Política

EDITORIAL

Conclusões da greve geral e as tarefas da esquerda revolucionária

A quase um mês da última ação de luta da classe trabalhadora no Brasil, e de um semestre marcado por fortes paralisações como o dia 15 de março, mas particularmente a greve geral de 28 de abril, é preciso tirar lições para seguir a luta contra as reformas e o governo Temer. Conheça as opiniões do MRT.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

quinta-feira 27 de julho| Edição do dia

A quase um mês da última ação de luta da classe trabalhadora no Brasil, e de um semestre marcado por fortes paralisações como o dia 15 de março, mas particularmente a greve geral de 28 de abril, é preciso tirar lições para seguir a luta contra as reformas e o governo Temer. A posição frente ao golpe institucional em 2016, que dividiu águas na esquerda brasileira, permaneceu sendo um fator importante já que a enorme ofensiva do governo golpista para aplicação das reformas é resultado do próprio golpe, que tinha como objetivo aumentar os ataques que o PT já vinha fazendo. Ao mesmo tempo a Lava Jato, buscando se desvencilhar de uma posição "parcial", em pouco tempo voltou a expressar seus verdadeiros interesses em substituir um esquema de corrupção pelo outro, e favorecer interesses e empresas imperialistas no Brasil e na América latina. O mais chamativo é que existam setores da esquerda que ainda assim apoiem a Lava Jato.

A etapa da luta de classes aberta com as jornadas de junho de 2013 deixou colocado o signo da ação de massas no país, frente a ataques históricos como as reformas trabalhista e da previdência, antecedidos pelo golpe institucional, mas com a enorme contradição das direções das massas, amplamente atreladas ao PT e sua política de conciliação de classes que não somente abriu espaço para a direita como não organizou uma luta séria contra o golpe.

No marco de um momento de "crise orgânica", ou seja, de questionamento das representações e instituições, de uma divisão entre os de cima sobre como recompor sua hegemonia depois da falência de um “projeto burguês de país” (o lulismo), os trabalhadores brasileiros se levantaram contra a reforma da previdência, impondo às direções oficiais uma mobilização real e colocando na ordem do dia a tática de frente única operária, exigindo organização desde a base pra construir uma greve geral efetiva até derrubar Temer e todas as reformas.

Neste processo, com o PT se relocalizando na direção do movimento de massas, grande parte da esquerda seguiu a manobra petista de colocar centro na consigna de "Diretas Já", se adaptando a esta linha do PT de campanha eleitoral rumo a 2018, fortalecendo Lula como candidato e pra isso criando uma Frente Ampla Pelas Diretas Já que incluía partidos burgueses. Esta adaptação foi acompanhada de um silêncio ensurdecedor de grande parte da esquerda em relação ao papel das grandes centrais sindicais como a Força Sindical, mas também a CUT e a CTB que compõem as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Ou seja, o que deveria ser uma política de exigência acompanhada da necessária denúncia pra se construir um verdadeiro polo alternativo na luta de classes se transformou em "unidade a todo custo" com "análises profundas" que remetiam o sucesso da greve geral de 28 de abril ao fato de que "finalmente as centrais sindicais se entenderam", ou seja, ignorando o plano comum das centrais contra o desenvolvimento da luta de classes, toda a dinâmica das classes e o peso da classe operária em ação.

As delações da JBS e a possibilidade da queda de Temer literalmente "a qualquer momento" reforçaram aspectos pré-revolucionários na situação, que puderam avançar até o limite que as direções permitiam. A ação em 24 de maio em Brasília apesar de importante não teve força suficiente pra vencer o governo. A demora em convocar uma nova greve geral já era parte do plano de desmobilização, marcando pra uma data longínqua e espalhando todo o tipo de boato por baixo pra ir desarmando a greve. Enquanto isso, CUT e CTB, com ajuda de boa parte da esquerda, balançavam a bandeira das Diretas Já. Nós do MRT fomos linha de frente da luta contra o golpe quando o sufrágio universal estava atacado, e consideramos legítimo o sentimento de setores de massa de quererem votar para presidente, mas a esquerda, em especial aquela que se apresenta como alternativa ao PT, deveria levantar uma saída política de fundo e não uma política que serve apenas pra mudar os jogadores deste sistema podre e que terminava sendo funcional somente ao PT. Com a nova ofensiva da Lava Jato contra Lula buscaram reforçar esta campanha.

Enquanto a Força Sindical negocia o imposto sindical com o governo, de costas pra classe trabalhadora, a CUT e a CTB traem e boicotam as medidas de luta enquanto nas palavras dizem querer fazer uma grande campanha contra as reformas e que uma próxima greve geral estaria em seu "radar". O fato é que num momento de maior abertura para ideias radicais, tanto à esquerda quanto à direita - como vemos nas pesquisas com Jair Bolsonaro ou no espaço conquistado por Freixo no Rio de Janeiro nas últimas eleições - a traição das centrais sindicais, a aprovação da reforma trabalhista e a política do PT de desmontar a greve geral do dia 30 pra garantir uma boa campanha eleitoral pra Lula mais uma vez abriram espaço para se assentar uma relação de forças mais à direita.

Com isso, a conjuntura pré-revolucionária aberta entre maio e junho com o salto na crise nas alturas e com a possibilidade de novas ações de massas após a greve geral histórica de 28/4, aquela conjuntura refluiu e se fechou; porém no marco de uma situação complexa em que a partir da volta do recesso parlamentar podemos voltar a ter conjunturas mais “quentes” no segundo semestre.

Em todo este processo faltou uma esquerda com enraizamento social com uma estratégia decididamente revolucionária e para a luta de classes, que pudesse ser um polo alternativo à burocracia sindical. Uma esquerda que encabeçando todas as ações de massas convocadas, também denunciasse que a burocracia rechaça o caminho da mobilização independente das massas para derrubar as reformas e Temer e frear o autoritarismo do judiciário.

Por um lado, uma esquerda consequente com a busca de uma saída política para os trabalhadores deveria levantar com a maior força a consigna da Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela força da mobilização, única bandeira capaz de agrupar os setores mais conscientes da classe operária na necessidade de não permitir que a crise se fechasse por cima, com um "golpe dentro do golpe" como as eleições indiretas, ou com uma bandeira democrática como as Diretas Já sendo utilizadas como desvio do processo de luta com apoio de Fernando Henrique Cardoso e da Folha de São Paulo.

Faltou também uma esquerda que desde o começo não tivesse ilusões nas burocracias sindicais, que desde o começo alertasse que elas iriam trair conforme seus interesses e que por isso era fundamental desenvolver com força a auto-organização dos trabalhadores exigindo de suas direções um plano de luta concreto.

No MRT, com a experiência de nossa corrente internacional a FT, que tem o PTS argentino como partido de principal expressão, buscamos com todas nossas modestas forças e através do Esquerda Diário firmar uma posição classista e revolucionária diante da conturbada conjuntura dos últimos meses. Levantamos bem alto a bandeira da Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela greve geral, uma política de choque dos interesses da imensa maioria da população trabalhadora contra todas as instituições do regime burguês, pra mudar as regras do jogo anulando todas as reformas e leis antipopulares do governo Temer e também dos governos anteriores e facilitar o caminho das massas em sua experiência com a falsa democracia atual para a conclusão de lutar por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Ao mesmo tempo, sendo parte de todas as ações convocadas pelas centrais com eixo na batalha contra as reformas, nós do MRT buscamos dar exemplos nos lugares onde temos peso batalhando pela constituição de comitês de base, organismos elementares pra que os trabalhadores se coloquem como sujeitos da luta, e no momento em que se tornou mais claro aos olhos das massas o início da traição e do boicote das centrais, encabeçamos uma grande campanha "Tomar a greve geral em nossas mãos", uma popularização da ideia de auto-organização dos trabalhadores para batalhar em vários estados do país por uma política independente.

Uma campanha desta, se tomada pelo conjunto da esquerda de forma decidida como o PSOL e as centrais sindicais da esquerda como a CSP-Conlutas e a Intersindical, colocando toda sua força material, parlamentares, espaço de TV poderia ter tido um enorme efeito contra a política traidora das burocracias sindicais e do PT. Um efeito semelhante seria alcançado se hoje usassem sua força material para exigir a anulação da reforma trabalhista.

A esquerda argentina vem dando exemplos que deveriam servir como referência para a esquerda brasileira. Depois das conquistas importantes com diversos exemplos na luta de classes como Kraft, Donneley e Lear (para falar dos mais recentes) e com uma projeção superestrutural conquistada pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, pela sigla em espanhol), como uma frente com um programa de independência de classe, agora dá um novo salto com a luta de Pepsico. Esta batalha, a partir de uma dura luta em uma fábrica, gerou medo no governo Macri, que ordenou diretamente a desocupação da fábrica, mas gerou um enorme rechaço popular que obrigou o governo a recuar nos anúncios da reforma trabalhista. Temos orgulho de como PTS estar contribuindo decisivamente para essa luta, por ser direção da fábrica há anos, mas sempre na perspectiva de ampliar ao máximo a frente de luta contra as demissões, sem nenhum sectarismo, como se expressou no ato que reuniu 30 mil contra a repressão. Agora, se abre uma conjuntura eleitoral onde diversas pesquisas apontam que o candidato a deputado federal Nicolás Del Caño, do PTS, assim como a FIT de conjunto, terão resultados eleitorais ainda superiores aos das últimas eleições, ampliando a influência da esquerda que se baseia na luta de classes.

Neste sentido, é preciso evitar e enfrentar todo o tipo de desmoralização construída pelo próprio PT com sua política traidora, e se apoiar na força da classe operária brasileira que teve seu auge no dia 28 de abril para tirar lições deste processo e transformar nosso ódio de classe contra as reformas e nossa raiva contra a traição das centrais sindicais em organização concreta para seguir lutando contra todos os ataques, mas que dessa experiência também se compreenda que é necessário ir além da resistência aos ataques.

Como vimos, não é um detalhe para as lutas operárias na Argentina que exista um partido como o PTS, que é hoje o principal partido de uma frente que defende um programa de independência de classe como a FIT. Para além das lutas imediatas, para além dos momentos mais convulsivos, é preciso construir uma organização revolucionária que se prepare para os grandes embates de classe, e que não tenha como "modelo" as versões neo-reformistas da esquerda europeia como Syriza e Podemos, que já demonstraram que vieram pra "humanizar" o capitalismo ou diretamente assumir os planos neoliberais, como é o caso da Grécia.

Por tudo isso, convidamos todos os companheiros e companheiras que participaram ativamente deste amplo processo de luta no Brasil e que compartilharam conosco da defesa destas políticas e campanhas ou que simpatizaram com elas, a conhecer o Movimento Revolucionário de Trabalhadores e seguir se preparando para os próximos desafios da luta de classes no Brasil, mas compreendendo que nossa luta não é pontual, é a luta pra construir uma esquerda revolucionária, anticapitalista e socialista em todo o mundo capaz de retomar as bandeiras da IV Internacional de Leon Trotsky e batalhar pela revolução internacional rumo à construção de uma sociedade comunista. São tarefas apaixonantes que queremos debater com todos os companheiros e companheiras, conforme viemos levando adiante com amplas atividades de propaganda comunista em vários estados, junto ao movimento operário e a juventude, como o Acampamento da Juventude Faísca e do Grupo de Mulheres Pão e Rosas.

Temos consciência que para a magnitude dos desafios que nos propomos, nacional e internacionalmente, não bastam as nossas forças. Que a construção de uma alternativa revolucionária para o conjunto da nossa classe será fruto de um amplo processo que vai envolver milhares e milhões em todo o país, incluindo parte das organizações de esquerda hoje. Por isso, nós do MRT solicitamos a nossa entrada no PSOL, por ser o partido que se consolidou como a principal referência à esquerda do PT, para batalhar por nossas ideias por dentro do partido. As candidaturas democráticas do MRT pela legenda do PSOL nas últimas eleições foram uma importante experiência em comum que para nós deveria ser parte de uma continuidade. Além disso, atuamos na CSP-Conlutas, batalhando por ser parte da construção de um polo sindical antiburocrático. Com essas iniciativas, buscamos somar nossas forças com as de outros setores, sempre fazendo francamente os debates que consideramos cruciais para emergir com peso uma esquerda classista e revolucionária que possa de fato fazer diferença na luta de classes.

Nessa perspectiva encaramos as tarefas imediatas que temos pela frente.Queremos levar com tudo a batalha contra a reforma trabalhista, que parte da propaganda enganosa do governo foi transformá-la em uma espécie de "mal menor" frente à reforma da previdência, quando se trata de um ataque histórico. É nossa tarefa batalhar pela imediata anulação da reforma trabalhista, denunciando amplamente a vergonhosa traição e boicote das grandes centrais sindicais que terminaram abrindo espaço pra este ataque que significa destruir o futuro da juventude, devastar a vida das trabalhadoras negras no nosso país que ganham 40% a menos que os trabalhadores brancos e acabar com décadas de luta operária por melhores condições de trabalho. Mostrar que nossas vidas valem mais que o lucro deles, e por isso exigimos o fim do pagamento da dívida pública e reforma agrária radical que acabem com a subordinação ao capital estrangeiro, nenhuma demissão, redução da jornada de trabalho sem redução salarial, efetivação de todos terceirizados sem necessidade de concurso ou processo seletivo, salário mínimo do DIEESE e igualdade salarial. Grandes empresas como a Odebrecht e a JBS devem ser expropriadas e estatizadas, sob controle dos trabalhadores. Essas e outras demandas, batalhamos como parte da defesa de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que anule a PEC 55, a lei da terceirização, a reforma trabalhista e a reforma da previdência ainda não aprovada. Mas que avance pra questionar todos os projetos da burguesia brasileira que querem descarregar a crise sobre nossas costas. Por tudo isso, é preciso uma nova greve geral já.




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