direitos LGBT.

Nossa batalha para colocar de pé comitês de base em todos locais de trabalho e estudo será a prioridade do grupo de mulheres Pão e Rosas nesta nova conjuntura no país, enfrentando o governo golpista que veio pra aprofundar os ataques que o PT já vinha fazendo. Queremos construir um grupo de mulheres revolucionárias para atuar na luta de classes.

No enfrentamento à reforma da previdência, que já está claro que atinge principalmente as mulheres, queremos enfatizar o problema da diferença salarial, resgatando a história consigna "igual trabalho, igual salário". No Brasil as mulheres ganham 27% a menos que os homens, e as mulheres negras 40% as menos que as mulheres brancas. É um verdadeiro escândalo, que mostra que a precarização tem rosto de mulher. Significa que além de Temer querer impor que a gente trabalhe até morrer, as mulheres o farão com 27% a menos de salário, e as mulheres negras com 40% a menos. Ao lado dessa bandeira queremos levantar a nossa histórica luta pela efetivação de todos os terceirizados, sem necessidade de concurso público, bem como a revogação da PL 4302 e a proibição das demissões nas fábricas. Não podemos aceitar deixar nossas vidas se acabarem pelos patrões, como muito bem colocou nossa companheira Lorena Gentile, no 1º de maio da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina.

A nível internacional, acabamos de lançar o Manifesto Internacional do grupo de mulheres Pão e Rosas, na Argentina, Chile, México, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Peru, Brasil, Alemanha, Estado Espanhol, França e Estados Unidos. Com nossas principais referentes como Andrea D’Atri, fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas na Argentina e Myriam Bregman, ex-deputada nacional, além de Barbara Brito, vice-presidente da Federação dos Estudantes do Chile queremos que este manifesto chegue a milhares de mulheres pois confiamos que este enorme fenômeno feminino em todo o mundo tem espaço pra uma ala revolucionária e anticapitalista, com as mulheres trabalhadoras na linha de frente.

No Brasil, vamos organizar lançamentos do Manifesto em dezenas de locais de trabalho e estudos, e queremos organizar estes debates nos estados brasileiros em que ainda não organizamos a agrupação Pão e Rosas, para ampliar e expandir estas ideias.

Esta primeira discussão que retrato aqui, entre as dirigentes mulheres do MRT teve também como objetivo ressaltar uma importante qualidade de nossa organização que entre quadros e figuras públicas tem importantes dirigentes mulheres. Nas últimas eleições pude compor nossa lista de candidatos do MRT pelo PSOL ao lado de grandes companheiras como Maíra Machado, Flavia Valle e Carolina Cacau. Vamos organizar cursos de formação, retomando os clássicos do marxismo revolucionário, mas também as novas elaborações, com o conjunto dos militantes e simpatizantes de nossa corrente, o que vai se combinar com o lançamento da segunda edição do livro "Pão e Rosas – Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo" de Andrea D’Atri e uma compilação de textos "Feminismo e Marxismo" da Centelha Cultural com as principais elaborações que viemos apresentando nos últimos anos, incluindo uma nova reflexão sobre as mulheres negras apresentada pela companheira Jennifer Tristán.

O Canal Ideias de Esquerda, que tem a frente Simone Ishibashi, uma das principais intelectuais brasileiras da atualidade, também estará a serviço de expressar estas reflexões, com vídeos que buscarão rememorar a importante experiência da Revolução Russa e a luta das mulheres bem como a atualidade do marxismo pra nos armar a enfrentar esta situação. Também vamos fortalecer a sessão "Gênero e Sexualidade" do Esquerda Diário, nosso principal instrumento partidário. Tudo isso porque, como dissemos queremos que o grupo de mulheres Pão e Rosas esteja a altura destas reflexões para ser uma agrupação que atue com toda a força, na primeira fileira, da luta nacional por uma greve geral até derrubar todas as reformas e o governo golpista de Temer. Com a estratégia revolucionária e socialista, que é a que condiz com as nossas aspirações pra libertar a humanidade da escravidão assalariada e assim abrir espaço para a nossa verdadeira emancipação.




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