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Com escândalos e renúncias começa a convenção democrata

A presidenta do Comitê Nacional Democrata (CND) teve que renunciar no domingo. Debbie Wasserman Schultz se viu comprometida no vazamento de 19 mil e-mails na sexta-feira dia 22 na página do WikiLeaks, que revelou que os membros da direção discutiram formas de prejudicar a campanha do senador por Vermont, Bernie Sanders.

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

terça-feira 26 de julho de 2016| Edição do dia

A renúncia de Schultz chega no pior momento, quando Hillary Clinton se prepara para aceitar a nomeação e alinhar seu partido atrás de sua candidatura. Para Clinton e o partido é vital contar com o apoio da base de Bernie Sanders para ganhar em novembro.

Para muitos votantes de Sanders, o vazamento dos e-mails só confirma suas suspeitas de que o establishment democrata atuou contra o candidato adotado pela juventude como porta-voz de seu descontentamento, que surpreendeu com uma ampla campanha recordista em arrecadação de fundos e trouxe uma dura disputa à favorita do partido.

Ainda que Sanders já deu seu apoio oficial à Clinton e manteve um baixo perfil com respeito à publicação dos e-mails, é impossível assegurar hoje quais repercussões terá este acontecimento em uma convenção onde uma parte importante dos delegados não leva a incumbência de votar por Clinton.

Um escândalo anunciado

Este vazamento não é o primeiro. Em fins de junho, o mesmo hacker que se reivindica a recente publicação no Wikileaks havia vazado documentos do CND em que se discutiam como manipular os jornalistas, e se vê uma clara preferência por Hillary Clinton em plenas primárias (em maio de 2015 já anunciavam seu triunfo e nutriam os preparativos para a eleição geral).

No mesmo vazamento se recordava a eliminação das amarras para que os lobistas aportassem financeiramente ao partido. As restrições, estabelecidas por Barack Obama em 2008, foram eliminadas pela deputada Schultz.

Em fevereiro de 2016, o diário Washington Post havia publicado que, “a reversão absoluta da proibição prévia de doações de lobistas e comitês de ação foi confirmada por três lobistas democratas que disseram haver recebido solicitações do Comitê”. Essa denúncia se amplificou em vozes críticas como a do jornalista Shaun King, ativista contra o racismo e a violência policial, parte de Black Lives Matter, que convocou os seguidores de Bernie Sanders a abandonar o partido democrata por considerá-lo irreformável.

Uma partida sem luz para Clinton

Em um comunicado, a presidenta do CND disse que a melhor maneira do partido conseguir sua meta de levar Clinton à Casa Branca era que ela renunciasse. A renúncia, ainda que acalmará os ânimos, é um golpe para o partido e especialmente para Clinton, que deve projetar estabilidade e confiança. Bernie Sanders já havia pedido sua renúncia no dia anterior. O senador disse que Schultz havia tomado a decisão correta para o futuro do Partido Democrata. “A direção do partido sempre deve permanecer imparcial no processo de nomeação presidencial, algo que não ocorreu durante a campanha”. Mais uma vez, Sanders depositou mais expectativas na reforma de um partido irreformável, o que mostrou que seus laços com Wall Street e as grandes empresas permanecerão intactos apesar do descontentamento da base democrata. Ao mesmo tempo, o partido e a própria Clinton adotaram algumas demandas dos milhões de jovens que motorizaram, financiaram e militaram na campanha de Sanders. Mostra disso é a inclusão do problema da dívida estudantil na plataforma e na eliminação dos superdelegados. De fato já estava assegurada a moção para apresentar à convenção e confirmar que já se utilizaria esse mecanismo para as eleições de 2020. Pouco depois da vitória de Clinton nas primárias, se percebeu uma votação que indicava que só a metade dos votantes de Sanders já havia decidido apoiá-la nas eleições gerais. Mesmo assim, a nomeação oficial de Donald Trump e seu discurso na convenção republicana fazem crescer uma grande “campanha do medo” para votar em Clinton como mal menor. E Clinton aposta que essa porcentagem cresça e ganhe maior apoio entre os votantes de centro, inclusive setores republicanos temerosos da direção que tomaria o país em uma potencial presidência de Trump.

Será suficiente o fantasma de Trump para que Clinton volte a ser suficientemente atrativa? No momento o impacto do discurso do candidato “da lei e da ordem” beneficia os republicanos, que se colocaram melhor em vários estados disputados. Porém, nenhum resultado está assegurado.

Como se sucedeu em Cleveland com os republicanos, a convenção da Filadélfia será um adiantamento da campanha democrata. Ao escândalo que já marca o clima do evento que nomeará Clinton, se esperam protestos e ações fora do estádio. Desde domingo, partidários de Bernie Sanders, organizações de esquerda e movimentos sociais realizam ações.

Um vice-presidente que soma ou subtrai?

Hillary Clinton confirmou os rumores e indicou na sexta-feira o senador por Virgínia, Tim Kaine, como candidato à vice-presidência. Kaine era o nome mais destacado em uma lista de meia dúzia de democratas bem posicionados, como a senadora progressista por Massachusetts, Elizabeth Warren, ou o secretário do trabalho, Thomaz Pérez.

Contra as expectativas dos setores progressistas que sonhavam com uma cédula 100% feminina, com Warren como vice, Clinton optou finalmente por uma alternativa de centro, para escorar sua candidatura. Kaine é apontado como um democrata que chega nos latinos, fala castelhano e é popular em seu estado (importante eleitoralmente).

Clinton quer que Kaine fortaleça a chapa com seu perfil amável , mas restrito a temas que preocupam a base democrata e importantes setores da população, como o controle de armas. Como governador, Kaine promoveu um controle de armas estrito depois do tiroteio na Universidade Virginia Tech, que deixou 32 mortos, e se enfrentou com a oposição da poderosa Associação Nacional do Rifle (NRA, em sua sigla em inglês).

Entretanto, os setores de base progressista, quem Clinton necessita para ganhar as eleições, não receberam positivamente a candidatura de Kaine. Como governador, apesar de sua “oposição moral” (segundo suas palavras) Kaine permitiu que se levassem a cabo 11 execuções pela aplicação da pena de morte. Apoiou o tratado de livre comércio e suas relações com Wall Street e as grandes empresas sempre foram extravagantes.

Um dos pontos mais fracos, incluindo para setores da base da própria Hillary, é a oposição de Kaine ao direito ao aborto. “Clinton é progressista? Não se escolhe Tim Keina”, foi a resposta da defensora dos direitos reprodutivos Jodi Jacobson. Kaine não sei opõe formalmente ao aborto, não apoia pessoalmente por motivos religiosos. Apesar disto e ainda que tenha tratado de cultivar uma imagem amigável com os direitos das mulheres, é conhecida sua participação na lei que obriga as mulheres que desejam interromper sua gravides à uma ecografia e um ultrassom (em que se escuta os batimentos do feto), medicinalmente desnecessários. Nessa instância, é fornecida para a mulher informação sobre “alternativas” como a adoção e sobre as consequências na saúde que, segundo organizações que defendem os direitos reprodutivos, são uma manipulação.

Tradução: Alexandre "Costela"




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