Gênero e sexualidade

FEMINISMO

Feminismo sangue azul: estamos com a força das mulheres trabalhadoras

Nas redes sociais e na mídia o casamento entre Megan Markle e o príncipe Harry reacendeu o debate sobre o feminismo. Afinal, o que representa esse feminismo da realeza?

Patrícia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quarta-feira 23 de maio| Edição do dia

No último dia 19 aconteceu o casamento entre o príncipe inglês Harry e a atriz afro-americana Megan Markle. Imediatamente na mídia correram os detalhes do vestido e da cerimônia, reivindicados como feministas ou de alguma forma progressistas em relação às demandas das mulheres e dos negros. Mas quais os limite desse "feminismo" da realeza para a emancipação das mulheres?

O vestido de noiva feminista

Uma das primeiras matérias de destaque na mídia foi sobre o vestido da noiva. As manchetes mencionavam um suposto vestido de noiva feminista. Os vestidos de noiva, carregam uma longa história de simbologias no decorrer dos séculos. Cor e forma dos vestidos de noiva são expressões de classe e do papel da mulher na sociedade. O próprio cerimonial do casamento, com a tutela da noiva senda passado do pai ao esposo já é, em si, motivo de intenso debate e questionamentos.

A tradição do vestido branco, vinculado ideia da castidade (e consequentemente controle da sexualidade) feminina, é influência de uma rainha britânica do final do século XIX, a Rainha Vitória, cuja período de governo é marcado pelas rígidas regras de conduta e etiqueta e pelo moralismo e puritanismo da sociedade, além do avanço da dominação e exploração do império inglês sobre países africanos e asiáticos. Poderia se supor que a tradição do vestido branco, carregada de simbolismos "anti-feministas", poderia ser quebrada. Mas não foi o caso.

O tal "vestido de noiva feminista", é assim reivindicado porque tem como estilista a primeira mulher a assumir a direção artística da grife de alto luxo Givenchy. Uma grife que ao longo de sua história, ditou os padrões de beleza femininos da sociedade burguesa a partir da segunda metade do século XX.

Um detalhe no vestido chama a atenção. De acordo com a estilista, no véu foram bordadas 53 flores para representar os 53 países que compõe o Commonwealth.
O Commonwealth of Nations deriva do antigo império britânico e é a expressão do imperialismo britânico atual, cuja rainha Vitória foi parte fundamental na construção.

Outro detalhe reivindicado pela mídia burguesa é a leitura dos votos matrimoniais. Numa "tradição" iniciada pela princesa Diana, morta em 1996, ao repetir os votos ditados pelo bispo que conduz a cerimônia de casamento, Diana, seguida por Kate Middleton e agora Megan Markle, omitiram o verbo obedecer dos votos. Originalmente a frase seria "amar, cuidar e obedecer".

Embora tais ações possam transparecer expressões das lutas das mulheres, uma "princesa feminista" carrega em si mais contradições que avanços na luta pela emancipação. Mudanças culturais são importantes conquistas, mas em si mesmas são impotentes e insuficientes para acabar com a opressão às mulheres pois esta se sustenta e se reproduz nas relações de produção capitalista. O machismo é lucrativo e parte fundamental das engrenagens capitalistas.

Quebrar o "teto de cristal"

É inegável que nos altos cargos de governos, empresas ou no mundo acadêmico, entre outros exemplos, as mulheres ainda são minoria. É inegável também que as mulheres ganham menores salários que os homens, são maioria absoluta entre os mais pobres e os analfabetos. Embora ambos os dados sejam consequências diretas do machismo e do patriarcado mais mulheres chefiando estados ou empresas não significa na mesma medida uma diminuição da desigualdade salarial, ou da pobreza da população feminina.

Isso porque, se por um lado o gênero nos une, a classe nos divide. Quebrar o "teto de cristal" mantém intacta a lógica capitalista. Um exemplo, que vem também da Inglaterra, é Margareth Tatcher, primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo, responsável pelas políticas neoliberais inglesas dos anos 80, que reprimiu duramente a greve de mineiros entre os anos de 1984 e 1985, levando a demissão de mais de 200 mil mineiros. Mais que ocupar cargos da ordem capitalista, é preciso quebrar a lógica de exploração. Nesse sentido, uma princesa negra e feminista é funcional à manutenção dessa ordem. Ainda que o "cargo" de princesa seja diferente do cargo de uma primeira ministra da Inglaterra, cumpre a função ideológica de tornar o feminismo e a luta dos negros inofensivos à ordem capitalista.

Como coloca Andrea D’Atri no livro Pão e Rosas - Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo:

"Supor que somente por serem mulheres há algo que vincula a rainha britânica com as desempregadas inglesas, a ex-presidente argentina com as empregadas domésticas, as cantoras e empresárias internacionais latinas com as operárias mexicanas é, em última instância, cair no reducionismo biológico da ideologia patriarcal dominante que as mesmas feministas criticam seriamente. Falar de gênero assim, portanto, é fazer uso de uma categoria abstrata, vazia de sentido e impotente para a transformação que queremos levar adiante."

Veja também: As outras feministas

Princesas e rainhas do século XXI: símbolos reacionários da modernidade

A família real inglesa é a expressão da luta desesperada da aristocracia em conservar seu papel reacionário na sociedade moderna burguesa. As rígidas regras de etiqueta e cerimoniais, casamentos midiáticos, etc., são instrumentos da monarquia para manter o interesses dos "súditos" e garantir a manutenção dos privilégios de uma casta de parasitas.

Ao longo de séculos a monarquia inglesa cumpriu o papel de principal saqueadora dos países dos continentes americano, africano, asiático e da Oceania. O império inglês foi um dos principais responsáveis pelo sequestro de milhões de africanos vendidos como escravos nas colônias na América. O poderio econômico do império britânico, à sua época, deveu-se à riqueza acumulada com o comércio de escravos. A ascensão da burguesia, na Inglaterra, não eliminou a família real e a aristocracia, mas a manteve com o papel ideológico de manutenção das tradições da realeza para o controle das classes proletárias. Os cerimoniais, as tradições reais, as regras de etiqueta mantém a mística no imaginário popular em torno da nobreza ao mesmo tempo que fortalecem as instituições burguesas e a lógica capitalista.

A modernização de alguns costumes, sejam os votos matrimoniais, as vestimentas, ou presença constante nos tabloides e na mídia em geral são expressões de uma monarquia degenerada que luta para ter uma sobrevida. Uma princesa americana, negra e feminista não representa qualquer risco contra a manutenção da monarquia e da ordem capitalista. Ao contrário, um discurso que não enfrenta o cerne da opressão às mulheres e aos negros torna a luta dos oprimidos inofensivos à ordem capitalista.

A Inglaterra mantém leis anti-imigratórias cada vez mais rigorosas, reforçando o racismo e a xenofobia e legando à milhares de imigrantes das ex-colônias britânicas miséria, vulnerabilidade e precarização. Milhares de mulheres sírias foram bombardeadas por mísseis disparados pela coalizão entre os Estados Unidos de Trump, Reino Unido e França.

O apoio britânico sistemático a Israel, desde sua criação, é também responsável por manter presa Ahed Tamini e pela morte de milhares de mulheres palestinas.

É preciso um feminismo aliado às mulheres imigrantes, as operárias dos países do Commonwealth, às mulheres sírias e palestinas, às trabalhadoras inglesas. Um feminismo anticapitalista, anti-imperialista e socialista que se coloque junto a classe trabalhadora para lutar pelas demandas das mulheres.

A história, nas mãos da classe dominante, se não tenta apagar a luta das mulheres contra a opressão, tentando nos impor símbolos inofensivos de princesas, ou mulheres empoderadas da burguesia que romperam o "teto de cristal", igualmente inofensivas a ordem capitalista.

Nossa história é a história das mulheres lutadoras que junto aos oprimidos e explorados questionaram e combateram a escravidão, a exploração capitalista e a opressão patriarcal. Nossos exemplos vem de Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin na luta contra a escravidão. Vem de Lucy Parsons, a mulher "mais perigosa que mil manifestantes". Vem de Rosa Luxemburgo, a grande revolucionária que nem o brutal assassinato conseguiu apagar da história.

Não somos princesas ou rainhas. Não reivindicamos mais CEOs, mais chefes, presidentes mulheres às serviço da burguesia. Como colocou Myriam Bregman, deputada do PTS Myriam Bregman, no ato do 1º de maio na Argentina:

É por isso que somos feministas socialistas, feministas da classe trabalhadora!

Buscamos unidade com a nossa classe para avançarmos na luta contra o machismo e contra o capitalismo!

Leia também: Feminismo como nicho de mercado e a cooptação capitalista




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