Política

VACINA CORONAVÍRUS

Contra Bolsonaro e Doria, defendemos a vacina gratuita para todos que queiram

Contra Bolsonaro e Doria, defendemos ampla divulgação das pesquisas e acesso gratuito e universal à vacina, e a todos os métodos de prevenção e tratamento para todos que queiram.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP)

quarta-feira 21 de outubro| Edição do dia

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

O tiroteio retórico entre as forças internas do regime golpista ganhou novo capítulo. Dessa vez, a polêmica se deu ao redor do acordo de compra de 46 milhões de doses da Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantã. Bolsonaro afirmou que a vacina chinesa não será comprada, contrariando seu próprio Ministro da Saúde, a fim de se opor ao seu desafeto paulistano, o governador João Doria, que selara o pacto com a China.

A extrema direita e a direita golpista cruzam lanças em função do interesse político paroquial de cada facção da classe dominante, colocando as vidas de milhões, especialmente trabalhadores, negros e pobres, em risco. Tudo pela disputa por quem fica com o prestígio e consegue aparecer como responsável pela disponibilização da vacina, e para qual monopólio internacional, e qual dos países que disputam a corrida geopolítica pela vacina, vão os louros e os lucros - a cujo serviço esse sistema coloca nossas vidas e mortes.

Não faz mal a ninguém recordar que tanto Bolsonaro quanto Doria (como representante da postura de todos os governadores) não fizeram absolutamente nada para frear o impacto letal do coronavírus sobre a população trabalhadora e pobre. Doria buscou tirar proveito político do negacionismo de Bolsonaro, que com as doses cavalares de ignorância inerentes à extrema direita ridicularizava o sofrimento da população, especialmente trabalhadora, que perdia seus entes. Mas na prática, Doria imitava o desprezo de Bolsonaro pela saúde pública. Assim como o Planalto, o governo de São Paulo não disponibilizou a testagem massiva para a população, se negou a impor a reconversão da produção industrial que seria capaz de produzir respiradores mecânicos e leitos de UTI, obrigou milhões de pessoas a seguir trabalhando nas fábricas e galpões de logística em condições insalubres, e permitiu aos empresários demitir funcionários cujas famílias amargaram o desemprego em meio à pandemia.

Ora, Doria aplaudiu a proposta de suspensão de contratos e cortes salariais de Bolsonaro, e até se antecipou à reforma administrativa do governo federal, aplicando-a cruelmente em São Paulo.

Assim, a verdade é que essas facções da classe dominante, que montam seu circo sobre as chamas que organizaram, estiveram com os capitalistas contra a resolução da crise sanitária.

Agora, em meio à angústia das pessoas frente à possibilidade de obtenção da vacina e a eventual imunização contra a COVID19, os inimigos do povo voltam à carga para colocarem as vidas de milhões em troca de seus benefícios políticos. Bolsonaro e Doria são responsáveis por essa calamidade, assim como o conjunto do regime político golpista que os sustenta, incluindo os militares, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, que selou com Toffoli seu abraço junto ao bolsonarismo.

Bolsonaro nega a veracidade dos estudos científicos de imunização e as primeiras possibilidades encontradas para a sintetização de uma vacina, dizendo que não vai comprar a "vacina da China", que é "desconhecida" - logo depois de seu próprio Ministério da Saúde apontar que ela seria produzida pelo mesmo Instituto Butantã que produz a maioria das vacinas distribuídas pelo Ministério da Saúde. Assim, nega à população o direito de obter acesso livre e gratuito, se assim o quiser, a uma eventual vacina, ao obstaculizar sua pesquisa e desenvolvimento, jogando com a angústia da população que tem interesse imediato nessa alternativa para evitar a aquisição da COVID19.

Por outro lado, Doria faz demagogia com a vacina, da mesma forma que fez com todas as medidas de combate à pandemia que não existiram para a maioria da população pobre e trabalhadora. Já é possível antever que, na melhor das hipóteses, essa maioria vai esperar muito e ter acesso a essa vacina bem depois de ela começar a ser aplicada. Por isso, é preciso exigir em primeiro lugar - tanto em SP quanto em todo o país - a disponibilização e garantia de acesso universal e gratuito à vacina, de forma rápida e massiva, para todos aqueles que quiserem.

Essa é a obrigação dos governos que operaram a catástrofe sanitária que vimos em 2020. Ao mesmo tempo, o combate à pandemia não justifica de maneira alguma a imposição, por métodos de coerção estatal e punição, de uma obrigatoriedade de tomar a vacina, como ameaça Doria. É uma questão democrática elementar que ninguém deve ser forçado a receber tratamento médico, inclusive as vacinas, contra a sua vontade, e a esquerda não deve defender que o estado burguês tenha fortalecidos seus mecanismos de coerção e punição sobre as pessoas, que mesmo com a justificativa sanitária servirão para outros fins. Ao contrário da repressão, qualquer medida sanitária deve partir da prerrogativa do amplo acesso ao conhecimento e resultados das pesquisas em relação a vacina, e todas as formas de tratamento e prevenção, disponibilizando todos os recursos necessários para que o conhecimento científico não seja limitado à uma parcela pequena da população. A repressão direta do Estado, incapaz de resolver qualquer problema durante todo o ciclo da pandemia, está a serviço de um maior controle social em meio ao alto desemprego e a raiva dos setores populares contra os ajustes.

Bolsonaro e Doria são dois lados complementares da tragédia capitalista que encabeçaram essas distintas facções da classe dominante, nesse regime golpista. A verdade é que nem Bolsonaro nem Doria vão garantir acesso universal e gratuito à vacina. Não podemos cair na armadilha das disputas entre a extrema direita e os golpistas de toda figura. Devemos batalhar para que nossas vidas não estejam a serviço dessas disputas políticas e dos lucros dos monopólios que brigam pelos bilhões oferecidos pela vacina. Ela precisa ter produção estatal, sob controle e fiscalização das organizações de trabalhadores da saúde e científicas, e distribuição rápida e massiva para todos que queiram, assim como as demais medidas, equipamentos e condições de prevenção e tratamento contra a Covid-19, e que todo sistema de saúde seja centralizado sob controle dos trabalhadores, para que possa atender a população e não os lucros dos grandes empresários.




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