Teoria

NAZISMO É DE DIREITA

Coisa de Nerd: nazismo e stalinismo não são simplesmente dois "totalitarismos"

Uma opinião marxista sobre a resposta de Leon Martins e Nilce Moretto a Nando Moura.

terça-feira 22 de agosto| Edição do dia

A marcha neonazista em Charlottesville horrorizou a toda e qualquer pessoa minimamente “democrática” que vive sobre a superfície do planeta. Não é (ou, pelo menos, não deveria ser) surpreendente que, entre elas, estejam o casal de YouTubers Nilce Moretto e Leon Martins. Este último, bacharel em Relações Internacionais pela PUC-MG e mestre em Estudos Europeus por Flensburg (Alemanha) e Syddansk (Dinamarca), criou, em 2010, o canal Coisa de Nerd, sobre videogames, o qual tem mais de 7 milhões de inscritos, e também faz, junto com sua esposa, ex-jornalista, o canal de dailyvlogs Cadê a Chave?, com 2,3 milhões de inscritos. Naturais do Brasil, os dois mudaram-se para o Canadá em 2014, quando Leon recebeu um convite de trabalho da empresa canadense BroadBandTV. Duas pessoas, portanto, insuspeitas de serem “esquerdistas”.

Ao mesmo tempo que suásticas eram ostentadas impunemente em plena luz do dia em Charlottesville, o casal de YouTubers gravava o episódio 1038 de Cadê a Chave? ,no qual –depois de propagandearem os anos 1990 (o auge da restauração burguesa) como uma época de muito otimismo (para quem? Para que classe?) em que “a gente não precisa mais mais viver com medo” e a única preocupação tanto da direita quanto da esquerda seria a ambiental –pedem aos seus inscritos que “façam sua parte”, que não sejam intolerantes e resistam à polarização entre direita e esquerda, ao pensamento “bélico”, ao “radicalismo”, etc. Ou seja, um discurso do senso comum “pós-ideológico”, aparentemente nem de direita, nem de esquerda, que poderia muito bem ter sido feito por algum ator ou atriz da Globo. Nem mesmo esse discurso impediu Leon e Nilce de serem tachados de “esquerdistas” por vários YouTubers de direita, entre os quais o infame Nando Moura, simplesmente porqueambos sabem, assim comotodo e qualquer intelectual minimamente sério(até os da burguesia!), assim como os próprios neonazistas de Charlottesville sabem...que o nazismo é de direita!

Três dias depois do episódio, Nando Moura publicou em seu próprio canal um vídeo intitulado Cadê a Chave do comunismo?, cuja thumb, tão sensacionalista e desonesta quanto o título, é uma montagem de Leon, vestido de Stalin (!!!), sobre um fundo vermelho com a foice o martelo. Neste vídeo, Nando tenta ridiculizar o marido de Nilce (fracassadamente; termina é ridicularizando a si próprio!) por seus tweets desmascarando a grosseira falsificação histórica que é afirmar que o nazismo é de esquerda, acusa este último de desinformar seus inscritos e, ato contínuo, “cita”vários historiadores que (supostamente)classificam o nazismo como esquerda. Leon e Nilce, então, gravaram um vídeo-resposta no qual explicam como as “citações” por parte de Nando são descontextualizadas, distorcidas – a maioria são citações indiretas do Guia politicamente incorreto da história do mundo, de Leandro Narloch –, seus autores dizem exatamente o contrário, ou seja, que o nazismo é (sim!) de direita, e que há totalitarismo em ambos os lados do espectro político, esquerda e direita.

No vídeo-resposta, Leon afirma que o nazismo é de direita pois é antimarxista e nega a luta de classes, tentando substitui-la por uma unificação nacional e racial da Alemanha “acima” das classes sociais, além de negar o “universalismo” marxista, afirmando, em seu lugar, a superioridade racial e cultural alemã em relação ao resto da humanidade. Portanto, raça e nação são conceitos muitíssimo mais importantes que o conceito de classe, em relação à doutrina nazista.Tanto basta para que até o mainstream acadêmico liberal-conservador (que é burguês) classifique o nazismo como extrema direita! Para os marxistas, há menos dúvida ainda. O nazismo é de extrema direita não somente porque diminui a importância da “identidade” de classe ou porque nega o conceito, a ideia da luta de classes, mas sobretudo porque é uma ideologia e uma força social capitalista por excelência: é a política de extermínio físico da classe proletária por parte da classe burguesa quando a propriedade privada desta classe é posta em xeque pela revolução social do proletariado. Em suma, o nazismo é a negação diametralmente oposta do comunismo;é a contrarrevolução na sua forma mais pura!

Nós, marxistas, não definimos direita e esquerda segundo as formas das ideias, dos símbolos, ou abstrações como Estado versus mercado, individualismo versus coletivismo, etc., e sim segundo o conteúdo de classe da política. Grosso modo, são de direita os partidos e doutrinas que defendem, de maneira mais ou menos direta, os interesses sociais da burguesia, e de esquerda os que defendem, de maneira mais ou menos direta, os interesses sociais do proletariado. Obviamente, isto é uma generalização. À esquerda do espectro político, por exemplo, os reformistas são agentes da burguesia “infiltrados” nas organizações proletárias. Se, por um lado, defendem (vacilantemente) interesses imediatos dos trabalhadores, como emprego, salário, condições de trabalho, etc., por outro, agem como “freio”, dividindo os trabalhadores, traindo suas lutas e propagandeando ilusões em relação à democracia burguesa.

Os anarquistas, por sua vez, são ultra-esquerdistas, ou seja, seu discurso é aparentemente mais “radical”, mais “de esquerda” que o marxismo, mas essa pretensa radicalidade, na prática, é contraproducente, enfraquece o proletariado. Durante o processo da Revolução Russa, o anarquismo era a ideologia doscamponeses que saqueavam os carregamentos de suprimentos do Exército Vermelho e se negavam a entregar os alimentos de que este Exército precisava; objetivamente, portanto, fortaleciam o Exército Branco contrarrevolucionário. Em geral, o anarquismo foi expressivo somente no começo do movimento operário, e naqueles países onde o artesanato e a manufatura eram predominantes sobre a grande indústria. Sua base social não é o operariado industrial, fabril propriamente dito, mas sim a pequena burguesia, os estratos sociais semiproletários da cidade e do campo, e o lumpemproletariado (setores marginalizados da sociadade, etc.); elementos desclassados (isto é, sem classe social, sem lugar na produção social).

Ainda que nenhuma generalização possa substituir a própria realidade, é inegável que o nazismo é de extrema direita em relação aos interesses de classe que defende. Mas, antes de explicarmos melhor o porquê disso, é importante desmentir o que há de ideológico (isto é, de falso) também no vídeo-resposta de Leon e Nilce. O casal de YouTubers usa o termo “comunismo” –e diz ser esta uma forma de totalitarismo de esquerda – referindo-se indistintamente tanto a Lenin quanto a Stalin, e chega até a afirmar que Stalin seria o continuador da estratégia leninista!Existe toda uma literatura(a qual não seria viável reproduzir aqui) que desmascara como o stalinismo é não a continuação revolucionária do bolchevismo leninista, e sim sua negação contrarrevolucionária, a qual apropriou-se de sua aparência afogando seu conteúdo libertário no sangue dos leninistas de carne e osso – que morreram lutando pela democracia operária –, dentre os quais o nome principal é Leon... Leon Trotsky. Convidamos à leitura deA revolução traída, de Trotsky, e dasobras do historiador francês Pierre Broué, que, a despeito de sua militância trotskista, é reconhecido por seu rigor científico até mesmo por historiadores de direita.Mulher, Estado e Revolução, de W. Goldman, mede o abismo que opõe os primeiros anos da Revolução Russa sob a direção de Lenin e Trotsky ao retrocesso stalinista em relação à vida das mulheres.

Diremos apenas que, às vésperas da Revolução de Outubro, Lenin escreveu um panfleto, intitulado O Estado e a revolução, expondo como deveria ser o Estado proletário desde o primeiro dia da conquista do poder. Este Estado, segundo Lenin, seria governado por conselhos de representantes eleitos entre os próprios trabalhadores, nas fábricas, que continuariam ganhando o mesmo salário de um operário, e cujos mandatos seriam revogáveis, ou seja, os trabalhadores poderiam substituir seus representantes quando quisessem, diferentemente das “democracias” de hoje, em que os políticos mentem para se eleger e continuam no poder durante anos, até a próxima eleição. Todaburocracia(funcionários das secretarias, ministérios, etc.) seria gradual e progressivamente substituída por uma gestão rotativade toda a massa trabalhadora e popular;seria, portanto, um “semi-Estado”, que seria “reabsorvido” pouco a pouco pela sociedade civil, enfraquecendo, definhando a cada dia. Um Estado talseriaum milhão de vezes mais democrático que a mais democrática das democracias burguesas!Há algumparalelo entre esse Estado “leninista” e o totalitarismo de Stalin e Hitler?

Mas o que é o nazismo, afinal?

A estratégia leninista nunca concebeu a Revolução Russa como um fim em si mesma (ao contrário de Stalin, que inventou um suposto “socialismo” em um só país), mas como o “detonador” de uma revolução internacional, a qual se expandiria por todos os países participantes da Primeira Guerra Mundial, e que não poderia triunfar a não ser que o proletariado conquistasse o poder em alguma das potências da Europa ocidental. Depois que o proletariado russo conquistou o poder, outras tentativas de revolução “explodiram” em vários países do continente europeu, entre os quais Itália e, principalmente, Alemanha, onde houve um processo revolucionário quase contínuo, ininterrupto, entre 1917 e 1923. Foi nesta situação de instabilidade permanente da dominação burguesa que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães tentou seu primeiro golpe de Estado, não coincidentemente, em novembro de 1923, menos de um mês depoisdo aborto da revolução por parte da Internacional Comunista, então dirigida por Stalin, Kamenev e Zinoviev. Logo após o golpe fracassado, Hitler escreverá seu MeinKampf (Minha Luta) na prisão.

Durante esse mesmo processo, grupos de “choque” fascistas atacaram pela primeira vez os trabalhadores que, em 1920, ocuparam as fábricas de toda a Itália. Onazi-fascismo foi a reação da burguesia à força que o ascenso proletário mundial pós-Revolução Russa demonstrou. O dirigente trotskista Ernest Mandel define o fascismo – cuja “versão” alemã é o nazismo – como “produto de uma severa e sistemática crise do capitalismo monopolista (imperialismo), onde a valorização normal do capital sob condições de democracia parlamentar burguesa é progressivamente minada.”[1] Para re-normalizar o regime de valorização do capital que o ascenso proletário de 1917-23 desestabilizou, a burguesia usa a ruína das classes médias(pequenos empresários falidos, profissionais liberais desempregados, etc.),além de elementos do lumpemproletariado, como os desempregados crônicos, e até alguns elementos politicamente atrasados, menos conscientes do próprio proletariado, incitando esta base social desclassada (que não difere totalmente da base social do anarquismo) a violentar a classe trabalhadora e, sobretudo, suas organizações: sindicatos e partidos políticos.

“Esmagada” até então entre as organizações operárias e o grande capital monopolista, essa areia movediça humana logo torna-se umaorganização de massas, dirigida por um líder carismático que, a principio, age de maneira aparentemente autônoma em relação à burguesia e pode, inclusive, ter algo de demagogicamente anticapitalista em seu discurso (seu verdadeiro interesse é a abolição não da propriedade privada capitalista em si, mas tão somente a do grande capital monopolista, contra o qual o pequeno burguês não pode competir), mas cujo ódio é muito maior e transforma-se em violência física e terror apenas contra os trabalhadores, a quem os fascistas responsabilizam pela instabilidade, desordem, e que, por sua vez, são alvos muito mais acessíveis que os grandes capitalistas. Em pouco tempo, os grupos fascistas conscientizam-se da necessidade de financiamento para ter uma vantagem decisiva sobre o proletariado, que também se defende de maneira organizada.Contraditoriamente, tal financiamento não pode ser outro que o daquele grande capital monopolista que esmaga e arruína as classes médias.

Em geral, a burguesia prefere formas “democráticas” de dominação do proletariado às formas abertamente ditatoriais, pois, para o senso comum, a democracia burguesa parece estar “acima” das classes, o que possibilita a burguesia (com a ajuda da esquerda reformista) igualar, na consciência das massas populares, os seus interesses de classe particulares aos interesses gerais de toda a nação.Todavia, a aparência democrática desta forma de dominação burguesa não seria crível se a burguesia não aceitassenenhuma liberdade ou direito substancial do proletariado, principalmente de organização sindical e político-partidária. Mas, se a burguesia aceita a existência de organizações operárias, aceita por conseguinte que (pelo menos até certo ponto) a luta de classes seja parte da “legalidade democrática”, e que os trabalhadores possam negociar a venda da força de trabalho coletivamente, diminuindo a exploração, além da possibilidade, do risco de que o proletariado desestabilize o regime de valorização do capital e quiçá a própria dominação burguesa.Tal risco, depois do dramático ascenso de 1917-1923, era um risco que a burguesia europeia não podia mais correr.

O grande capital monopolista, então, instrumentaliza o movimento das massas amorfas arruinadas e – como os fascistas não podem exterminar toda a classe trabalhadora, pois não haveria quem o capital explorar – põe-no no poder para assassinar a vanguarda (isto é, os elementos politicamente mais avançados, mais conscientes) do proletariado e destruir suas organizações sindicais e político-partidárias, até mesmo os partidos reformistas, e, assim, atomizar o proletariado.Se, inicialmente, a retórica nazi-fascista poderia talvez ter alguma coisa demagógica de anticapitalismo, no poder, o nazi-fascismo é o império do grande capital monopolista. Na Alemanha, a indústria armamentista, metalúrgica/siderúrgica, mineradora, química, como a IG-Farben, e os bancos, como o Deutsche Bank, foram alguns dos capitais que financiaram o nazismo.Essas relações orgânicas entre aburguesia alemã e o partido nazista dificulta ainda mais a redução tanto do nazismo quanto do stalinismo a meras “versões” de direita e de esquerda(respectivamente) de um mesmo “totalitarismo”, criticada por Simone Ishibashi,que seriam ambos avessos à propriedade privada.

Trotsky foi um dos primeiros a comparar os regimes de Hitler e de Stalin, caracterizando-os como instáveis, transitórios, isto é, como regimes que (ao contrário da democracia burguesa) não poderiam definir toda uma época histórica, mas enfatizando a diferença de conteúdo entre os dois: enquanto o stalinismo apoia-se (de maneira contraditória, parasitária) sobre as bases de uma revolução proletária, as bases do regime nazista são a propriedade privada e “o terror das classes possuidoras da Alemanha diante da revolução socialista.” Após a morte de Trotsky, a forma de sua crítica foi apropriada e esvaziada de qualquer conteúdo de classe por parte de liberais, das mais refinadas, como Hannah Arendt, aos mais vulgares, como Friedrich Hayek, que define o nazismo como um regime (supostamente) “coletivista”, tanto quanto o stalinismo, muito embora, segundo Mandel, “As aparentes ‘interferências’ estatais na economia eram, na realidade, em nove de dez casos, medidas direcionadas para o fortalecimento do autocontrole do capital monopolista, incluindo o apoio aos grandes negócios para disciplinar as firmas menores e mais fracas (cartelização forçada) na corrida de preparação para a guerra imperialista predatória. Não houve nenhuma usurpação econômica das grandes empresas pelos nazistas.”[2]

[1] Trotsky como alternativa. São Paulo: Xamã, 1995. p. 148.
[2] Idem. p. 157.Itálicos nossos.




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